Einstein desmascarado





Pergunte a qualquer pessoa: “Quem foi Bardeen?” A resposta provavelmente será “não sei”. Em seguida, experimente perguntar: “Quem foi Einstein?” E a resposta, desta vez, provavelmente será “O grande físico do século XX”, ou então “Um dos maiores gênios, se não o maior, da humanidade”. No entanto, John Bardeen¹, embora desconhecido, foi um dos inventores do transístor (criado em 1947), dispositivo que inaugurou a era da microeletrônica, impulsionando em proporções gigantescas o progresso na área das comunicações no mundo inteiro.

Por que, afinal, alguns homens cujas obras trouxeram pouca ou nenhuma contribuição para o progresso da humanidade gozam de tanto prestígio, ao passo que outros, que contribuíram de maneira relevante para este progresso, são completamente desconhecidos do grande público? Por qual motivo determinados profissionais, nas mais diversas áreas do conhecimento, são infundadamente incensados pela mídia e outros, que mereceriam destaque, sequer saem do anonimato? O esclarecimento de tais questões demandam exame histórico a partir de fontes fidedignas.

O físico Albert Einstein (1879-1955) foi, sem sombra de dúvida, um dos mitos mais celebrados de nosso século: a ele foram atribuídas genialidade e inteligência sem par, e, à sua obra científica, uma grande originalidade. Porém, cerca de quarenta anos após a sua morte, os historiadores da ciência revelam algo que, até bem recentemente, era sabido apenas por um reduzido número de especialistas da área da física: a aura mítica criada em torno de sua pessoa é fruto de um superdimensionamento de suas contribuições científicas.

As bases da Teoria Especial da Relatividade, a ele atribuídas, já haviam sido estabelecidas pelo matemático francês Henri Poincaré (1854-1912) a partir de equações propostas pelo físico holandês Hendrik Lorentz (1853-1928). E nem mesmo a célebre equação E=mc², que se transformou numa espécie de marca registrada de Einstein, foi invenção sua, mas havia sido formulada por Poincaré em 1900. Tampouco foi ele que estabeleceu o modelo quadridimensional espaço-tempo, mas o matemático Herman Minkowski, que foi seu professor na Suíça. E poucos sabem que a Teoria Geral da Relatividade (ou da Relatividade Generalizada) transgride nada menos que a mais importante lei da física: o princípio da conservação de energia. Além disso, a verificação meramente parcial de uma das previsões desta teoria provocou, de forma precipitada, uma exagerada adesão à mesma por parte da comunidade científica, fato que acabou por impedir o desenvolvimento de uma interessante e promissora linha de pesquisa sobre o fenômeno da gravitação.(vide Revista Globo Ciência Nº 75)

A verdade é que os trabalhos de Einstein na área científica não justificam, em absoluto, a exagerada veneração de que foi alvo em nível mundial. O que ele soube fazer, e com notável empenho, foi recorrer à sua celebridade para promover o desenvolvimento da bomba atômica, detonada em Hiroshima em 1945, embora se considerasse um pacifista e tivesse declarado em 1929 que se recusaria terminantemente a prestar qualquer serviço militar, direta ou indiretamente, e que procuraria persuadir os amigos a adotar a mesma posição.

Sua pretensa genialidade, seu pacifismo e senso de desprendimento político nada mais são do que elementos que compõem uma falsa imagem criada pela mídia internacional: Einstein, na realidade, nada criou de original na área científica que merecesse veneração internacional, foi um dos fomentadores da Segunda Guerra Mundial e o mentor da bomba atômica, tendo atrelado a ciência à política por uma vingança pessoal e étnica contra o governo alemão, a qual acabou dizimando a vida de milhares de pessoas.

Origens da teoria especial da relatividade

É atribuída ao cientista inglês Isaac Newton (1642-1727) – que desenvolveu as leis da mecânica baseando-se nos experimentos pioneiros do físico italiano Galileu Galilei (1564-1642) – uma primeira forma do “Princípio de Relatividade”. Os fenômenos mecânicos, como por exemplo o movimento dos corpos, precisam ser descritos em relação a um sistema de referência. Newton verificou que as leis da mecânica são as mesmas em todos os sistemas de referência “inerciais”, isto é, sistemas que estejam parados ou se desloquem em linha reta e com velocidade constante.

A verdadeira história da elaboração da atual Teoria da Relatividade está descrita em vários artigos de história da ciência. O ponto de partida dessa elaboração foram as pesquisas iniciadas na segunda metade do século passado num então novo ramo da Física, o eletromagnetismo. Retomando os estudos dos físicos Clerk Maxwell e Albert Michelson (este, norte-americano e aquele, escocês), o holandês Hendrick Lorentz e, de forma independente, o irlandês G.F. Fitzgerald, chegaram, em 1895, à primeira fórmula da relatividade, a famosa fórmula da contração dos corpos em movimento.

Por outro lado, o francês Henri Poincaré, ocupado então com as diversas tentativas fracassadas de medição da velocidade da terra em relação ao éter², enunciou, já em 1895, a idéia que se tornaria posteriormente o princípio fundamental da Teoria da Relatividade: a de que é impossível detectar o movimento uniforme absoluto da matéria; apenas o movimento relativo pode ser detectado. Em 1900, Poincaré apresentou formalmente este princípio e o chamou de “princípio do movimento relativo.” Quatro anos mais tarde, na sua célebre palestra na Conferência de Ciências e Artes de St. Louis, Poincaré generalizou o princípio para todos os fenômenos físicos, e o batizou com o nome, utilizado até hoje, de “Princípio da Relatividade”: “As leis dos fenômenos físicos (não apenas dos fenômenos mecânicos, como na relatividade de Newton e Galileu [n.a.]) devem ser as mesmas para um observador parado e para um observador transportado em movimento uniforme de translação, de modo que não temos e não podemos ter nenhum modo de distinguir se estamos ou não transportados em tal movimento”.

A primeira equação da relatividade foi apresentada por Lorentz a Poincaré em 1895, quando Einstein ainda era um adolescente. Nos dez anos seguintes, Poincaré e Lorentz, que eram dois dos maiores cientistas da época, trabalharam intensamente no assunto, comunicando um ao outro as suas principais realizações. A franqueza e o desapego manifestados em sua correspondência testemunham o quanto se encontravam acima das mesquinhas disputas por prioridades autorais que mancham as biografias de muitos expoentes da ciência. Estimulado por Poincaré, Lorentz deduziu, em 1903, as suas famosas Transformações³  e propôs uma teoria exata do eletromagnetismo para corpos em movimento. Além disso, previu também que a massa de um elétron em translação no éter deveria aumentar com a velocidade, chegando à fórmula que se aceita até hoje. Forneceu ainda uma explicação física para a contração dos corpos em movimento, fenômeno que, conforme mencionado, ele havia descrito em 1895. Poincaré, por sua vez, elucidou, na citada conferência de Saint Louis, a questão da dilatação do tempo. Ele chamou a atenção para “a engenhosa idéia do tempo local proposta por Lorentz”, e explicou que dois relógios em movimento relativo devem realizar medidas de tempo discrepantes em virtude de ser a velocidade da luz intransponível, o que torna impossível a transmissão instantânea de qualquer informação. Einstein exporia este esclarecimento um ano mais tarde, no seu conhecido artigo de 1905, sem, no entanto, fazer a devida referência ao seu antecessor. Poincaré, ainda na mesma palestra, anunciou a necessidade de se construir “uma nova mecânica na qual a inércia (ou seja, a massa [n.a.]) aumenta com a velocidade e a velocidade da luz é um limite inultrapassável”. No seu entender, esta mecânica deveria coincidir com a de Newton para o caso de corpos em movimento com velocidades muito menores do que a da luz. Ao defender esse ponto de vista, Poincaré estava, novamente, se antecipando a Einstein.

Em 1905, o cientista francês estabeleceu a estrutura matemática do conceito de espaço-tempo (que seria retomado e generalizado por Minkowski em 1908), e demonstrou que, para aplicar as transformações de Lorentz, não seria preciso que um dos referenciais estivesse parado: elas valiam para qualquer sistema de referência inercial. Desta maneira, Poincaré demonstrava matematicamente que as equações da Relatividade apontavam para o fato de que não poderia existir um sistema de referência privilegiado, como seria o sistema do éter. Afirmou, além disso, que era preciso generalizar a teoria para toda a Física, de forma a abarcar também a gravitação. E com extraordinária capacidade de antecipação ele previu que essa futura teoria gravitacional poderia explicar uma aparente anomalia (a chamada precessão do periélio 4), observada pelos astrônomos no movimento dos planetas. Tal previsão se confirmaria alguns anos mais tarde, com a elaboração da Teoria Geral da Relatividade (ou relatividade generalizada).

O texto em que Poincaré apresentou essas extraordinárias descobertas foi o mais importante escrito por ele acerca da relatividade e coroava dez anos de intenso trabalho de pesquisa. Foi redigido em 1905, meses antes de Einstein haver publicado os célebres artigos sobre o mesmo tema. O matemático francês teve, porém, a infeliz idéia de editar seu manuscrito em Palermo, na Itália, onde estava dando um curso. Foi o mesmo que escondê-lo dos olhos do mundo. A desorganização dos italianos fez com que o material só fosse editado um ano depois, quando os artigos de Einstein já haviam sido publicados. Para o desapegado Poincaré, isso não tinha a menor importância, uma vez que ele era, na época, uma das maiores autoridades científicas do mundo. Einstein, ao contrário, era ainda um desconhecido e lutava desesperadamente por um lugar ao sol e esperava fazer de seus artigos um passaporte para o futuro. (Revista Globo Ciência nº 75).

Portanto, quando Einstein publicou seu primeiro artigo sobre a Teoria da Relatividade em 1905, os princípios da teoria e seu formalismo matemático já estavam praticamente estabelecidos. Esta é uma verdade omitida pela maioria dos textos científicos, livros didáticos e biografias de Einstein. A única inovação fundamental que pode ser atribuída a ele é o abandono do conceito de éter, proposta que simplificava consideravelmente a teoria. Este novo passo, porém, foi tomado de forma arbitrária, ou seja, em forma de postulado, o qual se justificava apenas pela simplificação que introduzia. No caso de Poincaré, porém, a conclusão sobre a inexistência de um sistema inercial privilegiado e a fundamentação de sua teoria constituem resultados de um árduo trabalho de deduções físicas e matemáticas, nunca, aliás, reconhecido por Einstein ou pelos que mais tarde viriam a ser seus adeptos. Além disso, a eliminação do conceito de éter deixou inexplicada a ação à distância entre os corpos, motivo pelo qual o próprio Einstein, mais tarde, tentaria arduamente durante quase 40 anos – embora sem sucesso – construir um modelo relativístico do éter.

E é justamente por representarem apenas uma pequena modificação – aparentemente arbitrária – em relação a resultados já conhecidos que os artigos de Einstein sobre a Relatividade não tiveram tanta repercussão quando foram publicados. Na verdade, ele se tornou famoso apenas quatorze anos depois, quando um teste experimental pareceu confirmar uma das previsões da Teoria Geral da Relatividade, fato que ocasionou a crença de que ele teria sido também o fundador da Teoria Especial da Relatividade.

A nova mecânica e a equação E=mc²

Conforme mencionado, Poincaré havia previsto o surgimento de uma nova mecânica baseada no Princípio da Relatividade ainda em 1904. Contrariamente ao que muitos pensam, não foi Einstein sozinho quem desenvolveu essa mecânica. Nos seus textos de 1905, dando continuidade aos trabalhos de Lorentz e Poincaré, ele modificou equações de efeitos eletromagnéticos (efeito Doppler), e chegou, pela primeira vez, mas apenas em forma aproximada, à fórmula E=mc² para o caso de elétron. Einstein então especulou sobre a possibilidade de essa fórmula ser aplicável aos corpos em geral. Já em 1900, Poincaré havia proposto a mesma fórmula para o caso da luz. O primeiro trabalho a propor modificações realmente significativas em relação à mecânica de Newton foi publicado pelo Físico Max Planck em 1906. Nesse trabalho, ele reformulou as leis da dinâmica e deduziu, pela primeira vez, a fórmula E=mc² para os corpos em geral. Materializava-se, assim, a “nova mecânica” prevista por Poincaré em 1904.  

A Teoria Geral da Relatividade

O modelo da Teoria Especial da Relatividade só poderia ser aplicado quando o sistema de referência utilizado para a observação dos fenômenos estivesse parado ou se movesse em linha reta e com velocidade constante. Seus autores estavam bem conscientes de tal limitação e esperavam elaborar uma teoria geral, que valesse para qualquer tipo de referencial. Um modelo tão abrangente poderia substituir a teoria clássica da gravitação, de Newton, que deixava algumas questões em aberto, como por exemplo, a incompatibilidade entre os dois principais modelos da Física, o do eletromagnetismo e o da gravitação.

Em 1905 Poincaré previu que um modelo desse tipo poderia explicar fenômenos considerados “rebeldes”, como a precessão do periélio³, mas outros assuntos disputavam a sua atenção. Em 1912 ele falece antes de poder confirmar essa sua hipótese. Einstein, porém, era jovem e ambicioso, e reformular a teoria da gravitação de Newton consistia para ele um desafio. Em 1907 ele formulou o Princípio da Equivalência, segundo o qual o fenômeno da inércia e o da atração gravitacional seriam equivalentes. Até o ano de 1911, entretanto, ele não publicara nenhum novo trabalho a esse respeito. Acontece que o cálculo matemático nesse caso era fundamental e como ele nunca fora forte nessa área, pediu auxílio, em 1912, ao matemático Marcel Grossmann (1878-1936). No caso da relatividade especial, havia recebido auxílio – nunca por ele reconhecido – de sua primeira esposa Mileva Maric, mas agora o trabalho era bem mais complexo: tratava-se do chamado cálculo matemático tensorial. Durante quase quatro anos, ele publicou uma seqüência de artigos, cada um corrigindo os erros do anterior, o que acabou confundindo a comunidade científica, dificultando-lhe a compreensão dos argumentos lógicos da teoria. Em 1915, ele conseguiu desenvolver finalmente a equação fundamental da Relatividade Geral.

Ocorre que o matemático alemão David Hilbert (1862-1943) chegou, simultaneamente, a uma fórmula idêntica, embora não tenha se celebrizado por isso. Aliás, o artigo de Hilbert foi publicado antes que o de Einstein, e o seu trabalho é reconhecidamente mais completo e consistente.

Apesar de limitadas, as soluções apresentadas por Einstein foram bem recebidas, e em particular, a tese do encurvamento dos raios luminosos pelo campo gravitacional, efeito esse que nunca havia sido observado. Se a teoria fosse confirmada experimentalmente, ele passaria a ser alvo de uma grande credibilidade. E três anos depois, em 1919, um eclipse do Sol trouxe a oportunidade de testá-la, pois permitiu aos astrônomos observarem estrelas muito próximas do disco solar. E estas, de fato, pareciam estar fora de suas posições reais, como se a luz proveniente das mesmas hovesse sido desviada durante o percurso, ao aproximarem-se do Sol. As observações foram conduzidas pelo astrônomo inglês Arthur Eddington (1882-1944), que obteve valores de desvio 20% maiores que os previstos com base na teoria einsteiniana. Mas, mesmo assim, os resultados de Einstein foram considerados excelentes e ganharam a primeira página do jornal The Times, de Londres. A varinha mágica da imprensa tornou-o, de um dia para outro, num cientista de prestígio, numa celebridade pública, e gerou, nos meios científicos, um apoio avassalador à sua teoria da gravitação. Os pontos fracos da mesma ficaram na penumbra, e relegadas ao esquecimento todas as questões que ela não conseguiu explicar. E, além de não possuir todo o valor que via de regra lhe é atribuído, ela ainda foi prejudicial ao progresso da ciência, pois inibiu as pesquisas sobre gravitação que vinham obtendo resultados positivos a partir de hipóteses totalmente diferentes tanto do modelo clássico de Newton quanto de sua reformulação relativística.

Tentar descobrir a causa de os resultados desse primeiro teste parcial de sua teoria terem sido tão precipitadamente festejados pela mídia constitui um verdadeiro desafio para qualquer historiador que trabalhe com um mínimo de objetividade, uma vez que apenas um teste positivo não confirma uma teoria, sobretudo se ela for complexa e cheia de implicações como a Teoria Geral da Relatividade.

A grande falha desta teoria é a violação do princípio da conservação de energia, segundo o qual, num sistema fechado, a energia se mantém sempre constante: ela pode  assumir diferentes formas, mas não pode surgir do nada nem desaparecer. Dito de outra forma, as quantidades inicial e final de energia teriam, no fim de qualquer transformação, que coincidir rigorosamente, o que não ocorria no novo modelo relativístico da gravitação.

Mas a transgressão deste princípio não foi o único ponto incômodo que os partidários ardorosos de Einstein varreram para baixo do tapete. Também foram convenientemente esquecidas, por não serem apropriadamente explicadas pela teoria, as questões das flutuações na trajetória da Lua. Como se sabe, o movimento desse satélite terrestre depende de um grande número de fatores – como as atrações gravitacionais da Terra, do Sol e dos demais planetas do sistema solar, a forma achatada da Terra e outros – e apresenta notáveis oscilações em relação à trajetória teoricamente esperada. Em 1912, o astrônomo alemão Kurt Bottlinger conseguiu solucionar esse problema através da audaciosa hipótese da Absorção Gravitacional, que era totalmente incompatível com a Teoria da Relatividade Geral. Por esse motivo, Einstein não podia aceitar a possibilidade de ela ser verdadeira, e tratou de procurar uma explicação alternativa. Partindo da teoria newtoniana da gravitação, Einstein chegou a resultados que, à primeira vista, pareciam coincidir com os dados astronômicos. No entanto, o astrônomo A. von Brunn descobriu um erro nos pressupostos de Einstein, o qual ocasionou a aparente coincidência, mostrando, ao mesmo tempo, que a correção destes pressupostos resultaria numa divergência de nada menos que 3.000% entre as observações empíricas e o modelo proposto pelo físico. Einstein reconheceu seu equívoco em um artigo e nunca mais voltou a falar das flutuações da órbita lunar. Nos anos 1921-1922, o físico italiano Quirino Majorana conseguiu obter em laboratório resultados experimentais que confirmavam a hipótese de Bottlinger da absorção gravitacional. Entretanto, este fato foi ignorado: o momento de sua publicação coincidiu com a época de euforia gerada pelas experiências com o eclipse solar.

A Lua, portanto, constituía um empecilho para a Teoria da Relatividade Geral. Mas os físicos preferiram ignorar tais incompatibilidades e depositar nessa teoria de Einstein uma confiança ilimitada, o que fez abortar toda uma linha de pesquisa.

Desta forma, todas as questões que ameaçaram fazer ruir por terra o mito da Teoria Geral da Relatividade foram tiradas de pauta e relegadas ao esquecimento, o que se deu até a década de noventa (Revista Globo Ciência, nº 76). Além disso, segundo o físico e especialista em história da Física Roberto Martins (1986), Einstein costumava ignorar medidas experimentais que divergiam de suas previsões teóricas e aceitar com entusiasmo resultados experimentais que concordavam com a sua teoria, os quais eram imediatamente publicados e difundidos. Sempre que um resultado experimental era contrário às suas predições, ele e seus seguidores tendiam a desconfiar dos métodos, da competência do pesquisador ou alegavam influências perturbadoras de outros efeitos. Com tais atitudes, Einstein se distanciava totalmente daquilo que um cientista deve ser: alguém que busca a verdade, e não o sensacionalismo.

Éter e superluminais:
desafios à Teoria da Relatividade

Em evidente atitude anticientífica, Einstein sempre ignorou as evidências a favor da existência do éter, como o experimento de Fizeau (1859) e as medidas de Miller com o interferômetro instalado no alto de uma montanha (1924 a 1934). Apesar da óbvia incompatibilidade entre estes experimentos e a teoria, nenhum dos adeptos da relatividade considerou necessário revisá-la. Um deles, Synge, propôs-se realizar experiências para demonstrar que os efeitos observados por Miller eram provindos da aceleração da Terra, mas Einstein adotou uma estranha atitude a esse respeito: ele objetou que tais experimentos não seriam necessários porque não trariam nada de novo, e que, portanto, seriam irrelevantes. Os cientistas Esclagon e Courvoisier também detectaram efeitos mensuráveis do movimento de translação da Terra através do éter (ou espaço absoluto) entre 1926 e 1929, mas nunca foram mencionados por Einstein (Martins, 1986).

No final da década de noventa, foram descobertas, pelos físicos Peeter Saari e Kaido Reivelt, da Estônia, as ondas superluminais, cuja velocidade, por ser superior à da luz, desafia a Teoria da Relatividade. A grande novidade do experimento é a conclusão de que, nele, a onda superluminal propaga-se livremente pelo espaço. Em condições especiais de confinamento, sinais mais rápidos que a luz haviam sido criados em laboratório, por Nimtz, diretor do Instituto de Física da Universidade de Colônia, desde 1992. A velocidade observada foi 4,7 vezes maior que a da luz. A partir de tal descoberta, outros pesquisadores criaram ondas com velocidades de até 1,8 milhão de quilômetros por segundo, o que equivale a mais de seis vezes a da luz (300 mil quilômetros por segundo). Tais resultados desafiam seriamente a Teoria da Relatividade, cujas equações dão resultados bizarros nos casos em que a velocidade de propagação de um sinal excede a da luz. (Revista Galileu, 12/98)            

Físico brasileiro pioneiro em contestar Einstein


César Lattes

Provocando a decepção do marketing e escândalo entre os que cultuam o mito de Einstein, o reconhecido físico brasileiro César Lattes foi um dos pioneiros em não aceitá-lo como dono e senhor do Princípio da Relatividade. “Ele não demonstrou nada”, afirma ele, “mas simplesmente usou o princípio e o transformou em dogma, o que é incompatível com a ciência”.

Lattes, nascido em Curitiba, Paraná, no ano de 1924, trabalhou na Universidade de Bristol, na Inglaterra, foi consultor da Universidade de Berkeley, na Califórnia, EUA, e um dos fundadores, em 1949, do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro, do qual também foi diretor. Em 1947, ele descobriu o méson, a quinta partícula da matéria, que se somou às outras quatro já conhecidas: próton, neutron, elétron e fóton. Essa descoberta teve grande impacto e repercussão em nível mundial. Em 1948, em Berkeley, realizou um feito até então inédito: no cíclotron da universidade dessa cidade, produziu mésons artificialmente. Em 1951, Lattes foi candidato ao prêmio Nobel da Física.

No que se refere a Einstein e seu Princípio da Relatividade,  Lattes afirma: “Há evidências de que esse princípio está periclitando. Com relação a Einstein, eu não concordo com a sua semântica, porque ele confunde comprimento com medida de comprimento e intervalo de tempo com medida de intervalo de tempo. A obra de Einstein está muito mal escrita e se atribui a ele muita coisa que não é dele. Eu não entendo, mas acho que na época houve ‘lobby’ pró Einstein, porque diversos físicos o protegeram, corrigindo inclusive suas deduções, como a da variação da massa em função da velocidade, que ele havia calculado erradamente”. Já em 1980, diante da forma quase unânime como se reagia a toda e qualquer crítica feita a Einstein, Lattes declarava: “As idéias consolidadas criam uma espécie de hábito mental. De vez em quando, é bom deixar de pedalar um pouco para ver as coisas, para ver se a bicicleta não cai”.

Einstein e sua visão sobre o tempo

Conforme já foi mencionado, Poincaré e Lorentz descobriram o fenômeno da dilatação do tempo (1903 e 1904) realizando uma pesquisa que retomava os estudos dos físicos Maxwell e Michelson. Einstein, por sua vez, farejou nessa questão um verdadeiro filão e, apropriando-se dos resultados do trabalho alheio, fez deles a sua própria interpretação: o relógio em movimento realmente marcaria um tempo dilatado, isto é, ele não mediria um tempo aparente, mas um tempo real, tão real quanto o marcado por qualquer outro relógio!

Mas se qualquer relógio em movimento marcaria um tempo dilatado, ou seja, se ele andaria mais devagar que um relógio em repouso, por que não o faria também um relógio biológico? Um organismo, afinal, não é uma espécie de relógio? Então, deduz Einstein, se um relógio biológico em movimento – como, por exemplo, um homem – anda mais devagar, ele envelhece mais devagar! A hipótese é ilustrada através do famoso episódio imaginário, de natureza aparentemente paradoxal, dos dois irmãos gêmeos: um deles se lança ao espaço numa velocidade próxima à da luz e o seu irmão fica na Terra; na volta da viagem, o ainda jovem viajante (que experimentou a dilatação do tempo) se encontra com o já velho irmão, que continuou sob o efeito da cronologia terrestre. Segundo Einstein, cada um deles teria experimentado simultaneamente um tempo diferente, o que até então era considerado inadmissível.

Einstein chamou a atenção dos seus leitores para a seguinte questão: segundo a Teoria Especial da Relatividade, não teríamos uma única linha temporal para todos, mas esta dependeria da velocidade do observador. Então, disse ele, dois fatos que, de acordo com um observador em repouso na Terra, acontecem em momentos diferentes separados por um período de tempo de anos, poderiam ser percebidos simultaneamente por um observador em movimento a alta velocidade! Na linha cronológica do observador terrestre, estes dois acontecimentos estariam inseridos, respectivamente, no passado e no futuro, enquanto que, para o observador em movimento, os dois fatos, por serem percebidos ao mesmo tempo, ocorreriam no seu presente.

Interpretando estas deduções num sentido amplo, poder-se-ia inferir que seria possível ao homem, sob certas condições, viver tanto o passado como o futuro com a mesma intensidade que o presente. Ora, essa experiência era algo inimaginável para a maioria das pessoas, ou, pelo menos, era inconcebível vivê-la em estado de consciência. As únicas referências a fatos semelhantes de que se tinha notícia diziam respeito a sonhos e a experiências de desencarnamento transitório, que possibilitam vivenciar o passado ou o futuro com a força do presente, embora de forma inconsciente.

Aprofundando-se em determinados aspectos de sua teoria sobre o tempo, Einstein adotou de Minkowski a hipótese de que estaríamos imersos numa trama espaço-temporal quadridimensional (até então se falava apenas em espaço tridimensional). Esta hipótese tem a sua origem no fato de que, na Teoria da Relatividade, a percepção do tempo depende da velocidade do observador e das três coordenadas espaciais, de maneira análoga à forma da qual as três coordenadas espaciais comuns dependem da velocidade e do próprio tempo. Esta visão do tempo, que o considera “a quarta dimensão”, foi ainda reforçada pelo fato de a teoria da relatividade ser invariável quanto ao sentido do fluxo temporal, ou seja, de ela conservar sua validade também no caso hipotético de que esse fluxo se dê do futuro em direção ao passado. É como se estivéssemos no ponto de estrangulamento de um relógio de areia e os grãos que passam fossem os acontecimentos da nossa vida: sentimos que eles passam para não voltar. Mas as equações da teoria nos dizem: “Atenção! Os cálculos indicam que esses grãos estão ali, em algum lugar, e nada impede que o relógio seja virado...”. Virar o relógio de areia, ou seja, movimentarmo-nos no tempo, tanto em direção ao futuro como em direção ao passado, seria então análogo a deslocarmo-nos, no espaço, tanto para um lado como para o outro. Assim, a definição de uma trama quadridimensional espaço-tempo parte do princípio de que, tendo em vista as semelhanças entre o tempo e o espaço, eles têm a mesma natureza e, portanto, seriam uma única coisa, suposição que é, por si, questionável, pois nem tudo o que se assemelha a algo compõe, com este algo, um todo indivisível.

As estimulantes interpretações de Einstein em sua Teoria da Relatividade, divulgadas mais tarde pela mídia, acabaram provocando uma grande euforia, não só entre os estudiosos da física (muitos dos quais viram na Relatividade um acesso em potencial para a fama), mas também junto à população leiga em geral. Prova disto é o grande número de filmes, séries e livros de ficção científica que tratam de questões relacionadas a essa teoria (e, notadamente, da que diz respeito à possibilidade de uma viagem no tempo) produzidos na época e a partir de então. Uma das mais recentes realizações nesse sentido é o filme norte-americano Contato (Robert Zemeckis, 1997), baseado numa novela do cientista Carl Sagan e produzido com a supervisão científica deste. A protagonista da história é uma astrônoma que viaja pelo espaço usando uma máquina especial, lançada dentro de um sistema de túneis que simboliza a integração espaço-tempo. Através desse sistema de túneis ela vem a encontrar seu pai, desencarnado havia anos. Enquanto a cientista viaja por cerca de dezoito horas, os observadores terrestres registram só uma fração de segundo de funcionamento da nave. A viajante não tem provas de que a experiência aconteceu e enfrenta, por causa disso, problemas com os produtores e financiadores da onerosa máquina. O aspecto do filme que interessa ao presente tema é a alusão à existência de uma conexão entre duas diferentes dimensões do tempo, cada uma dotada de ritmo e lógica interna próprias. A obra enfatiza a perplexidade dessas pessoas diante do relato da astronauta, que entrara numa nova dimensão temporal e ouvira de seu pai revelações sobre a eternidade do espírito humano e o sentido da existência.

Outra dimensão do tempo?

Embora vários pontos da Teoria Especial da Relatividade sejam aceitos quase que por unanimidade no meio científico, muitos deles carecem de comprovação. Ninguém, até hoje, conseguiu viajar a uma velocidade grande o suficiente para lhe permitir viver os efeitos da dilatação do tempo. Em outras palavras, nunca alguém experienciou esse outro tempo a que Einstein se referiu. Apesar de toda a tecnologia adquirida, o homem não conseguiu construir uma máquina que lhe permitisse vivenciar o passado e o futuro como se fossem o presente, nem tampouco envelhecer mais devagar. Para ambas as coisas seria preciso viajar a uma velocidade próxima à da luz. O máximo que se conseguiu foi observar efeitos da dilatação do tempo nas partículas subatômicas que percorrem gigantescos aceleradores, na Europa e nos Estados Unidos, a velocidades assim elevadas, e em satélites, os quais, viajando na órbita terrestre a altas velocidades, necessitam que os dados dos seus relógios internos sejam corrigidos de acordo com a Teoria da Relatividade pelos receptores instalados nos barcos que usam o sistema de navegação orientado por satélite (GPS), para que estes últimos não percam a direção visada. Percebendo essa limitação e tentando ir um pouco além, cientistas realizaram mais recentemente, em 1972, experiências com relógios “macroscópicos” de césio de alta precisão, as quais detectaram os efeitos de uma dilatação do tempo em relógios em movimento da ordem de frações de microsegundos. De modo que o paradoxo dos gêmeos, que tanto encanto havia despertado nas pessoas, não pôde vir a ser mais que uma alegoria romântica utilizada pelos professores de Física para impressionar seus alunos em sala de aula.

No entanto, esse tempo relativista traz à tona várias questões que a ciência, dentro do  prisma exclusivamente mental em que atua, não tem condições de responder. Visto que não foi possível que o homem experienciasse essa outra dimensão do tempo via ciência, será válido supor que Einstein estaria pressentindo, ao elaborar sua teoria, a existência de algo transcendente à lógica humana? Sabe-se que inúmeras pessoas que “viajaram” para uma outra dimensão do tempo num estado de desencarnamento transitório relataram, assim como a cientista do filme, experiências relacionadas à espiritualidade. E o tempo de duração de suas viagens nessa outra dimensão nada tem a ver com o tempo que tais experiências duraram aqui no plano terrestre.

Einstein se deu conta da dificuldade de compreender o tempo sob uma ótica exclusivamente mental e deve ter se assustado profundamente por isso. No entanto, sabe-se que ele fazia questão de se apresentar como uma pessoa com ares espirituais, haja vista à sua declaração, por exemplo, de que é no  campo do mistério que estão reservadas as mais belas experiências.

E o que é o mistério senão religião pura? A experiência de uma nova dimensão do tempo é uma experiência espiritual, a qual é pessoal e intransferível. Sendo assim, somente quem a vive pode conhecer de fato algo a respeito dessa dimensão. Talvez ele soubesse disso quando afirmou: “Meu conhecimento é tão profundo que eu não posso expressá-lo por palavras”.

Uma conceito enigmático até para seu próprio autor

O caso de Einstein em relação à sua concepção do tempo relativista lembra uma história de Nasrudin, o imprevisível personagem da tradição sufi árabe. No povoado em que morava, Nasrudin era o único que sabia escrever. As pessoas recorriam a ele sempre que precisavam enviar uma carta a alguém. Um dia, foi visitado por um habitante que lhe pediu para escrever uma carta a alguém. Após ter sido atendido, o visitante lhe pediu que a lesse, uma vez que este queria confirmar que o redator não se esquecera de nada nem alterara o texto. Nasrudin então lhe disse que sabia escrever, mas não sabia ler. E que, além disso, a carta não se dirigia a ele e que, por causa disso, seria ilegal lê-la. E o homem concordou e enviou-a assim mesmo ao seu destinatário.

Einstein, à semelhança de Nasrudin, soube escrever mas se mostrou incapaz de ler: embora tenha escrito a sua hipótese sobre o tempo, ele não conseguiu compreender a grandiosidade que estava por detrás dos resultados matemáticos que a compunham. Em outras palavras, ele não soube lê-la sob a ótica espiritual. A carta que Nasrudin escreveu mas não soube ler simboliza a concepção einsteiniana do tempo, que, explicitada no papel, não pôde ser interpretada pelo seu próprio autor. E o homem que lhe solicita lê-la representa os cientistas em geral, que pediram a Einstein explicações e provas para sua teoria. Mesmo sem recebê-las, eles a divulgaram no intuito de encontrar nela alguma utilidade, atitude que se assemelha à do homem que enviou a carta mesmo sem ter podido confirmá-la.

Assim, as mesmas teorias cientificas que podem nos levar a conclusões úteis a respeito do mundo material também podem limitar o nosso entendimento e sensibilidade através de enfoques mentais rígidos, incompletos, cansativos e carentes da beleza, fluidez e simplicidade, que são próprias da verdade.

Os assuntos relacionados à espiritualidade, como se sabe, tem sido tradicionalmente relegados pela ciência. Mas, como a verdade sempre vem à tona, chegará o dia em que a ciência descubra que a dimensão espiritual da vida é uma realidade, e admita, naturalmente, a existência de um tempo espiritual: reconhecerá então que o homem não é só uma massa de carne e osso, mas principalmente um espírito. A ciência descobrirá também que existem formas conscientes de estabelecer a conexão entre o presente e o passado ou futuro, e que a viagem pelo tempo possibilitada por essa conexão não demanda qualquer espécie de máquina, mas acontece dentro de nós, no mais puro da nossa essência, em nossa consciência.

Assim, a hipótese que Einstein levantou – através de cálculos matemáticos e deduções lógicas – de que, em síntese, é possível ao homem, dentro de uma outra dimensão do tempo, transcender o tempo cronológico, pode ser comprovada, uma vez que cada um já possui em seu interior um poderoso aparato natural de captação do tempo espiritual à espera apenas de um instrumento que o acione para poder funcionar.

Einstein e a bomba atômica

A maioria das biografias de Einstein enfatizam a sua militância como pacifista, chegando até a chamá-lo de “embaixador da reconciliação e da paz”. Porém, os fatos são outros. Ele fomentou a mais contundente comprovação experimental da célebre fórmula E=mc², a qual foi tão arrasadora que pôde ser ouvida a muitos quilômetros de distância: trata-se da bomba atômica.

A história da construção da primeira bomba atômica começou com uma carta do próprio Einstein dirigida ao presidente Roosevelt em agosto de 1939. A motivação oficial da missiva era a preocupação de que a Alemanha pudesse estar desenvolvendo a bomba de urânio; a oculta, um desejo pessoal de vingança, motivado por fatores étnicos e políticos contra aquele país, do qual se auto-expulsou ao ver frustradas suas tentativas de impedir a chegada do partido nacional socialista ao poder.

Einstein estava nos Estados Unidos quando Hitler foi eleito, fato que o deixou profundamente inconformado; e o tipo de militância hostil que havia praticado durante anos terminou por inviabilizar seu retorno ao país natal.

A iniciativa de escrever a Roosevelt foi tomada conjuntamente com outro físico, Leo Szilard, ex-aluno, velho amigo e ex-colaborador de Einstein. Aliás, Szilard foi um dos que conceberam, em 1933, a idéia da reação em cadeia induzida por nêutrons como uma forma de extrair a energia dos átomos, que acabou sendo a base do funcionamento da bomba. O enorme potencial de energia contida nos átomos já era sabido devido à fórmula E=mc².

A carta, assinada por Einstein, foi entregue em mãos ao presidente dos Estados Unidos através de Alexandre Sachs, assessor do governo. O texto dizia que, segundo os trabalhos desenvolvidos por Szilard e Enrico Fermi – físico de origem italiana que recebera o prêmio Nobel em 1938 pela descoberta das reações nucleares induzidas por nêutrons lentos – a exeqüibilidade da reação em cadeia poderia ser rapidamente demonstrada no elemento urânio, e que esse fenômeno permitiria a construção de bombas muito poderosas, “que poderiam destruir um porto inteiro ao mesmo tempo que uma parte do território em volta”.

Entregue no dia 11 de outubro de 1939, essa carta teve uma influência determinante na decisão do presidente de nomear o “Comitê do Urânio” para realizar algumas experiências propostas por Szilard. Durante os anos de 1940 e 1941, Leo Szilard e Enrico Fermi conseguiram demonstrar que o sistema urânio-carbono é capaz de manter uma reação em cadeia.

Ainda em 1940, Einstein enviaria mais duas cartas a Roosevelt. Ele pedia, por meio delas, uma  ação mais decisiva, e propunha, na última, que se criasse uma organização para a obtenção de fundos destinados a pesquisas nucleares. Esses textos foram o prenúncio da criação do famoso Projeto Manhattan, que teve lugar em agosto de 1942 e que culminou no lançamento das bombas sobre o Japão em 1945, produzindo os massacres de Hiroshima e Nagasaki, os quais atingiram mais de duzentas e cinqüenta mil pessoas.

Depois da guerra, ao pronunciar-se sobre a sua participação no empreendimento da bomba, Einstein mencionaria somente a primeira das cartas, omitindo-se em relação às outras duas. E essa sua participação foi bem mais extensa do que se costuma divulgar: ele ainda apoiou abertamente as pesquisas militares e até tomou parte nas promovidas pela marinha dos Estados Unidos; e chegou ao cúmulo de reproduzir a mão o artigo sobre a Relatividade publicado em 1905, a fim de que o manuscrito 5 fosse vendido em leilão e o dinheiro assim arrecadado (que atingiu a soma de seis milhões de dólares) usado para o fomento da guerra.

Sabe-se que grande parte dos cientistas envolvidos no programa nuclear pronunciaram-se contra a utilização da bomba após terem sido dissipados os temores relativos à Alemanha. Entre os cientistas mais arrependidos figura o próprio Szilard, que até acabou abandonando a Física Nuclear para dedicar-se à Biofísica e à Biologia Molecular. Ele pediu duas vezes a Einstein que escrevesse a Roosevelt, desta vez contra o uso da bomba atômica. Mas Einstein não acedeu ao seu pedido, alegando a possibilidade de que, após a guerra, quando os outros países descobrissem a fórmula da bomba, viesse a acontecer uma corrida armamentista. E esforçou-se para convencer a opinião pública da necessidade de que um poder militar mundial fosse formado. Ele não se pronunciou, ao contrário do que fizeram dezenas de físicos envolvidos no programa nuclear (entre eles o próprio Szilard), contra o ataque atômico ao Japão. Somente após as notícias dos massacres de Hiroshima e Nagasaki é que ele se juntou aos cientistas que condenavam os bombardeios.

Como se explica que um homem que tenha continuamente se declarado pacifista tenha agido como um verdadeiro belicista? Trata-se, sem dúvida, de um típico caso de falsidade ideológica. E os paradoxos não param por aí: Einstein, ao mesmo tempo em que se revoltou contra o nacionalismo dentro de seu próprio país, tornou-se um dos maiores propagadores e captadores de recursos em prol do movimento judaico-sionista, que é uma das manifestações mais radicais da ideologia nacionalista

A atitude de Einstein de atrelar a ciência à política, fomentando a fabricação de um invento que causaria a morte de milhares de pessoas macula irremediavelmente a sua reputação. Porém, o efeito desastroso da ambição desmesurada que embaçou o seu discernimento deve ter tido um sabor bem amargo, a ponto de levá-lo a refletir sobre sua vida e a reavaliá-la criticamente. Consta que, antes de deixar este mundo, ele teria declarado: “Arrependi-me de ter sido um físico; melhor seria se tivesse sido um encanador...” 

Galileu: paradigma de verdadeiro cientista

A vida de Einstein é, em suma, marcada por uma grande sede de poder e prestígio – mascarada de modéstia e desprendimento – bem como por sentimentos de retaliação e revanchismo. O resultado dos seus trabalhos foi negativo, e sua conduta profissional, como se pôde constatar, nada exemplar. Por tudo isto, ele encarnou o paradigma do anticientista, daquele que faz tudo o que um cientista, cuja função é trabalhar em prol do bem da coletividade, não deve fazer.

Felizmente, a História nos legou exemplos de cientistas autênticos, tal como o de Giordano Bruno, que entregou sua vida em holocausto pela verdade, negando-se, perante a Inquisição, a renegar suas descobertas; e o de Galileu Galilei, que, reconhecendo em suas descobertas um valioso patrimônio da humanidade, do qual não se sentia no direito de privá-la, lutou, também em nome da verdade, a vida inteira, submetendo-se a riscos e sofrimentos por recusar-se a acatar as exigências do “Santo Ofício”.

Pressionado pela Inquisição, Galileu acabou concordando em apresentar uma retratação pro forma, ainda que sem ter jamais duvidado da veracidade de suas afirmações. Depois dessa retratação, ele continuou a fazer valiosas descobertas, as quais cuidava de, vez por outra, transmitir ao Papa em pessoa. Este, dissimuladamente, o ouvia com grande prazer e, extasiado, punha-se a “beber” as suas palavras.

Na verdade, embora perseguido, Galileu acabou por receber mais mercês do que qualquer cabeça coroada de seu tempo. Afinal, ele foi recebido pelo Papa Urbano VIII seis vezes, em longas audiências que se constituíram em proveitosas aulas ministradas ao pontífice. E isto justamente na época em que a censura da Igreja lhe proibia ensinar e defender a sua concepção heliocêntrica, sob pena de condená-lo a fogueira.

Einstein, à semelhança de Galileu, fez um acordo tácito com o poder estabelecido (no caso, o establishment americano). Só que Galileu o fez visando o bem público, e ele, visando exatamente o contrário, já que o que pretendia era permitir que sua celebridade fosse usada para promover a guerra.

Séculos depois de Galileu, Einstein usaria os ensinamentos deixados pelo Mestre, sem contudo se mostrar capaz de aproveitar o exemplo de altruísmo e retidão de caráter que ele nos legou.

Galileu Galilei, o pai da física moderna, se retrata perante o Santo Ofício:

“Eu, Galileu Galilei (...) aos setenta anos de idade (...) e ajoelhado diante de vós, Eminentíssimos e Reverendíssimos Senhores Cardeais (...) juro que sempre acreditei, acredito agora e, com a ajuda de Deus, acreditarei futuramente em tudo o que é aceito, pregado e ensinado pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana (...) Visto que, após me ter sido feita a injunção judicial por esse Santo Ofício (...) para que eu abandone por completo a falsa opinião de que o Sol é o centro do mundo e imóvel, e de que a Terra não é o centro do mundo e se move, e me proibindo de aceitar, defender ou ensinar (...) a dita doutrina (...) escrevi e imprimi um livro no qual discuto essa doutrina (...) e por essa razão apontou-me o Santo Ofício como veementemente suspeito de heresia (...) Assim sendo, visando dissipar (...) essa forte suspeita (...) abjuro, amaldiçôo e abomino os já mencionados erros e heresias, e de um modo geral todo e qualquer erro e seita que de qualquer maneira sejam contrários à Santa Igreja (...) . Eu (...) jurei, prometi e me comprometi conforme acima (...)”.

Aos setenta e oito anos de idade, após ter dado sua contribuição durante uma profícua existência a serviço da Ciência e da humanidade, o espírito de Galileu abandona o corpo voando ao infinito mais rápido que o rolar das esferas...  A visão do futuro esboçou-se misteriosamente: o espírito iluminado de seu gênio iria pousar distante, numa fazenda da Inglaterra, onde uma mulher trazia um filho no ventre, cujo nome seria Newton. Mas a visão se desfez, e o infinito abriu-se para ele. No espaço incomensurável o sol longínquo era visto acompanhado por um séquito cintilante de estrelas. Galileu tornou-se “Um”, sentindo-se então livre e realizado na imensidão do conhecimento universal. (Baseado em texto de A vida de Galileu, de autoria de  Zsolt Harsanyi).

 

Notas

  1. Bardeen foi laureado com o Prêmio Nobel em 1956 pela invenção do transístor e, pela segunda vez, em 1972 pela explicação do fenômeno da supercondutividade, efeito que constituía um enigma há cinqüenta anos.
 
2. O éter, segundo a concepção então aceita sobre os fenômenos luminosos, seria o meio de propagação das ondas eletromagnéticas, como a luz.
 
3. As Transformações de Lorentz são as equações relativistas que permitem estabelecer uma correspondência entre as medidas de espaço e tempo realizadas por dois observadores deslocando-se, em relação a outro, com velocidade retilínea e uniforme próxima à da luz, sendo também válidas para as baixas velocidades.
 
4. Já havia algum tempo que se havia observado que o periélio das órbitas planetárias, ou seja, o ponto em que o planeta mais se aproxima do sol, não permanecia imóvel no espaço, mas rotacionava. Este fenômeno chama-se precessão do periélio.
 
5. O manuscrito se encontra hoje na biblioteca do Congresso dos EUA.

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Revista Globo Ciência - A lei esquecida - Como Einstein violou o princípio da conservação da energia - José Tadeu Arantes - nº 76(novembro 1997).
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