O alimento, embora seja uma necessidade básica, responsável pela saúde e bem
estar dos indivíduos, passou a ser visto, nas sociedades modernas, como um
objeto de desejo e, portanto, de consumo, sendo exibido e admirado nas vitrines
das lojas de conveniência, supermercados, shopping centers e demais locais
comerciais de grandes centros urbanos como uma mera mercadoria.
Todo
um aparato em termos de decoração de ambiente e ornamentação de pratos é
preparado para fazer o consumidor “morder a isca”, tornando apetitosos e
irresistíveis os alimentos ofertados através da criação de uma enorme
variedade de sabores, cores e aromas artificiais, e apresentando-os em
recipientes ou embalagens não menos atraentes.
A
meta da ideologia econômica subjacente a esse mercado é exclusivamente o
lucro, em detrimento da saúde do consumidor, o qual é induzido por todos os
meios e, principalmente, pela publicidade, a comer sem refletir.
A
conseqüência imediata do hábito de ingerir produtos não balanceados, que
pecam pelo excesso de calorias, de gorduras, de sal, de açúcar, de produtos químicos
e de toxinas (como é o caso da carne animal) é a afetação do paladar e do
olfato, os quais se tornam paulatinamente viciados em alimentos nocivos. E a
conseqüência a longo prazo é um acúmulo de doenças que fazem o corpo
padecer e privam de alegria o espírito.
“Comer
é tomar conta de si e se fazer bem. É apenas o caráter repetitivo desse gesto
e o hábito que se engendra a partir dessa repetição que nos fazem perder de
vista a dimensão extraordinária dessa experiência diária.” (Dufour)
O
ato de comer exige senso de responsabilidade principalmente pelos efeitos que
produz, a curto e longo prazo, na saúde física, mental e espiritual. Ocorre,
porém, que até hoje o homem ainda não se encontra devidamente preparado para
alimentar-se corretamente, uma vez que, da infância à idade adulta, tem ficado
desprovido de orientação a respeito do assunto, não a recebendo nem da família,
que repete os erros dos antepassados ou adere aos modismos da época, nem da
escola, que a considera alheia aos seus objetivos. Ao contrário, depara-se com
todo um ambiente propício a deseducá-lo em relação à alimentação,
principalmente porque as finalidades exclusivamente lucrativas na venda dos
produtos alimentícios em sociedade acabaram por distorcer o sentido e a
seriedade do ato de comer. E, assim, ele acaba chegando à idade adulta
habituado a ingerir produtos desequilibrados e nocivos ao seu organismo. O
objetivo de fazer bem a si mesmo, ou ainda, cuidar de si a que se refere o
nutricionista Dufour parece, com efeito, não ter nenhuma importância para o
homem da sociedade contemporânea.
Na
verdade, nunca os alimentos estiveram tão regulados pela estratégia de acumulação
e internacionalização de capital como neste final de milênio. A facilidade de
industrialização e a busca pela maximização do lucro deteriorou a qualidade
dos produtos alimentícios, criando um artificialismo que é respaldado pelo
aperfeiçoamento das técnicas de conservação (tanto através de produtos químicos
como de ‘beneficiamentos’) e pela
moderna biotecnologia, com a criação de aditivos que lhe alteram a cor, o
sabor e o aroma.
Uma
verdadeira invasão de anúncios publicitários veiculados tanto pela imprensa
como por via radiofônica e televisiva incitam o consumidor a comer de forma
inconsciente: “Não pense duas vezes!”, “Você não vai resistir!”,
“Impossível comer um só!”. E os efeitos de tal repetição, juntamente com
o aspecto “irresistível” dos alimentos, transformados em objeto de desejo
na nossa sociedade consumista, não dão chance de escolha à grande maioria das
pessoas. Some-se a isso o fato de que, num sistema em que o tempo para as
mulheres cozinhar tornou-se escasso (na medida em que elas têm uma jornada de
trabalho fora de casa tão extensa quanto a do homem), o ato de comprar
alimentos prontos (sobretudo os congelados) e semi-prontos tornou-se um hábito,
e o de comer fora de casa, quase um hobby, atitudes essas que certamente
implicam colocar a saúde em segundo lugar.
Diante
de objetivos exclusivamente comerciais por parte de frigoríficos, indústrias
alimentícias, redes de fast food internacionais e de empresários de todos os níveis
envolvidos na venda e prestação de serviços referentes a alimentos; e diante
de toda uma cadeia publicitária que visa “fechar o cerco” ao consumidor,
podemos afirmar que não se encontram, em parte alguma, sinais de interesse em
educar o homem, nem em relação à qualidade nem à quantidade daquilo que
ingere. Na realidade, a sociedade contemporânea carece dessas duas orientações.
Mesmo os livros e manuais de dietas, que costumam arrolar os erros cometidos em
termos de alimentação, não enfatizam dois deles que são fundamentais, a
saber, a supervalorização do sabor e da aparência dos alimentos (em
detrimento de seu valor nutritivo), e o consumo exagerado destes, os quais estão
relacionados, respectivamente, com as duas mencionadas instruções. Assim,
priorizar os alimentos saudáveis, não se deixando enganar pelas aparências, e
comer só o suficiente são, infelizmente, práticas inexistentes na nossa
sociedade de consumo, embora exista um Ministério específico para orientar as
pessoas a esse respeito, que se autodenomina “da Saúde”. No entanto, este,
pelo que tudo indica, está bem mais ocupado em compartilhar dos interesses do
governo no sentido de lucrar com as vendas de cigarro e bebidas alcoólicas do
que em zelar pela saúde da população.
Conseqüências
da
alimentação inconsciente
Como
a ingestão de alimentos não saudáveis inevitavelmente prejudica o organismo,
as pessoas, através de uma alimentação equivocada, acabam facilitando o
surgimento de uma série de doenças, como as cardiopatias coronarianas e
algumas formas de câncer (principalmente o do esôfago, do cólon, da próstata
e do seio), que normalmente resultam de uma alimentação com excesso de
gordura e escassez de determinadas vitaminas presentes nas frutas e nos
vegetais. Essa alimentação deficiente propicia ainda o surgimento da hipertensão,
que é estimulada pelo excesso de sal, bem como de outros problemas, como é o
caso das cáries dentárias, que são produzidas basicamente por um tipo de padrão
alimentar caracterizado pelo excesso de açúcar.
Além
disso, o hábito de ingerir mais calorias do que o necessário para a manutenção
do organismo pode produzir obesidade e aumentar o risco de várias doenças crônicas,
inclusive da diabetes mellitus não insulino-dependente, um tipo de diabetes
que, em geral, não exige injeções diárias de insulina, mas traz muitas
complicações e costuma manifestar-se depois dos quarenta
anos de idade. Aliás, o consumo de gorduras, que desde as pré-civilizações
fora de 15 a 20% do peso total dos alimentos, passou a ser de 40% na sociedade
contemporânea, o que constitui um índice alarmante e ameaçador à saúde,
principalmente porque a quantia elevada das mesmas no organismo ocasiona o
aumento do colesterol, que, ao ultrapassar a barreira dos 200 mg/dl, propicia o
surgimento de graves problemas cardiovasculares.
Em
termos numéricos, a incidência da obesidade estimada para países
desenvolvidos é de 30% para os homens e 40% para as mulheres. Sabe-se
atualmente, graças a informações fornecidas pela Associação Americana de
Bulimia e Anorexia, que estas duas patologias classificadas como transtornos ou
desordens alimentares (que decorrem, respectivamente, da ingestão exagerada de
alimentos e da abstinência quase absoluta dos mesmos por falta de apetite)
atacam um milhão de norte-americanos por ano e que 150.000 mil mulheres morrem
de anorexia anualmente, número superior ao das mortes causadas por AIDS até o
ano de 1988. Tais índices acusam a deseducação das pessoas em relação ao
seu regime alimentar, revelando que o equilíbrio, nesse âmbito, ainda não foi
alcançado. Também foi registrada uma grande inversão de valores em relação
às preferências alimentares a partir da II Guerra Mundial, uma vez que houve
um aumento de 80% no consumo de refrigerantes e de 70% no de salgadinhos
industrializados (chips), paralelamente a uma diminuição de 25% no consumo de
frutas, legumes, vegetais e derivados
de leite.
Antes
prevenir do que remediar
A
modificação de hábitos alimentares arraigados, errôneos e nocivos
exige do indivíduo uma corajosa decisão e, sobretudo, motivação.
Infelizmente, muitos só tomam tal decisão quando o organismo já se encontra
depauperado e suas reservas de energia vital quase esgotadas. Mas o ideal é que
tal mudança seja efetuada a tempo de evitar as doenças que podem decorrer de
descuidos com a alimentação. Nesse sentido, convém aqui lembrar a sabedoria
do velho adágio que diz: é melhor prevenir do que remediar.
Desde
sempre, a melhor linha da medicina tem sido a preventiva, embora relegada até
pelos especialistas da saúde. Os próprios cursos universitários de Medicina não
se ocuparam ainda de formar profissionais nessa área, restringindo-se ao estudo
dos sintomas e curas das patologias, mesmo porque a existência oficial de tal
linha no âmbito médico certamente exigiria rever uma série de questões já
cristalizadas por um sistema que, até o momento, só estimulou, sob todas as
formas, as pessoas a se envenenarem paulatinamente. O governo, por exemplo,
certamente não teria interesse algum em reverter esse quadro, mesmo que
houvesse uma mobilização geral nesse sentido por parte da classe médica, dado
que o álcool e o tabaco, que são as principais causas do surgimento de câncer,
doenças pulmonares, gástricas e cardíacas, são produtos geradores de
polpudos lucros para seus cofres. E os laboratórios internacionais, que
incentivam as pessoas, por meio publicitário, a ingerirem cada vez mais
medicamentos, e que obtêm lucros milionários com a venda dos mesmos, tampouco
teriam interesse na realização de uma campanha preventiva.
Mas embora a linha
preventiva da medicina nâo seja nteressante para o sistema político atual, ela
é a única capaz de livrar o homem do desgaste precoce do seu corpo e do dispêndio
desnecessário tanto de tempo como de dinheiro, contribuindo, assim, para a sua
longevidade e para a melhoria de sua qualidade de vida durante a velhice. E como
o organismo humano, a partir dos quarenta anos, já começa a apresentar os
resultados do tratamento que lhe foi dispensado até então, o ideal é começar
a cuidar do corpo desde a infância, ou, pelo menos, a partir da juventude, e
manter para sempre tais cuidados.
Adotar a linha
preventiva exige uma certa dose de
iniciativa, mas não requer grandes sacrifícios. Demanda apenas mudança de hábitos.
E, convenhamos, se uma pessoa consegue habituar-se a agir da forma errada, ela
pode perfeitamente adquirir o hábito de agir de forma correta. Afinal, o hábito
não é a segunda natureza do homem?
A
saúde integral
Embora
a atenção no que se refere à alimentação seja fundamental à conquista da
saúde, ela deve ser acompanhada de outros cuidados também importantes a fim de
que o organismo como um todo possa ser beneficiado. De nada adiantará uma
pessoa ter cuidado com o que come se, por exemplo, ela fumar, ingerir bebidas
alcoólicas ou consumir regularmente outros tipos de drogas.
Além
disso, os efeitos dos descuidos em relação ao nosso corpo nunca são apenas físicos:
eles atingem também o plano mental e o espiritual, porque o homem é uma
unidade e esses três planos que o compõem estão interligados, de maneira que
qualquer desvio num deles acaba comprometendo os outros.
Todo
aquele que se entrega aos vícios fica automaticamente impossibilitado de
adquirir equilíbrio, e, quando isso acontece, a irritação, a agressividade e
os impulsos em geral ficam muito difíceis de serem controlados, o que leva a
pessoa, na maioria das vezes, a ocasionar uma série de conflitos no meio em que
vive. Portanto, é preciso manter o corpo sempre sadio para que o espírito
possa mais facilmente ter a mente sob controle. Só assim é possível alcançar
o equilíbrio e aproximar-se cada vez mais da saúde integral.
Os
12 mandamentos da
alimentação consciente
1º)
Prefira sempre preparar o seu próprio alimento a comer fora de casa. Evite,
principalmente, locais nos quais desconheça a proveniência dos alimentos e os
cuidados dispensados ao mesmo. Aprenda, aos poucos, a cozinhar, descobrindo a
satisfação e a alegria de preparar novos pratos a cada dia.
2º)
Opte, paulatinamente, pelos alimentos integrais. Procure substituir, aos poucos,
os alimentos refinados, processados industrialmente (como o arroz, a farinha de
trigo e o açúcar brancos) pelos integrais. Os grãos têm, em grande
quantidade, elementos e nutrientes riquíssimos que estão na película que os
reveste: proteínas, vitaminas A, B¹, B², B6, B12 e minerais. Quando, no
processo de refinamento e branqueamento, essa película é retirada, a maioria
desses componentes se perde. Quanto ao açúcar mascavo, é rico em ferro. Nunca
é demais relembrarmos as duas grandes máximas de Hipócrates, o grande médico
da Grécia clássica: “Somos o que comemos” e “Faze do teu alimento o teu
medicamento; e do teu medicamento o teu alimento”, as quais nos incitam ao
consumo de um alimento mais puro e mais saudável.
3º)
Procure utilizar, em suas refeições, uma grande variedade de alimentos para
enriquecer o seu organismo de vitaminas e nutrientes diferentes. Evite comer
sempre os mesmos pratos, variando o cardápio. Não se esqueça de usar
lentilha, grão-de-bico, feijão branco, feijão azuki, trigo em grão, raiz de
lótus, raiz de bardana, soja em grão, espinafre, chicória, alcachofra, brócolis,
acelga, couve-flor, repolho, aipo, milho, quiabo, almeirão e outros deliciosos
produtos da natureza.
4º)
Substitua a carne animal pela vegetal. Essa é a troca mais importante a ser
feita em sua alimentação. Aprenda a cozinhar com glúten e soja texturizada,
que substituem com vantagens a carne animal, e se sentirá mais leve e mais lúcido.
Procure
também informar-se com especialistas da área, médicos, nutricionistas ou
através de publicações sobre o assunto como mudar de regime de forma não
traumática.
5º)
Agradeça a Deus pelo alimento antes de comê-lo. A atitude de agradecer antes
de dar início às refeições e de meditar sobre o esforço das centenas de
pessoas envolvidas na produção, distribuição e comercialização dos
alimentos, e, ainda, de lembrar a situação dos milhares de seres no mundo que
se vêem privados de comida já é um grande passo na conquista de uma maior
compreensão do significado real da prática de se alimentar.
6º)
Não coma lendo, discutindo ou pensando em problemas. Coma saboreando o
alimento, prestando atenção ao que está fazendo. O ato de comer é
suficientemente importante para ser praticado com respeito e dedicação
exclusiva de sua parte.
7º)
Não coma rápido. O processamento ideal do bolo alimentar requer um tempo de
mastigação satisfatório. Quando esse tempo é diminuído, diminui-se também
o tempo de saúde do sistema gástrico. Os antigos já diziam que devemos
mastigar os sólidos até transformá-los em líqüidos e saborear os líqüidos
como se fossem sólidos.
8º)
Só coma quando tiver fome. Recuse-se a comer quando o seu organismo não tiver ainda
dado o respectivo alarme. Comer sem fome é o primeiro passo para o desequilíbrio
do corpo, uma forma de dar início ao excesso de calorias e ao descontrole.
9º)
Não coma entre as refeições. Estabeleça horários para se alimentar e
procure não ficar “beliscando” entre as refeições, para propiciar ao seu
organismo um melhor aproveitamento dos alimentos ingeridos. Em intervalos muito
longos entre as refeições, pode-se ingerir frutas.
10º)
Acostume-se ao sabor de refeições balanceadas, sem excesso de sal, acúçar,
produtos químicos, gorduras, temperos ou toxinas. O excesso de sal predispõe o
organismo ao desequilíbrio da pressão arterial. O açúcar vicia o paladar e
tende a coibir o gosto pelas frutas. Os alimentos com produtos químicos
(conservantes, corantes, aromatizantes) e/ou toxinas (como é o caso da carne
animal) predispõem o organismo ao câncer. E os que pecam pelo excesso de
gordura, às doenças cardíacas.
11º)
Não coma demais. Estabeleça uma medida condizente com a sua natureza física e
obedeça-a à risca.
12º)
Não deixe sobras no seu prato. O ato de desperdiçar alimentos indica imprevisão
e descontrole de sua parte, além de ser uma afronta aos que ainda se encontram
privados de todas as refeições diárias.