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Nietzsche
sinal de fogo
O martelo fala
(Dura Veritas sed Veritas)
-Por que és
tão duro? – perguntou certa vez o carvão ao diamante.
-Acaso não somos parentes próximos?!
Porque sois tão moles? Ó meus irmãos, assim eu vos pergunto: Acaso não sois
vós – meus irmãos?
Porque tão moles, tão retraídos e abatidos? E porque tanta negação e renegação
em vossos corações? Tão pouco destino de vossos olhares?
E se vós não quereis ser destino e inexoráveis, como podereis vencer comigo?
E se vossa dureza não quer brilhar, cortar e fender, como podereis criar
comigo?
Pois os modeladores são duros. E deveria-vos parecer ventura colocar vossas mãos
sobre milênios, como sobre a cera branda. Ventura escrever sobre a vontade de
milênios como sobre bronze – mais duros que o bronze, mais nobres que o
bronze. Apenas o mais nobre é totalmente duro.
Eu vos trago, meus irmãos, um novo mandamento: tornai-vos duros!
(Nietzsche,
Assim Falou Zaratustra)
Decididamente, aquele famoso muro, dito “da vergonha”
(melhor seria chamá-lo “da falta de vergonha”), que até pouco tempo
separava simbolicamente o leste do oeste, e cuja destruição foi saudada como o
sinal da chegada de uma nova era, não tinha a majestade dos antigos monumentos.
O que ele tinha, e muito (pelo menos no lado ocidental), eram pixações, e as
tinha mais numerosas do que as que ornam os muros de qualquer grande cidade.
Naquele vasto painel, erguido pela ignorância humana (ou
desumana?), entre declarações românticas, nomes de políticos e de bandas de
rock, alguém resolveu inscrever uma frase que, à sua época, também quis
anunciar uma nova era: “Deus está morto” (Nietzsche). Não demorou muito
para que algum gracejador resolvesse acrescentar: “Nietzsche está morto”
(Deus).
Deus não está morto, pois Ele é a própria Vida. A
filosofia de Nietzsche tampouco está morta, pois é uma filosofia da vida.
Nietzsche teve a rara intuição da unidade da vida e
concebeu todos os seres viventes como manifestações da mesma força criadora
unitária e eterna. A partir desta intuição, ele contemplou todo acontecer
como parte de um mesmo processo evolutivo universal que procura, por todos os
meios e a todo momento, atingir patamares mais elevados, em que a vida possa se
manifestar de forma cada vez mais plena e vigorosa.
Esta concepção da vida faz de Nietzsche não apenas o filósofo
que anunciou a falência de uma religiosidade decadente, mas também aquele que
pressentiu a aproximação de uma nova e mais verdadeira forma de conceber o
divino.
Aquilo que Nietzsche declarou morto não era Deus. Era
somente uma velha estátua herdada de tempos pretéritos, carcomida pelas intempéries,
guardada por baionetas teológicas e políticas, baluarte do falso moralismo e
de interesses escusos. Era um muro que separava os homens ao invés de uni-los,
um ídolo oco e sem vida que precisava ser destruído para que em seu lugar
pudesse surgir uma imagem mais fiel da divindade.
Atraem-te o meu
modo e a minha
língua?
Segues-me? Vens
atrás de mim?
Segue fiel atrás
de ti mesmo: Assim
me seguirás...
(Nietzsche, A Gaia Ciência)
A filosofia de Nietzsche é um contínuo despedaçar ídolos.
O filósofo passa em revista com seu martelo crítico os principais valores de
nossa civilização, sempre demonstrando grande talento em descobrir a falácia
que costuma se esconder atrás das palavras bonitas e o vazio que habita o
interior das imagens mais veneradas e temidas.
A destruição dos ídolos não é mero iconoclasmo: é um
processo de libertação que prepara o surgimento de um novo homem, um homem
liberto dos preconceitos e ilusões cultuados por seus antepassados. Nietzsche
descreve este surgimento como o resultado de duas metamorfoses: a metamorfose do
camelo em leão e a do leão em criança.
O camelo representa o ser humano que ainda carrega
resignadamente todo o peso dos valores ancestrais ilusórios como se eles
fizessem parte de sua própria natureza. Mas chega o dia em que o homem percebe
que pode viajar com mais leveza e decide-se pela vida livre e auto-suficiente.
Transforma-se então em leão, que deita fora e despedaça as velhas imagens.
Mas esta é apenas uma fase de transição e inquietude. O processo se completa
quando o leão finalmente se transforma em criança, ou seja, quando o homem,
liberto da influência dos velhos ídolos, readquire a pureza e inocência
originais. A impetuosidade leonina da negação dos falsos valores dá lugar a
um novo impulso de alegria criadora e de afirmação da vida.
A criança é pura e inocente porque é incapaz de adequar
sua conduta e seus sentimentos às ficções e preconceitos criados pela mente
humana. Ela apenas vive e aceita a vida tal como esta se lhe apresenta. É este
estado de espírito que Nietzsche designa através da conhecida fórmula “para
além do bem e do mal”. Ele é equivalente ao estado de não-julgamento, de não-mente,
que o budismo denomina como Nirvana, o estado de iluminação.
O diamante brilha porque acolhe em si a luz e a devolve ao
mundo em um esplendor de mil fogos. Seu brilho é uma afirmação da luz, é um
dizer sim à luz. Assim também é o herói nietzscheano, o homem que após ter
sido leão chegou a ser criança, o homem-diamante, amante do dia, amante da
luz, amante da vida. O homem que diz sim à vida.
Dizer sim à vida significa possuir uma inquebrantável
vontade de viver da forma mais plena possível. O afirmador da vida é aquele
cujo viver é a expressão fiel de sua própria natureza, e por isso ele não se
submete a qualquer condição de vida. Ele é o homem forte o suficiente para
descobrir em si mesmo o seu ideal e corajoso o suficiente para, por amor deste
ideal, não recuar diante dos maiores obstáculos e dos mais sérios desafios.
Por isto o afirmador da vida precisa ser duro como o diamante e, sobretudo, duro
consigo mesmo. Pois seu maior desafio é o de realizar em si mesmo o seu ideal
e, através de sua vontade, imprimir o selo deste ideal na matéria informe de
que é feita a carne.
Já a moleza do carvão simboliza a flacidez espiritual do
homem auto-indulgente e sem ideal, do homem débil e acomodatício que, em nome
de uma vida confortável e sem sobressaltos, renuncia a viver plenamente.
Este homem-carvão, de músculos e instintos lassos, de
olhar apagado e expressão cansada, o homem que recusa a responsabilidade e o
desafio de se assenhorear de seu próprio ser, é, para Nietzsche, o típico
produto de nossa civilização. Ele é o homem de identidade indefinida, o homem
coletivo, a matéria-prima apropriada para formar as multidões fanáticas dos
“fiéis” religiosos, as hostes suicidas e fratricidas dos exércitos, a
turba anônima que se entrega ao febril sectarismo político e à barbárie alcoólica
das festas populares. É o ser humano que ainda se encontra no estado
representado simbolicamente pela figura do camelo, o homem tipicamente idólatra.
Mas o Estado mente em
todas as línguas acerca do
bem e
do mal; tudo o que
ele diga é mentira – tudo o
que ele tenha é roubo.
Nele tudo é falso: morde
com dentes roubados, o
mordedor.
Até as suas entranhas são
falsas.
(Nietzsche, Assim Falou Zaratustra)
As multidões se alimentam de ídolos, e os ídolos, de
multidões. Aqueles que não possuem uma identidade própria procuram o ídolo
como o seu complemento, e é só levantar um símbolo sobre suas cabeças e
dirigir-lhes meia dúzia de lisonjas que eles já se aglutinam em atitude
contrita.
Nietzsche percebeu a mútua dependência entre o idólatra
e os fabricantes de ídolos; e ao mesmo tempo em que criticou a debilidade do
homem coletivo, denunciou também as instituições sociais que estimulam esta
debilidade e dela tiram proveito. Dentre estas, as mais antigas são, sem dúvida,
as “religiões”.
O filósofo costuma ver nas religiões tradicionais apenas
um amontoado de superstições e preconceitos, através dos quais cada povo
procura afirmar sua superioridade sobre todos os demais e incutir em seus
membros a idéia de que somente eles são destinados à bem-aventurança no
mundo espiritual supraterreno.
Também a tradição judaico-cristã, dominante em nossa
civilização, promete o paraíso a seus seguidores, prescrevendo, porém,
segundo Nietzsche, um meio perverso e antinatural para alcançá-lo: o desprezo
do mundo. Trata-se da idéia injuriosa de que este mundo multicor, repleto de
vida e beleza, em que nós vivemos, não passa de um desprezível vale de lágrimas,
onde existe apenas ilusão e sofrimento. Para se conquistar a felicidade no
outro mundo seria então necessário renunciar a viver neste mundo.
Nietzsche vê nesta renúncia – com todas as suas conseqüências
ascéticas, com todas as suas formas de autoflagelação e autotortura, com o
seu moralismo empedernido e auto-repressivo – um sintoma de cansaço, de impotência
e de falta de saúde. E o resultado da inaturalidade do desprezo do mundo é, a
seu ver, a condenação de tudo o que é natural e instintivo, de tudo o que é
vigoroso, alegre e saudável, como mau e pecaminoso.
O desprezo do mundo procura se fundamentar numa interpretação
equivocada do Novo Testamento, a qual não consegue penetrar no sentido das
palavras do Messias, a saber, a interpretação que opõe radical e
absolutamente o mundo espiritual (o reino dos Céus) ao mundo material, em
virtude da qual o termo mundano acabou ganhando uma conotação negativa. A
verdadeira espiritualidade ensina, certamente, que o espírito é superior à
matéria, mas jamais que seja lícito desprezá-la, pois o espírito se
manifesta também neste mundo (prova maior disto é o fato de que Deus viveu
como homem neste mundo). O espírito precisa da matéria para evoluir e o homem
não vai a lugar algum negando-se a viver a vida que lhe é dado viver e a
cumprir o que sua própria condição de homem determina.
“Não gostei dele.
Sabe por quê?
Porque não estou
à
sua altura.”
Que homem teve
coragem de
responder desta
maneira?
(Nietzsche, Vontade de
Potência)
É bem conhecida a crítica nietzscheana à tradição
judaico-cristã, mas o trecho acima mostra que o martelo filosófico visou também
um ídolo mais moderno.
O novo ídolo, o Estado, surgiu e se fortaleceu em nossa
cultura quando a religião começava a perder seu poderio, e desde então foi
sorrateiramente tomando posse do lugar vago no altar da devoção popular. O
Estado é este novo ídolo que não se cansa de tentar ganhar, senão a afeição,
pelo menos o respeito e o temor das multidões, e que após apenas uns poucos séculos
de existência já se sentia suficientemente seguro para declarar: “Nada há
maior do que eu sobre a Terra: sou o dedo soberano de Deus”. É esta entidade
invisível (mas de efeitos bastante visíveis) que insiste em querer nos
convencer de que sem ela a vida humana não seria possível.
Como no caso da religião, temos também aqui o encontro de
uma multidão carente de um ídolo com um ídolo carente de uma multidão, com a
diferença de que a manipulação não é mais espiritual, mas se dá em uma
esfera laica e civil. Não se promete a felicidade no mundo do além, mas uma
vida fácil e confortável no de cá.
Nietzsche percebeu um fato singular acerca da idolatria do
Estado, a saber, que nela o adorador, no fundo, adora a si mesmo, pois o Estado
só se legitima fazendo-se passar por uma espécie de encarnação da vontade de
todos, ou pelo menos da maioria. O homem da multidão idolatra o Estado porque
pensa ver nele sua própria imagem amplificada, justificada e entronizada. O
novo embusteiro ganha o fervor da multidão dirigindo-lhe uma deslavada mentira:
“Eu, o Estado, sou o povo”. E o
adorador concorda secretamente, repetindo de si para si as palavras de Luís
XIV: “L'État, c'est moi” (O Estado sou eu).
Não o teres
derrubado ídolos:
teres derrubado a
idolatria em ti,
foi essa a tua
coragem.
(Nietzsche, Ditirambos Dionisíacos)
Naquela pergunta insidiosa, “Por que és tão duro?”,
dirigida pelo carvão ao diamante, existe uma tímida advertência velada: “Não
queiras ser diferente, não queiras fugir à regra”. O carvão fala como
estadista.
O Estado é o defensor máximo da regra, é a arma da regra
contra todas as possíveis exceções, da medianidade contra toda possível
elevação. Eis porque Nietzsche não vê diferença essencial entre Estado
democrático e Estado ditatorial (seja ditadura fascista ou do proletariado). Em
todos os casos o conteúdo é o mesmo: o culto à mediocridade.
Nada atrai mais o homem-diamante do que a eternidade. Seu
olhar busca naturalmente as estrelas, que estão no alto e são eternas. Ele ama
o que é puro e não está sujeito aos câmbios e às vicissitudes da história
humana.
O homem-diamante pressente que tem um dever para com o
porvir e quer contribuir para o nascimento do homem do porvir. Seu maior anseio
é o de “…construir a casa do Além-do-Homem e
preparar a terra, os animais e as plantas para sua vinda…” Por isto
ele anela por imprimir uma marca indelével na História e escrever na Vontade
de séculos como sobre bronze.
Nietzsche teve olhos para o processo milenar pelo qual os
grandes homens escrevem nos séculos os caracteres que definem o texto da história
da humanidade. E soube distinguir muito bem qual imprimiu a marca mais
duradoura.
Nietzsche é conhecido como o escritor de O Anticristo e
como o adversário visceral do cristianismo, mas ele próprio afirmava que o que
criticava era apenas a versão do cristianismo que se tornou dominante na
cultura ocidental (que ele identificava como a versão paulina do cristianismo),
e que o único praticante do verdadeiro cristianismo havia sido crucificado.
Na verdade, o que a sua obra possui de imortal ela o deve
à redescoberta e atualização de alguns traços essenciais do cristianismo
verdadeiro e original (o que de forma alguma representa pouco mérito). Por
outro lado, o que procede apenas do intelecto do senhor Friedrich Nietzsche está
destinado a se esvanecer e a se tornar, quando muito, literatura. Estas não são
apenas opiniões nossas, mas também conclusões às quais o próprio Nietzsche
teria chegado pouco antes de deixar este mundo, como o atesta este
impressionante e confessional trecho atribuído ao filósofo
Olho para o alto –
lá rolam mares de luz:
– ó noite, ó silêncio, ó
ruído de silêncio
mortal!...
Vejo um sinal –
dos mais longínquos longes
desce devagar cintilante
uma constelação a mim...
(...)
Suprema constelação do
ser!
Tábua das figuras eternas!
Vens tu para mim? –
O que ninguém viu,
a tua muda beleza,
como? Ela não foge ante
meus olhos?
(...)
Emblema da necessidade!
Suprema constelação do
ser!
– que nenhum desejo alcança,
– que nenhum Não macula,
eterno Sim do ser,
eternamente eu sou o teu
Sim:
porque eu amo-te, ó
Eternidade!
(Nietzsche, Glória e Eternidade, dos Ditirambos Dionisíacos)
Se a “vida” nos anda a ultrajar, a verdade é que também
nós, de certo modo, ultrajamos a “verdade”. Temos à espera os nossos
primeiros erros e estamos de vigia a espreitar a ruína. Todas as gerações
lutam para fundir a verdade numa unidade, na idéia de Deus, “justiça”, “amor” e “poder”. O meu Deus era o “poder” e
reparo que o construí, por
impotência, com alicerces de areia.
Dizia Jesus assim: “Todo aquele que ouve estas minhas
palavras e as leva em conta será comparado ao homem sábio que edificou a sua
casa sobre a rocha; e veio a chuva, e transbordaram os rios, e assopraram os
ventos, e combateram aquela casa, e ela não caiu porque estava fundada sobre a
rocha.
E todo o que ouve estas minhas palavras e não as leva em
conta será comparado ao homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia;
e veio a chuva e transbordaram os rios, e assopraram os ventos, e combateram
aquela casa, e ela caiu, e foi grande a sua ruína”.
A minha casa ruiu, e foi grande a sua ruína. O Anticristo
jaz em ruínas perante o indestrutível pé de Cristo calçado com o amor do
mundo, o amor que se manifesta em
atos. Ó vida, não troces de mim! Venceste, Galileu, venceste no próprio coração
do teu maior inimigo!
Mesmo à minha alma deverei ocultar a vitória de Cristo
para perpetuar o mito do Anticristo, tema dos meus futuros biógrafos? Ájax não
gritou: Ilumina-nos, ó Zeus, mesmo que a tua luz nos mate?! A verdade
assassinou-me uma e mais vezes. E a Cristo, tenha-me ele derrubado só um
momento ou para sempre, deverei negar-lhe os louros da vitória?...
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