A
ciência aplicada
Mas
houve um longo caminho até que o primeiro homem pudesse se consagrar a uma tão
desinteressada observação da natureza. Durante muitos milênios, o
conhecimento sobre os fenômenos naturais esteve orientado a finalidades bem
mais práticas e imediatas, diretamente relacionadas com a própria
possibilidade da existência humana na Terra. A ciência é herdeira de uma
tradição de conhecimento técnico que remonta aos primórdios da civilização,
e essa herança é o que dá origem a um outro elemento essencial de nosso
quebra-cabeça, ao lado prático da ciência, ou, como se costuma dizer,
aplicado.
O
primeiro fator a originar um significativo incremento do saber humano sobre a
natureza foi a necessidade do desenvolvimento da agricultura. Para fazer frente
à crescente demanda de alimentos gerada pelo aumento da população, muitos
povos primitivos sentiram que era preciso cultivar o solo, e essa primeira
necessidade levou à conquista de vários tipos de conhecimento. De início,
esses conhecimentos relacionavam-se às técnicas de fabrico de instrumentos agrícolas,
às características das diversas plantas e solos, aos ciclos naturais e aos fenômenos
meteorológicos. Mas logo a prática agrícola lançaria também as primeiras
sementes da geometria e da astronomia. Revelou-se importante, por exemplo, a
observação sistemática do céu e o estabelecimento de relações entre as
posições dos astros e as épocas de plantio; a possibilidade de ler o calendário
dos céus chegou a ser, literalmente, uma questão de vida ou morte para muitos
povos antigos. Observatórios como o Canhão do Chaco no Novo México, Angkor
Vat no Camboja, Stonehenge na Inglaterra, Abu Simbel no Egito e Chichen Itzá no
México são exemplos eloqüentes desse ancestral interesse pelo estudo dos
astros.
Tal
foi o impacto causado na vida social pelo desenvolvimento de todas estas técnicas
e saberes que a assim chamada revolução agrícola é vista como um marco do
surgimento da civilização, sendo o cultivo do solo o parâmetro através do
qual muitos historiadores distinguem os povos da Antigüidade em primitivos e
civilizados. Onde quer que surgisse a agricultura, a civilização também
criava raízes.
Desde
os tempos dos primeiros agricultores até hoje, a importância da técnica para
a vida humana só fez aumentar. Há muito que a revolução agrícola foi
suplantada pela revolução industrial, em suas diversas fases, e hoje vivemos
em meio a uma permanente e diária revolução informática cuja dimensão e
significado ainda não é possível avaliar. E há muito que todo o saber técnico
da humanidade foi absorvido por aquilo que chamamos hoje de ciência,
transformando-se num de seus principais componentes. De fato, é sobretudo este
componente técnico e prático da ciência o que lhe confere a importância
vital que ela possui atualmente, investindo-a de uma missão da máxima
seriedade. Porém, se o surgimento da técnica marca o início da civilização,
hoje em dia a sua utilização inconsciente ameaça destruí-la.
A
ciência como instrumento de poder
Na
verdade, a inconsciência dos cientistas é a causa da ambigüidade de suas
atividades. E a relação entre ciência e consciência nos conduz ao
desvendamento do nosso enigma. Estamos falando aqui da aptidão da ciência a se
transformar em instrumento de poder. Esta aptidão resulta, em primeiro lugar,
de um lado perigoso e problemático da tecnologia, o qual começou a se tornar
evidente desde os primórdios desta. No momento em que o homem percebeu que a técnica
lhe possibilitava dominar os processos naturais, ele também percebeu que ela
possibilitava a dominação de outros homens.
É
esta particularidade da tecnologia o que dá origem ao mau uso das descobertas
científicas. Trata-se de um setor sombrio da ciência, do qual o principal
propulsor é a guerra. As primeiras manifestações nesse sentido ocorreram sem
dúvida nos campos de batalha. Foi o que aconteceu, por exemplo, já no século
XII a.C., quando foi descoberto que forjar o ferro no calor e temperá-lo na água
dava-lhe um gume duradouro. Este metal, por ser bem mais abundante e portanto
mais barato que o bronze, terminou então por substituí-lo na fabricação de
ferramentas e armas de guerra.
Evidência
mais recente do pacto entre tecnologia e poder material foi o rápido
desenvolvimento que durante a Primeira Guerra Mundial tiveram a aeronáutica e a
metalurgia, ou, ainda, o fato de que, durante a Segunda, os EUA tenham reunido
os mais conceituados cientistas do mundo inteiro para desenvolver a física
nuclear, iniciativa que, em tempo recorde, fez com que a primeira bomba atômica
viesse a ser não apenas desenvolvida como também “testada” no coração de
duas cidades japonesas. Durante a Primeira Guerra Mundial, o alvo foram as armas
químicas, e durante a Segunda, a bomba atômica. Foi depois desses dois grandes
“sucessos” que o investimento maciço nas pesquisas de aplicação bélica
se iniciou, tendo algum tempo depois chegado a acumular um arsenal nuclear
suficiente para destruir a Terra setenta
vezes.
Essa
má utilização da tecnologia também é geradora da falta de critério na seleção
das pesquisas a serem realizadas. A viagem à lua, por exemplo, que custou bilhões
de dólares, foi um contra-senso diante da situação calamitosa do mundo, com
populações inteiras vivendo na miséria e morrendo de fome. O fato de um grupo
de astronautas ter saído deste grande espaço terrestre tão carente de
recursos básicos de sobrevivência para se aventurarem numa extra-onerosa
viagem de risco (que estava sujeita a redundar num grande fracasso, como
efetivamente aconteceu) constituiu um abuso e um desrespeito à humanidade. E os
autores dessa aventura nem mesmo se
constrangeram por terem trazido de lá uma das coisas mais abundantes que nos
mais temos por aqui: pedras! Esse exemplo de inconsciência no modo como são
aplicados os conhecimentos científicos é gritante e público, mas também no
dia-a-dia dentro das universidades os projetos e as pesquisas são direcionados
em função não das necessidades mais prementes do homem, e sim de interesses
financeiros.
Segundo
a revista Impact of Science on Society, editada pela UNESCO em 1980, quase a
quarta parte dos recursos mundiais dedicados à pesquisa científica era
consumida pela pesquisa militar, e mais de meio milhão de cientistas estavam
atrelados ao desenvolvimento de novas armas1. Nos
Estados Unidos, a situação é ainda mais desoladora, uma vez que,
conforme publicado na revista norte-americana Physics Today2, Clinton propunha
utilizar nada menos do que 52% do orçamento de sua administração para
pesquisa na área que eles chamam de “defesa”, desenvolvendo armas de
guerras sofisticadas de todo tipo (químicas, biológicas, nucleares ou eletrônicas),
enquanto que apenas 1,6% seria direcionado para a área de recursos naturais e
meio ambiente.
Além
disso, muitos pesquisadores acabam trabalhando para projetos bélicos sem sequer
sabê-lo, visto que seus trabalhos são usados para fins clandestinos. É o que
aconteceu, por exemplo, no caso dos desfolhantes que foram utilizados pelos EUA
na guerra do Vietnã, os quais tiveram sua origem numa pesquisa que visava o
desenvolvimento de produtos agrícolas cujos resultados foram usurpados pelos
militares americanos3.
Não
é só como produtora de tecnologia que a ciência pode ser instrumento de
poder. Ela também pode servir à dominação como produtora de idéias e
discursos que sirvam de respaldo ao discurso dos política e economicamente
poderosos. A ciência possui esta potencialidade porque ela se apresenta, ou,
para sermos mais exatos, é apresentada, como portadora da verdade. Ninguém
pode negar que em nossa cultura a ciência adquiriu um status de suprema guardiã
da veracidade. Tudo o que se fala em seu nome é escutado com temor e reverência,
como se houvesse saído da boca do mais infalível oráculo. Um absurdo, dito
por um cientista (ou atribuído a algum), pode transformar-se, em pouco tempo,
em artigo de fé para grande parte da população mundial. É claro que temos
bons motivos para confiar nos diagnósticos e prognósticos da ciência, e a
vida contemporânea não seria possível se não pudéssemos ter essa confiança.
O problema é que as pessoas costumam confiar cegamente nas decisões, informações
e recomendações dos cientistas sem levar em conta uma série de fatores e
interesses que podem estar por detrás de suas atividades. Pois, embora a maior
parte delas o ignore, o fato é que eles muitas vezes são assediados por
representantes de interesses escusos, que, em troca de tentadoras bonificações,
procuram convencê-los a “chegar” a determinadas conclusões. E, além
disso, pretende-se muitas vezes que a ciência saia de seu estreito círculo de
atuação no mundo material e explique fenômenos que não são de sua alçada.
Encarar
a ciência como algo infalível e irrefutável não é, evidentemente, nem um
pouco científico. Essa atitude é, antes, expressão de uma certa ideologia que
se criou em torno da ciência, a qual vamos aqui chamar de cientificismo. Para
compreender o surgimento desta ideologia é preciso voltar um pouco aos tempos
heróicos da ciência, quando era ela (quem te viu…) quem combatia a crença
cega, o dogmatismo, a tacanhez de espírito. Porque, naturalmente, não se pode
negar que ela desempenhou um papel da maior importância em nossa cultura. Ela
arrostou bravamente as fogueiras, ridicularizou papas, arejou os espíritos,
espanou teias metafísicas de aranha, combateu a terrível força do medo e
conseguiu convencer muita gente de que o homem é capaz de realizar coisas
maravilhosas sem ter que pagar por isso no inferno eterno.
Tempos
heróicos: Ciência
X Aristóteles
Durante
a Idade Média, a ciência teve de bater-se com dois adversários de peso. Um
deles, como se sabe, era a Igreja Católica. O outro era Aristóteles, filósofo
considerado pelo poder eclesiástico como suma autoridade em todos os assuntos não
diretamente relacionados à religião.
Aristóteles
procurava explicar os fenômenos naturais sem lançar mão de pressupostos teológicos,
e por isso tornou-se o homem ideal para completar o quadro teórico do
pensamento medieval, cuja estreiteza não podia suportar qualquer concepção
religiosa que não fosse a sua. Aliás, é só por comodidade lingüística que
estamos chamando de religiosa a visão de mundo de uma instituição cujo
sustento tinha por origem a exploração alheia. Para a Igreja Católica, Deus
era apenas um instrumento de poder, e jamais poderia ter estado no centro do
universo. Este lugar central, a seu ver, só poderia ser ocupado pela matéria,
ou, em última instância, pela própria Igreja. Esse traço da ideologia católico-medieval
é evidenciado pela adoção eclesiástica do modelo cosmológico aristotélico,
com a Terra no centro e o sol girando ao seu redor.
Com
Aristóteles tudo se resolvia: para o que não estava nas Escrituras, bastava
ver o que o filósofo tinha dito e assunto encerrado. E foi assim que os “sábios”
do Ocidente por séculos e séculos acreditaram piamente, por exemplo, que os
corpos mais pesados caíam mais rapidamente que os mais leves, sem jamais
cogitarem observar diretamente os fatos para ver se as coisas aconteciam mesmo
dessa forma. Por isso, a imagem de Galileu no alto da Torre de Pisa, deixando
cair simultaneamente dois corpos de pesos desiguais e verificando que chegavam
ao mesmo tempo ao solo4, é um símbolo do surgimento de uma maneira de pensar
totalmente nova.
Hoje
em dia é difícil avaliar a dimensão dessa mudança de mentalidade. O homem do
Renascimento achou-se subitamente diante de um mundo totalmente novo, cheio de
encantos e surpresas maravilhosas. Com o auxílio da ciência, descobriram-se
novos continentes, com fauna, flora e sociedades totalmente diversas das
conhecidas; com os instrumentos ópticos, o infinitamente pequeno e o
infinitamente grande se abriram ao olhar atento do pesquisador; constatou-se que
os mares não eram habitados por serpentes marinhas e que as leis que governam o
movimento dos astros atuam também sobre a Terra. Aquele assombrar-se e
maravilhar-se, que Platão afirma ser a condição do conhecimento, passou a ser
o estado de espírito constante de toda uma nova intelectualidade que habitava
as recém-formadas cidades, numa cultura que se adornava ao mesmo tempo com as
mais impressionantes vitórias do saber contemporâneo e as mais viçosas flores
das civilizações antigas.
A
influência de Aristóteles na
ciência moderna
É
em meio a esse clima de confiança e de valorização do homem, em meio ao
sentimento geral de libertação em relação ao passado e de otimismo em relação
ao futuro, que nasceu e se desenvolveu a ciência moderna. Mas o vigor e a virulência
com que a ciência combatia o dogma religioso terminou por conduzi-la ao extremo
oposto, a um novo dogma. Tornou-se assim, para surpresa geral, semelhante a seu
oponente: o otimismo se converteu em fanatismo, a confiança na ciência em
culto à ciência, e o discurso científico cedeu lugar à pregação
cientificista.
É
impressionante notar como ainda hoje a maioria das pessoas, e inclusive dos
cientistas, têm dificuldade para separar ciência e cientificismo, e reconhecer
que este é exterior à essência daquela. Um dos elementos dessa ideologia já
foi por nós mencionado: é a idéia de que tudo o que é científico é
necessariamente verdadeiro. O outro elemento é uma radicalização ainda maior
desta idéia já sumamente radical: trata-se da concepção que só considera
verdadeiro o que é científico, ou seja, que faz da ciência a única fonte legítima
da verdade. De tanto criticar o conceito medieval de verdade, baseado na crença,
a ciência chega a outra crença, a que considera como verdade apenas o que pode
ser constatado diretamente por via experimental. Quem adota essa forma de pensar
está a um passo tanto do ceticismo, que já considera de antemão falso tudo
aquilo que a ciência não pode “provar”, quanto do materialismo vulgar, tão
comum em certos meios científicos, que consiste em considerar como real somente
aquilo que se pode ver e tocar, ou diretamente ou através de instrumentos científicos.
Assim
caracterizado, cabe observar, o cientificismo marca o início de uma etapa em
que, surpreendentemente, a ciência se reconcilia com seu antigo opositor, Aristóteles.
Pois descendem em linha direta do filósofo grego algumas das linhas principais
do credo cientificista: a tentativa de explicar todos os fenômenos por meio de
causas materiais, a ênfase na lógica e nos métodos matemáticos como
instrumentos privilegiados para o conhecimento da verdade, a tendência sempre
crescente à atomização do saber em disciplinas independentes, cada vez mais
especializadas, em detrimento da visão de conjunto.
Refutação
do cientificismo
Por
outro lado, para refutar o cientificismo basta ter presente o fato, sabido e notório
no âmbito acadêmico, de que a ciência jamais pôde e jamais poderá provar
qualquer coisa de forma definitiva, e que, por isso mesmo, toda verdade científica
é sempre algo aberto e provisório, sujeito a alterações, correções e
contestações. Esta impossibilidade está ligada ao fato de que a ciência se
baseia na experiência, mas essa mesma experiência (científica, bem entendido)
nunca é suficiente para garantir uma certeza absoluta e definitiva. Isso Platão
já sabia no século IV a.C., e David Hume o demonstrou de uma vez por todas no
século XVIII de nossa era.
Essa
limitação mostra como são absurdas as pretensões do cientificismo, e como o
ceticismo e o materialismo científico têm um caráter mítico: se a ciência não
é capaz de garantir de forma absoluta sua veracidade, como pode pretender ser a
única fonte da verdade? E mais: não sendo capaz de estabelecer sequer sua própria
verdade, como a ciência pode se arrogar o direito de decidir sobre a falsidade
daquilo que está fora de sua alçada? E que dizer do famoso ateísmo científico?
Há coisa mais mítica e menos científica do que esse ateísmo? Não é
evidente que demonstrar a inexistência de Deus é tão impossível quanto o
era, para os pensadores medievais, demonstrar Sua existência?

A escola de Atenas, Rafael (1511)
- Palácio do Vaticano, Roma
Entre
arca do tesouro e caixa de Pandora
Mas
se o cientificismo é assim tão contrário à própria ciência, por que motivo
essa ideologia continua tão defendida e aceita? Pelo motivo que já apontamos:
ela serve como instrumento de poder. Se a ciência fosse realmente a única
fonte segura e infalível da verdade, caberia evidentemente a ela governar o
mundo e decidir sobre o que é melhor para todos. Talvez por isso os governos
gostem tanto de dar emprego a cientistas em seus ministérios. É notável como
um verniz científico torna crível qualquer discurso oficial e acaba
convencendo as pessoas da necessidade e da justiça de qualquer política
governamental. Da mesma forma se explica o porquê de as campanhas publicitárias
tanto insistirem em nos provar cientificamente que tal ou qual produto é
absolutamente essencial para que se alcance a felicidade.
Vê-se
então que, através do cientificismo, a ciência fornece ao poder constituído
uma utilidade suplementar, a qual apenas aparentemente é menos importante e
perigosa do que a exploração de suas potencialidades bélicas. Submetendo-se a
essa dupla exploração, a ciência tem vendido – e a preço cada vez mais
baixo – a sua dignidade e sua autonomia, descendo à condição vexatória de
instrumento de dominação política, econômica, cultural e ideológica.
Subsidiando a escalada armamentista e o erguimento dos impérios mundiais da
grande indústria e das comunicações, ela causa a disseminação da miséria e
do sofrimento, sendo que, com os mesmos recursos financeiros usados para tal
fim, teria, no entanto, todas as condições para
erradicá-los.
E
se quisermos um símbolo para essa espúria relação entre ciência e poder
poderemos recorrer mais uma vez à figura de Aristóteles, evocando o período
em que atuou como tutor de Alexandre da Macedônia, um dos mais notórios
tiranos da História. A imagem de Aristóteles transitando pelas altas câmaras
do poder macedônio antecipa simbolicamente, em dois mil anos, a atitude dos
cientistas que se envolveram nas pesquisas nucleares cujas conseqüências trágicas
são bem conhecidas, e a daqueles que durante a guerra fria consumiram, no
mirabolante e paranóico projeto americano chamado de Guerra nas Estrelas,
recursos que poderiam minorar significativamente o problema da fome no mundo.
Igualmente aristotélicos são aqueles sóbrios senhores que de vez em quando vêm
explicar-nos logicamente na televisão, com o auxílio de gráficos e equações,
que a miséria é inevitável e necessária.
Assim
é que em nosso mundo totalmente “civilizado” pela tecnologia e pela ciência
há muito mais fome do que havia nos estágios primitivos da humanidade, e ainda
temos de conviver com fantasmas totalmente desconhecidos naqueles tempos, como a
ameaça nuclear, o perigo da catástrofe ecológica, a propaganda subliminar e a
manipulação genética.
Um
chamado à consciência
A
ciência, naturalmente, é chamada a desempenhar um papel decisivo na reversão
desse panorama. Mas os cientistas não têm dado ouvidos a esse chamado. Têm-se
eximido de qualquer responsabilidade por essas perigosas potencialidades da ciência,
e tentam justificar essa omissão refugiando-se ou no elemento meramente
especulativo da atividade científica ou no seu elemento meramente prático. Mas
apelando a esses dois aspectos da ciência apenas para justificar a omissão em
relação a um dever que lhes é inerente, eles não fazem mais que desfigurá-los,
e por desfigurar, assim, a própria ciência, fazendo-a passar da condição de
benfeitora da humanidade à de temível ameaça.
Por
um lado, há os cientistas que preferem fechar os olhos encerrando-se
voluntariamente numa incomunicável torre de marfim da “ciência pura”,
declarando nada terem a ver com qualquer possível aplicação da ciência, uma
vez que sua própria atividade é meramente teórica. Falando assim eles parecem
acreditar que existe uma linha de fronteira bem demarcada entre a ciência teórica
e a aplicada, constantemente vigiada por policiais armados e treinados e
fiscalizada por experientes fiscais aduaneiros. É claro que esta fronteira não
existe, pois o que é hoje apenas teórico, daqui a um século, ou amanhã
mesmo, pode vir a ser tecnologia em escala industrial, conforme nos comprova a
História.
Justamente
por ser baseada na experiência, a ciência tem sempre uma relação possível
com a técnica, e isso transfere até mesmo ao mais teórico dos pesquisadores o
dever moral de refletir sobre a utilização de seu trabalho e de zelar para que
ela se dê de maneira consciente, isto é, em benefício do ser humano. Aliás,
o desejo – de fundo egoísta – de escapar a essa responsabilidade pode em
grande parte explicar uma certa obsessão, demonstrada por muitos cientistas, de
construir um domínio científico totalmente isolado da aplicabilidade prática.
Na verdade, essa obsessão tem levado principalmente a duas coisas: ou à divagação
inconsistente e anticientífica, ou a uma especialização que chega a raias
absurdas, a ponto de fazer com que o pesquisador perca até mesmo a
possibilidade de compartilhar seu suposto conhecimento com o restante da
humanidade, já que nem mesmo seus colegas de laboratório conseguem entendê-lo.
Tanto num caso como no outro, esses pesquisadores deveriam considerar a
possibilidade de empregar de maneira mais útil e altruísta o dinheiro público
destinado a custear suas atividades.
Na
ciência aplicada, é muito comum uma atitude aparentemente oposta à dos
cientistas teóricos, mas que condiz perfeitamente com ela no que diz respeito
à recusa em assumir responsabilidades. É a atitude daqueles que consideram que
o cientista deve se limitar à produção de tecnologia sem se importar com o
problema da sua aplicação prática, delegando o poder de decisão sobre a
utilização dos recursos tecnológicos à indústria ou ao governo. O
interessante é que muitos pesquisadores pensam que com esses discursos estão
delimitando um terreno exclusivo da ciência, dentro do qual exercem sua
atividade livremente, sem se sujeitar a pressões. Mas será que eles são
realmente tão ingênuos a ponto de acreditarem nesta pretensa autonomia e não
desconfiarem que sua produção e mesmo seus “interesses científicos” estão
sendo determinados, bem longe de seus laboratórios, por interesses totalmente
anticientíficos? Exatamente porque não se dão ao trabalho de refletir
criticamente sobre o sentido do que estão fazendo, e por renunciarem à
prerrogativa natural de decidirem sobre o destino de suas pesquisas, eles abrem
espaço para que os poderes econômico e político façam seus próprios
objetivos valerem como as metas principais da ciência, através de incentivos a
determinadas linhas de pesquisa em detrimento de outras, e das mais variadas
formas indiretas de suborno e troca de favores implícitas nas políticas
oficiais de fomento da atividade científica.
E
isso nos casos em que a cooptação ainda precisa ser indireta, pois há muitos
cientistas que já perderam totalmente o pudor que sua profissão deveria
inspirar, e defendem publicamente a idéia de que a ciência é por natureza um
instrumento dos jogos de poder, e que por isso tem necessariamente que se
sujeitar às vicissitudes do mercado e da política. Esses, que costumam se
considerar mais realistas que seus colegas, já acham que a ciência faria bem
em se mudar de vez para os prédios das grandes indústrias ou para os gabinetes
ministeriais, e tacham de romântica toda tentativa de pensá-la a partir de um
ponto de vista ético, e de direcioná-la de acordo com este ponto de vista.
Realmente,
levar em conta a ética na área científica nada tem de romântico, mas se
constitui hoje em dia em uma absoluta e urgente necessidade, que deveria levar
os cientistas a assumirem seu inevitável compromisso para com a sociedade. Não
é que eles ignorem este compromisso, mas apenas costumam esquecê-lo e não levá-lo
em consideração enquanto estão fazendo ciência. Por isso, chegam a pensar
que sua atividade não precisa necessariamente reverter em benefício de todos
aqueles sem os quais não poderia haver nem ciência nem vida social alguma, e não
apenas deles, mas também de todos os seus descendentes e dos descendentes
destes, ou seja, em benefício do ser humano em geral. Fazem ciência mas perdem
de vista a razão de ser da ciência. Sabem fazer ciência, mas não sabem o que
ela é. Não sabem, portanto, o que fazem. Ora, aquele que não sabe o que faz
age, por definição, inconscientemente.
OS
DONOS DO CAPITAL: PESQUISA E PIB
Nos
países chamados “desenvolvidos”, o tamanho da maquinaria científica está
significativamente relacionado ao seu Produto Interno Bruto (PIB), ou seja, ao
saldo de todas as transações comerciais do país. Quanto mais produtivo é o
país em relação à tecnologia, maior é o seu PIB. Em países como os Estados
Unidos, o Japão e os da Europa, o conceito de “pesquisa e desenvolvimento”
(P&D) já se encontra há algum tempo plenamente integrado ao planejamento
econômico. A ciência, de forma paulatina, tem se tornado um mero apêndice da
economia.
O
atrelamento da ciência às forças do mercado é um sinal de que ela está
sendo usada para gerar novos produtos destinados a serem fonte de lucro de
alguns grupos financeiros. Esse lucro não é direcionado para o bem-estar geral
da sociedade. Na verdade, depois de terem sido inventadas as estratégias de
marketing de um produto determinado, e de elas terem surtido o efeito desejado,
pouco importará, aos que o vendem, que ele seja útil ou não. Haverá exceções,
mas (e isto não é nenhuma novidade) geralmente é assim. Os sofisticados meios
de comunicação em massa exercem tal poder hipnótico sobre a sociedade de
consumo que não é difícil fazer de um produto fraudulento um grande sucesso
de vendas. O objetivo é a venda em si mesma, e não, como deveria acontecer, a
satisfação de necessidades verdadeiras do homem. Uma ilustração evidente a
esse respeito são os cigarros e as bebidas alcoólicas. Outro exemplo é dado
pela indústria automobilística, que é aliada das indústrias petroleiras, as
quais promovem a venda indiscriminada de carros de alta potência movidos a
gasolina, que atingem velocidades acima dos limites permitidos pela lei e que
produzem sérios problemas de poluição ao ambiente. É a manipulação da
sociedade de consumo o que faz com que o consumidor prefira não investir em
carros menos poluentes, como os de combustível a álcool. E quem é que já não
percebeu a tremenda pressão que é feita sobre os usuários de
microcomputadores para trocarem de aparelho todo ano em função da invasão de
software e hardware “sofisticados”, que funcionam “exclusivamente” no
sistema novo?
Os
responsáveis pelo frio cálculo do PIB, a serviço do qual a ciência tem sido
colocada, apenas levam em conta o que se compra e o que se vende, desprezando o
alto preço que teremos que pagar pela destruição do meio ambiente e pelo
esgotamento dos recursos naturais, e parecem não se lembrar das condições
indignas de vida em que milhões de pessoas se encontram devido à acumulação
do capital nas mãos de poucos. A sujeição da ciência a interesses econômicos
é uma das principais causas da grande crise que a sociedade moderna atravessa.
Ciência
e religião
É
bastante comum a propensão a considerar a ciência como algo antagônico à
religião. Porém, a ciência, com o tempo, acabou se transformando em religião
e a religião em ciência, o que significou a degeneração e falsificação de
ambas.
Por
um lado, já mostramos que aquilo que tem sido considerado como oposto à religião
não é a própria ciência, mas sim uma ideologia anticientífica à qual a ciência
aderiu artificialmente. Por meio desta ideologia, que chamamos de cientificismo,
a ciência se torna, ela mesma, uma nova religião. Por outro lado, há milênios
tudo o que tem sido chamado de religião tem se mostrado incapaz de levar os
homens a se unirem tanto entre si como à fonte de onde procede a vida, união
essa que é o próprio sentido do nome religião (religação). Essa deficiência
fez com que a religião se afastasse de seu elemento próprio, que é o do mistério
e do espírito, e se transformasse em mera teoria. E na medida exata em que o
conhecimento religioso desce ao nível da teoria e da crença, ele se torna alvo
possível da crítica cientificista, que lhe opõe suas próprias teorias, suas
próprias crenças e superstições. Esquecida de sua origem e do sentido de sua
existência, a religião aceita então o debate no fórum inimigo, e não se
envergonha da ridícula figura que faz ao manejar argumentos lógicos e científicos
para defender suas doutrinas.
Também
o conteúdo ético da religião tornou-se meramente teórico. Os pregadores
religiosos recitam bonitos sermões sobre os valores morais, o altruísmo e a
conduta reta. Mas orador e auditório sabem que na prática a coisa é
diferente. Na prática vale a lógica. A lógica da relação custo/benefício,
do cálculo das vantagens e desvantagens de cada ação ou palavra.
Já
a ciência, para deixar de lado todo e qualquer rastro de dogmatismo religioso,
deve se mostrar capaz capaz de abandonar seu materialismo e renunciar à pretensão
de compreender logicamente todo o universo, pois a lógica só existe na cabeça
dos homens e não na natureza. Isto significa que ela deve ser capaz de
reintroduzir em si o mistério. Apenas assim poderá recuperar o sentido
original de seu elemento teórico e especulativo. Pois o que é o assombro platônico
diante do universo senão o próprio sentimento do mistério?
Mas
como isso poderia acontecer, se aquele que deveria ser o portal de entrada do
mistério na cultura já se transformou no espaço da lógica e do materialismo?
A ciência só decaiu em dogma “religioso” porque a religião, que deveria
ser a guardiã do mistério, já havia se transformado em “ciência”.
Por
outro lado, o verdadeiro sentido do elemento técnico da ciência só poderá
ser resgatado quando os cientistas se derem conta da necessidade de agirem
conscientemente e assumirem as responsabilidades pelo que fazem. E a verdade é
que para eles isso não é fácil, porque as instituições que deveriam indicar
a todos o caminho da consciência, que deveriam, portanto, ensinar os valores éticos,
têm sido as primeiras a aderirem ao jogo do cálculo lógico das conveniências.
Vê-se
então que a solução do problema da ciência depende de um renascimento da
religião, entendida não como mera instituição social, não como aglomeração
política inconsciente de “fiéis” ou “crentes”, e não como conjunto de
doutrinas teóricas, mas como verdadeira religação do homem à dimensão do
espírito, que é a dimensão do mistério, a única capaz de levá-lo ao
reconhecimento de sua natural responsabilidade para com o bem-estar de seus
semelhantes. Só assim será possível fazer nascer a nova ciência, a
verdadeira, a que poderá resgatar o sentido de uma investigação sistemática
dos fenômenos naturais de forma, enfim, consciente.
CIENTISTA:
CIENTE ESTÁ?
Muitos
estudantes ingressam nas universidades visando seguir carreira científica e
aspirando poder contribuir, com seu trabalho, para o progresso e o bem-estar da
humanidade. Porém, aos poucos, eles começam a perceber que a carreira acadêmica
é um jogo a cujas regras devem se sujeitar caso pretendam “vencer”
profissionalmente. São então estimulados a dedicar grande parte de seu tempo a
um estudo cujo objetivo ou utilidade desconhecem, como se estudar qualquer coisa
fosse realmente válido. Aos poucos, começam a perceber que, para os que já
estão nesse jogo (como, por
exemplo, seus professores), o objetivo principal é a publicação do maior número
possível de trabalhos, independentemente de eles terem alguma utilidade real ou
não.
Ao
ingressar num curso de pós-graduação, o estudante universitário se dá conta
de que cada disciplina ministrada é concebida dentro dos limites de uma
determinada especialidade, cujo domínio implica o conhecimento de uma complexa
terminologia que parece existir unicamente em detrimento da simplicidade. Desse
modo, ele é motivado a dedicar-se à conquista de um nível de especialização
cada vez maior. Aos poucos, em favor dessa especialização, perde -se a “visão
do todo”; e a ligação entre pesquisa e realidade concreta torna-se mais tênue
a cada dia. Linhas de pesquisa potencialmente capazes de minimizar os problemas
sociais são então deixadas de lado em favor de outras que, embora extremamente
limitadas do ponto de vista de sua aplicabilidade, são consideradas pelos meios
científicos internacionais como de grande relevância. Assim é que os
estudantes acabam perdendo de vista o papel do cientista na sociedade e deixando
de ter interesse em resolver os problemas sociais que demandam soluções
imediatas.
Concluído
o mestrado, é de praxe o estudante universitário dar início a um curso de
doutorado. Neste estágio, provavelmente, aquele que for mais sensível já se
sentirá violentado pelo fato de haver dedicado tanta energia a uma atividade na
qual não vê sentido, e que não corresponde nem mesmo remotamente a sua antiga
aspiração de prestar bons serviços à coletividade. Já sentirá, em suma,
que ameaça apagar-se dentro dele aquela velha chama que o motivava a fazer
coisas boas, e que conferia às atividades de seu dia-a-dia um amplo sentido.
Como recompensa pela perda, o sistema acadêmico lhe oferece então a
possibilidade de começar a pronunciar-se em congressos e cursos de diversas
partes do mundo. Em nome do “intercâmbio científico”, os pós-graduandos
podem expor os resultados de seus estudos e até mesmo falar sobre as aplicações
potenciais de seus trabalhos, ou, caso elas inexistam por completo, simplesmente
inventá-las. A cada exposição, passado o constrangimento de ter que falar
sobre um trabalho cuja finalidade é ignorada por todos, o estudante fica
liberado para retornar ao hotel no qual se hospedou com todas as despesas pagas
ou, se o preferir, para tomar a fresca pelas ruas da cidade.
Terminado
o doutorado, o já então ex-estudante certamente estará ciente de que dedicou
anos de sua vida a atividades de pesquisa pelas quais, ao fim e ao cabo, ele
jamais optou, mas que foram levadas adiante em função dos interesses da
universidade. Porém, seu antigo sonho de fazer algo útil através da ciência
poderá lhe parecer agora uma simples quimera do passado, e, a não ser que ele
seja dotado de uma força de vontade fora do comum, não deixará de se sentir
atraído pelas possibilidades profissionais que vê à frente e concluirá que o
melhor a fazer é dar continuidade a sua carreira acadêmica. E, para alcançar
esse objetivo, estará disposto até mesmo a trabalhar pela perpetuação do
engodo no qual, inadvertidamente, ele próprio caiu. Não hesitará, portanto,
em amoldar-se ao sistema universitário.
Ao
se tornar, por fim, professor pesquisador, o ex-estudante não poupará esforços
para reunir “méritos” que lhe permitam obter vantagens em sua carreira
profissional, tais como a efetivação do vínculo empregatício que o liga à
universidade e a conquista de cargos visados no âmbito acadêmico (assessor
junto aos órgãos de fomento à pesquisa, consultor, chefe de departamento,
diretor de instituto, pró-reitor, etc.), entre outros. A fim de consegui-lo,
ser-lhe-á fundamental, é claro, que conste em seu currículo um grande número
de publicações. Sua meta passará então, ironicamente, a ser a mesma de seus
antigos professores, aquela que, anos antes, tanta estranheza lhe causara:
publicar sempre o maior número possível de trabalhos.
Passado
algum tempo, algumas décadas talvez, o cientista terá perdido quase que
completamente o seu interesse por tudo aquilo que diga respeito ao, por assim
dizer, “mundo lá fora”, isto é, por tudo o que se encontra além da sala
ou laboratório em que ele passa o tempo a debruçar-se sobre questões
extremamente específicas (muitas vezes, nem mesmo a família escapa). A feroz
competividade de seu ambiente de trabalho fará com que a escolha dos temas de
suas pesquisas seja feita, meramente, em função de seu grau de aceitação nas
revistas especializadas de maior impacto na comunidade científica. Adotar
alguma linha de pesquisa nova tendo como parâmetro as necessidades reais do
planeta lhe parecerá muito “arriscado”, pois ela poderá não ser bem
aceita. E, afinal, o salário, as chances de ganhar bolsas, as viagens pagas e o
próprio prestígio profissional são proporcionais ao número de publicações
que se consegue realizar...
Enfim,
esse é o futuro que espera pela grande maioria daqueles que pretendem seguir
carreira universitária, seja na área das ciências humanas, exatas ou biológicas.
É evidente que esse triste processo de adesão à “máquina” acadêmica
pode se dar de maneira mais suave em alguns espaços universitários. Em outros,
porém, ele é ainda mais gritante. Somente uma maior sensibilização e
humanização por parte da elite universitária em relação às necessidades
mais prementes das populações mundiais é que poderá levá-la a repensar os
princípios e valores que têm vigorado nas universidades.