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Judaísmo e Preconceito
Olavo de Carvalho
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Uma suscetibilidade exagerada no que
toca à honra de uma determinada nação ou raça é um sinal óbvio de racismo,
ainda que inconsciente. Neste sentido, a ideologia anti-racista de nossos dias
fomenta os ódios e preconceitos que professa extirpar.
Certa
vez, escrevi um artigo sobre as causas da ascensão do nazismo, e recebi cartas
de judeus indignados por eu não ter mencionado o holocausto. Tive de lembrar
aos nervosinhos que o holocausto não fôra uma causa, e sim uma conseqüência...
Reconheço
que para um povo tão atormentado por perseguidores pode ser difícil conservar
a calma ao falar de certos assuntos. Mas os intelectuais têm um dever para com
a verdade que deve ser posto acima do amor à pátria. E os intelectuais judeus
nunca pararam para pensar o que aconteceria se cada raça, se cada nação
ofendida se pusesse a compulsar minuciosamente todas as palavras que alguém
disse contra ela, para denunciá-las como odiosas manifestações de discriminação.
Os italianos escreveriam enciclopédias inteiras de expressões pejorativas
anti-itálicas; outro tanto, os chineses e os irlandeses, isto para não falar
dos índios e dos muçulmanos. Apenas, eles não têm tempo a perder e sabem que
o risco do empreendimento (alimentar um renouveau mussoliniano, por exemplo, ou
pôr lenha na fogueira fundamentalista) é superior ao
hipotético benefício. Esse tipo de compulsão neurótica e masoquista
afeta principalmente os intelectuais judeus, e ela é uma desonra para um grande
povo.
O
sr. Jeffrey Lesser, por exemplo (entrevista no Caderno Idéias do Jornal do
Brasil de 24 de junho de 1995), rotula como anti-semitismo qualquer restrição
que um homem faça a este ou àquele aspecto da ação judaica no mundo. Imita,
nisto, o senador Joe McCarthy, para quem qualquer crítica aos Estados Unidos
era intolerável anti-americanismo.
É
também absurdo rotular indiscriminadamente como “preconceito” qualquer
opinião contra os judeus. Preconceito é opinião pré-conceitual, impensada,
irracional. Um homem pode perfeitamente chegar a conclusões desfavoráveis aos
judeus por meio de reflexão, de pensamento conceitual, mesmo que falhe e se
afaste da verdade. Que uma opinião seja errada não significa que seja
preconceituosa nem irracional. Esse uso da palavra “preconceito”, tão
disseminado hoje em dia pelos movimentos de minorias, é uma manipulação
desonesta do vocabulário, que visa a criar justamente um preconceito, uma
repulsa prévia e irrefletida a certas opiniões e até às palavras que as
designam, de modo a fazê-las rejeitar sem exame.
A
mim, por mais que me repugne o anti-semitismo de modo geral, me parece
igualmente repugnante a manipulação das consciências pela distorção do
vocabulário – uma técnica em que os nazistas e os comunistas foram mestres
consumados.
Anti-semitismo,
no rigor da palavra, não é qualquer opinião contrária a este ou àquele
procedimento da comunidade judaica, muito menos uma vaga antipatia que não se
traduza em atos discriminatórios, mas sim uma ideologia que, formal e
explicitamente, combata a nação judaica como tal, visando ao seu
enfraquecimento ou mesmo à sua extinção; ideologia que, como tal, não pode
ser um preconceito, mas simplesmente um sistema de conceitos errados: pode
explorar preconceitos, mas não constituir-se deles. Por isto mesmo, deve ser
combatida no campo da discussão clara e não no da nebulização do sentido das
palavras. A extensão indevida do rótulo “preconceito” a toda e qualquer
opinião que se possa emitir contra os judeus – mesmo àquelas que, como a do
Gen. De Gaulle sobre o orgulho judaico, repitam ipsis litteris palavras da Bíblia
– é baseada no pressuposto de que eles estão acima da crítica racional, de
que são perfeitos e inatacáveis. Alguns intelectuais judeus chegaram a
declarar o anti-semitismo, mesmo em suas formas indiretas e brandas, como um
grave sintoma psicopatológico – o que é abusar do prestígio que a
comunidade judaica tem nos círculos psiquiátricos e psicanalíticos. Desde que
não se expresse em atos danosos e envilecedores, mesmo a opinião anti-semita
professa não pode ser mais patológica nem menos patológica do que o
anti-islamismo, por exemplo, que, no entanto, também assume com freqüência
uma conotação racial e formas violentas de expressão sem que ninguém pense
em erradicá-los por métodos psiquiátricos. Admito que os judeus, pelo trauma
dos sofrimentos recentes, têm direito a uma quota maior de suscetibilidades do
que outros povos. Mas as pretensões descabidas só servem para alimentar
antipatias desnecessárias que podem condensar-se num novo anti-semitismo.
Conceitos
errados existem pró e contra. Uma pesquisa como a do sr. Lesser – que, é
verdade, só conheço pelo seu resumo no JB – corre o risco de perder-se na
multidão de atos que colhe, desde o momento em que os ordena segundo a grade
fictícia de conceitos demasiado elásticos, que expressam antes uma reflexão séria
sobre a natureza e a especificidade do fenômeno que estuda. O sr. Lesser
envolve nesse pacote semântico até mesmo Gilberto Freyre, o intelectual que
mais fez pela democracia racial neste país. Os motivos alegados pelo sr. Lesser
são de uma comicidade que só a mente rígida de um fanático privado de todo
senso de humor pode deixar de perceber: Freyre é um anti-semita porque às
vezes emprega, ao falar dos judeus, expressões estereotipadas sobre usurários
de nariz adunco, sobre sede de lucros, etc. O sr. Lesser parece não saber o que
é um estereótipo: um lugar-comum infindavelmente repetido e gasto até perder
toda intencionalidade literal. Do mesmo modo que Freyre usa lugares-comuns da
linguagem, os judeus chamam os gentios de goyim, que originariamente quer dizer
“gado”, sem nenhuma intenção consciente de insinuar que os não-judeus
pertencem à espécie bovina. Assim também chamamos os alemães de chucrutes,
sem nenhum propósito de afirmar que sejam vegetais. Se o pesquisador pudesse
apontar trechos da obra freyreana que pregassem algum tipo de ação contra os
judeus, que alardeassem, por exemplo, a inconveniência de recebê-los em nosso
país, aí sim teria sentido a alegação de anti-semitismo. Mas, nas páginas
de Freyre, tantas são as expressões popularmente pejorativas quantas as páginas
que enaltecem o gênio judaico e sua contribuição à civilização ibérica e
íbero-americana. Só posso concluir que, na metodologia do sr. Lesser,
anti-semitismo é qualquer palavra ou modo de dizer que, intencionalmente ou não,
possa magoar uma hipersensibilidade doentia. Um pouco de humor judaico não
faria nada mal a esse atrabiliário. Mas provavelmente o sr. Lesser acha que as
piadas judaicas sobre judeus – de Scholem Aleichem a Woody Allen, passando por
Groucho Marx –
são uma forma inconsciente de anti-semitismo interno.
Se
o sr. Lesser, em vez de destacar fatos isolados do contexto mundial e enfatizá-los
retoricamente, comparasse o quadro brasileiro da década de 30 com o da França,
da Inglaterra, da Rússia ou mesmo da sua pátria norte-americana, veria que, de
todas as nações aliadas, o Brasil foi aquela onde os refugiados judeus
encontraram a atmosfera mais limpa e hospitaleira. Nós, brasileiros, falamos
menos mal dos judeus do que Yaveh fala na Bíblia. Tão pouco anti-semitas éramos,
que, mesmo entre nossos políticos fascistas, havia notórios defensores dos
judeus, a começar por Plínio Salgado. Se há uma coisa que as declarações do
sr. Lesser demonstram é precisamente que o anti-semitismo aqui foi episódico,
restrito e sem nenhuma importância sociocultural, ao contrário do que
acontecia em quase todos os países do mundo. Se não fomos amigos perfeitos, se
humanamente falhamos aqui e ali onde todos falharam muito (mas muito mais que nós);
se havia aqui meia-dúzia de intelectuais anti-semitas, quando em Paris ou
Londres havia milhares; se nosso governo rejeitou 99 refugiados judeus ao mesmo
tempo que acolhia 50 mil, tudo isto é, na escala das realidades humanas, a
prova de que, profunda e substancialmente, fomos e somos o povo, a cultura menos
anti-semita que já existiu neste mundo. Mas isto não contenta o sr. Lesser.
Para ele, anti-semitismo não é perseguir os judeus, discriminá-los,
negar-lhes empregos e oportunidades, isolá-los num gueto: é simplesmente não
fazer em favor deles tudo o que desejariam que fizéssemos; é não lhes dar o
que não temos; é não sermos mais generosos para com eles do que somos para
conosco mesmos. Medindo-nos com essa escala irreal e utópica, que compara
homens com ideais fictícios e não homens com homens, ele pretende sujar com
respingos de fatos um passado cuja imagem, nas dimensões de conjunto, permanece
válida e honrosa. Ele mostra muitos fatos, é certo. Mas ciência não é só
colecionar fatos: é compará-los e hierarquizá-los segundo uma razão
ordenadora – e não existe razão nenhuma onde falta o senso das proporções.
E onde falta o senso das proporções falta igualmente o senso de justiça: o
sr. Lesser, reconhecendo que as organizações judaicas se recusaram a prestar
socorro aos não-judeus perseguidos pelo nazismo*, omite-se de colar-lhes o
mesmo rótulo de “racistas” com que nos adornou, não obstante merecido e
justo no caso delas por se tratar aí de discriminação fundada em critério
ostensivamente e exclusivamente racial.
Ademais,
quanto aos judeus, o risco que correm no mundo de hoje vem menos de preconceitos
que os outros tenham contra eles, do que do seu próprio
descaso – para não dizer preconceito – ante a religião de Moisés,
que definha a olhos vistos enquanto os judeus aderem festivamente a ideologias
materialistas. Ante a débâcle geral do judaísmo, um judeu muito bem acordado,
o sr. Yaakov Wagner, de Downsview, Canadá, perguntou recentemente em carta à
revista Time: “Will the Jews themselves now succeed in exterminating their own
religion, accomplishing what generations of their persecutors have failed to
do?” (Lograrão agora os judeus exterminar sua própria religião,
realizando o que gerações de seus perseguidores não conseguiram?). A resposta
é: sim, enquanto seus intelectuais se dedicarem antes a remexer com deleitação
mórbida os traumas do passado do que a enfrentar
os perigos do presente. Quando vejo um intelectual judeu verberar o
anti-semitismo no mundo ao mesmo tempo que corrói pela crítica malévola ou
pela indiferença patológica as tradições religiosas em que seu povo funda
sua unidade milenar, pergunto-me se não há hipocrisia em tanto ódio ao mal
desacompanhado do correspondente amor ao bem. A mania investigatória que busca
sinais de anti-semitismo por toda a parte é, no fundo, um sinal de má-consciência,
daquela má-consciência que, para ocultar suas culpas, sai acusando o mundo. E
a culpa dos judeus é clara e inequívoca: eles abandonaram o espírito da sua
religião, tornaram-se interiormente divididos e inseguros, distanciaram-se a
tal ponto de tudo o que enobrecia a sua cultura e fazia dela uma guardiã do
sentido da vida, que hoje dificilmente conseguem escapar da oscilação entre
dois extremos: ou aderem ao modernismo ateu, ou, quando se apegam à sua religião,
é para rebaixá-la a um fundamentalismo rancoroso, fanático e assassino**.
Quanto a esta última alternativa, cabe lembrar: ninguém neste mundo está
imunizado por garantia divina contra a contaminação de uma mentalidade
nazifascista: muito menos aqueles que foram vítimas dela. O homem perseguido,
seviciado e traumatizado tende, por uma compulsão inconsciente quase irresistível,
a incorporar os traços do seu perseguidor, disfarçando-os sob um discurso
contrário. Mas isto é uma forma de possessão demoníaca a que uma consciência
alerta deve resistir com todas as suas forças, para não perder, em nome da
revolta, o senso de justiça que dá sentido à revolta mesma: propter vitam
vivendi perdere causas.
E
quando um investigador armado de suspicácia até os dentes vem rebuscar
picuinhas para lançar a pecha de anti-semita sobre todo um país onde os judeus
tiveram a melhor recepção deste mundo, só posso lhe responder que ele conhece
melhor o cisco que está em nosso olho do que a trave que está no seu. Um
verdadeiro amigo dos judeus não deve lisonjear as suscetibilidades neuróticas
do seu patriotismo exasperado, mas ajudar a defender os valores eternos e
universais do judaísmo, que tanto foram vilipendiados no passado pelo
anti-semitismo militante, como hoje pelo cinismo blasé dos intelectuais
materialistas, judeus ou não, e pelos que, do outro lado, prostituem sua religião
ao fanatismo nacionalista. E nenhuma acusação lançada ao passado de outros
povos pode disfarçar o mal que os judeus do presente estão fazendo a si
mesmos.
Se
os judeus estão de fato investidos de uma missão profética, se de fato lhes
incumbe ser, como pretendia Herder, os pedagogos do gênero humano, então, pelo
amor de Deus, que não ensinem ao gênero humano nem aquele materialismo
pseudocientífico que gerou e sustentou a ditadura soviética, nem aquele
ressentimento que ontem produziu o nazismo e, hoje, deseja eternizar os
conflitos no Oriente Médio.
A
mensagem final é aquela que, logo antes de morrer, nos deixou o psiquiatra
Lipot Szondi, um sábio judeu nonagenário, ex-prisioneiro de um campo de
concentração: “O homem deve ter a coragem de ser bom quando tudo em volta o
induz a ser mau.”
Junho
de 1995.
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Entre os que
assim foram largados à própria sorte estava o eminente crítico e
historiador Otto Maria Carpeaux, judeu por parte de pai e mais visado ainda
pela repressão nazista por ter sido secretário de Dolfuss, governante
austríaco derrubado e assassinado pelo invasor alemão. Rejeitado pelas
organizações judaicas, Carpeaux encontrou finalmente no Vaticano a ajuda
que lhe permitiu fugir para o Brasil.
Olavo
de Carvalho é escritor e jornalista.
Texto
publicado na obra O Imbecil Coletivo (págs. 216-223)
Rio
de Janeiro, Faculdade da Cidade Editora, 1996.
Judaísmo,
ilustração de F. Simm
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