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MARX
o ideólogo
do crime
 Hum!... Que delícia! Ninguém poderá dizer que eu não me ocupo com as
massas
Os crimes cometidos pelos regimes comunistas
no mundo todo, que em setenta anos atingiram cem milhões de pessoas, têm por
detrás um incontestável inspirador: Moses Mordechai Marx Levi, mais conhecido como Karl Marx. No entanto, interesses
escusos procuram desvincular a sua figura dos acontecimentos históricos que sua
doutrina ensejou, como se estes não passassem de deturpações de suas idéias.
Assim, procura-se perpetuar uma imagem romântica a seu respeito, de benfeitor
e idealizador da sociedade humana, como se em suas teses ele não procurasse
legitimar a violência. Marx não só a legitima como também a estimula,
incentivando o terrorismo e o assassinato, procurando convencer a todos de que
os fins justificam os meios. Adepto incondicional da equivocada teoria
darwinista de que o homem seja um animal, ele deprecia os valores morais e
espirituais do ser humano, alegando que a criminalidade estimula o progresso e a
economia. Além disso, aquele que é considerado o maior defensor do trabalhador
tinha uma verdadeira ojeriza pelo trabalho, tendo passado uma existência toda
fugindo dele. Marido de uma baronesa, dilapidou as heranças que recebeu em especulações financeiras e no vício do
alcoolismo, tendo tomado emprestado de seu amigo Engels, durante vinte e cinco anos, uma quantia vultosa de dinheiro que nunca foi reembolsada.
Levava, assim, uma vida de intelectual boêmio, recusando-se a ir muito além de sua escrivaninha. Portanto, o homem que pretendeu ensinar ao mundo um
novo modelo econômico não demonstrou, durante toda a sua existência, capacidade para administrar nem mesmo sua própria situação
financeira. E apesar de sua célebre apologia ao proletariado, Marx, na verdade, nunca teve qualquer contato com ele, salvo com sua criada
Lenchen, que foi sua amante durante vários anos e com quem teve um filho,
Freddy, que não chegou a ser reconhecido por seu pai.
As origens
Numa madrugada tempestuosa do ano de 1785, um cavaleiro solitário cavalga a
toda brida por uma estrada da Baviera. Sucede então que a mão do destino
encarrega-se de fulminá-lo com um raio. Após o trágico acidente, ao
amanhecer, camponeses da região se deparam com o misterioso personagem morto
junto a seu cavalo. A seu lado, uma valise de couro guardando documentos que
influenciariam e decidiriam o destino de milhões de pessoas é encontrada e
levada, juntamente com o corpo do cavaleiro, até o posto policial
local, onde se constata serem os papéis estatutos e documentos diretivos
de uma até então desconhecida sociedade denominada Ordem Secreta dos
Iluminados da Baviera, cujo mentor era Adam Weishaupt. O cavaleiro que jazia
inerte aos pés do chefe de polícia era seu mensageiro.1
Os documentos são chocantes por revelarem uma intrincada rede de conexões
clandestinas entre personagens destacados na cena cultural e política européia
bem como pela estratégia violenta que preconizam para a consecução do
principal objetivo da ordem: a derrocada do poder instituído, corrompido em seu
âmago mais profundo. A violência do conteúdo dos documentos de Weishaupt é
provocada pelo despotismo e concupiscência
tanto da parte da Igreja como das monarquias da época. Mesmo seus métodos
clandestinos são extraídos do cerne violento das instituições dominantes. A
Inquisição já havia se utilizado do anonimato de seus espias para espalhar
invisivelmente o terror; e a famosa Ordem dos jesuítas detinha os segredos de
Estado das cortes européias e da Igreja, atuando politicamente, através de
ramificações ocultas, nos bastidores dos jogos de poder.
Weishaupt, ex-jesuíta, retivera os princípios de organização e atuação de
sua antiga Ordem para voltá-los agora contra o próprio poder no qual ela se
enraizava. O regime instaurado pela ação dos Iluminados da Baviera só poderia
assemelhar-se ao adversário que ela combatia. A seita dá origem às sociedades
secretas cujas atividades culminarão no deprimente espetáculo conhecido como
Revolução Francesa. O Ancient Régime cai em meio à crescente selvageria; a
radicalização revolucionária manda sucessivamente à guilhotina os que na véspera
eram os mandatários do terror. A cada ato violento a violência recrudesce ao
invés de arrefecer. A decapitação de monsieur Guillotin é o símbolo máximo
da autodestrutividade da violência, mas também de sua autoperpetuação.
As injustiças do novo modelo econômico e político capitalista, implantado após
a Revolução Francesa, em breve suscitam a oposição das classes populares. A
partir da metade do século dezenove, os comunistas “científicos”,
seguidores da doutrina revolucionária de Marx, arrogam-se o direito de tutelar
o proletariado, usando-o como cobaia das teorias marxistas. Organizam-se em
sociedades paramilitares clandestinas que visam a tomada do poder pela força
das armas. Infiltram-se secretamente nos sindicatos, nos partidos operários e
nos movimentos populares, aliciando seus líderes e instilando na massa o veneno
da sedição. Manipulam-na despertando nela o ressentimento e a revolta, visando
liberar sua força explosiva, que pretendem utilizar para seus objetivos.
Os estatutos destas organizações adotam a terminologia do Manifesto Comunista
de Marx e Engels, como também seu modelo de análise histórica. Mas as táticas
de ação que propõem denunciam outra origem: é o conteúdo da valise de couro
de Weishaupt. Pouco antes da redação do Manifesto, Marx havia ingressado na
Liga dos Justos, que posteriormente veio a se chamar Liga dos Comunistas. Ora, a
Liga dos Justos não é senão um dos muitos braços da Ordem Secreta dos
Iluminados da Baviera.
Marx torna-se então o herdeiro moderno da ideologia que aponta a violência
como meio de por fim à violência, e o crime como possibilidade de redenção
da humanidade. Este elemento pernicioso de sua doutrina tem sido
insuficientemente discutido, mesmo pelos críticos do pensador. Os assombrosos
crimes cometidos pelo regime comunista soviético convidam a uma postura
diferente. Faz-se tempo de estabelecer claramente a relação direta entre os
fatos históricos e a doutrina marxista, e de considerá-la sob o ponto de vista
de sua periculosidade.
A apologia do crime
Um número tem pesado sobre as consciências de todo o mundo civilizado. Esse número
é cem milhões, e refere-se à quantidade de seres humanos aniquilados pelos
regimes comunistas no mundo todo desde a revolução russa.2 É triste
recordarmos que todas estas pessoas foram imoladas em nome das falsas promessas
de uma “sociedade justa e fraterna”, cujo cumprimento era interminavelmente
adiado por novas promessas: o que Marx não fez, Lenin fará; o que Lenin não
fez, Stalin fará; o que Stalin não fez, Kruschev fará; e depois vieram
Brejniev e Andropov e... quem se lembra?
Esta chocante disparidade entre meios e fins é apenas o resultado mais
tragicamente visível da conhecida máxima leninista que define a boa ação
moral como tudo aquilo que leva o partido comunista ao poder. Neste “tudo”
estão incluídas, evidentemente, também a violência e a ação criminosa.
É comum ouvirmos dizer que Marx nada tem a ver com os crimes soviéticos e dos
outros regimes comunistas, os quais resultariam tão somente de uma má aplicação
de suas teorias. Esta é a opinião dos que têm um conhecimento bastante
limitado e superficial dos textos de Marx ou o conhecem apenas por ouvir dizer
(noventa por cento dos marxistas). Lenin não era um desses. Conhecia bastante
bem Marx e, como se sabe, não era capaz de dar um passo sem pedir-lhe a bênção.
E é no volume inacabado de O Capital, no capítulo denominado Teoria da Mais
Valia, que ele provavelmente encontrou a página mais apta a fornecer sustentação
teórica para sua estranha idéia de moralidade. Ei-la:
“O criminoso produz crimes. Se olharmos mais de perto as relações que
existem entre este ramo de produção e a sociedade no seu conjunto,
ultrapassaremos muitos preconceitos. O criminoso não cria crimes: o que ele
cria é o direito penal. (...) Mais: o criminoso cria todo o aparelho policial e
judiciário – polícias, juízes, carrascos, jurados, etc. – e estas
diferentes profissões, que constituem igual número de categorias da divisão
social do trabalho, desenvolvem diferentes faculdades do espírito humano e
criam ao mesmo tempo novas necessidades e novos meios de as satisfazer. (...)
O criminoso cria uma sensação que participa da moral e do trágico, e ao fazê-lo
oferece um “serviço”, mobilizando os sentimentos morais
e estéticos do público. Não cria apenas tratados de direito penal:
cria igualmente arte, literatura, ou seja, tragédias, sendo disto testemunhas não
só La Faute, de Müllner, e Les Brigands, de Schiller, mas também Édipo e
Ricardo II. O criminoso quebra a monotonia e a segurança quotidiana da vida
burguesa, pondo-a assim ao abrigo da estagnação e suscitando a interminável
tensão e agitação sem a qual o estímulo da própria concorrência
enfraqueceria. Estimula assim as forças produtivas. (...)
Descobrindo incessantemente novos meios de se dirigir contra a propriedade, o
crime faz nascer incessantemente
novos meios para a defender, de modo que o criminoso dá à mecanização um
impulso tão produtivo como aquele que resulta das greves. Para lá do domínio
do crime privado, teria o mercado mundial nascido se não houvesse crimes
nacionais? E as próprias nações? E depois de Adão, não corresponderia a árvore
do pecado simultaneamente à árvore da ciência?”
Mais do que a suposta utilidade do crime, estas linhas demonstram o poder que
uma argumentação habilmente construída possui para vestir as idéias mais
torpes com uma aparência de normalidade e logicidade. Demonstram também o notável
talento que Marx tinha para isso, o que pode parcialmente explicar a radicalização
fanática dos grupos clandestinos marxistas. Os que se inclinam a duvidar que
Marx tenha defendido a sério esta tese cínica precisam apenas, para se
desiludirem, compará-la com o texto do Manifesto do Partido Comunista, no qual
Marx por três vezes afirma que a tomada do poder pelo proletariado terá de ser
violenta3, ou ainda, com o teor de um trecho de um discurso por ele dirigido aos
cartistas ingleses em 1856, no qual menciona a existência de um tribunal
secreto na Alemanha medieval cujo objetivo era …
“…vingar as iniqüidades das classes dominantes. Quando se via uma cruz
vermelha assinalando uma casa, todos sabiam que seu dono havia sido condenado
pelo tribunal. Todas as casas da Europa estão agora marcadas com a misteriosa
cruz vermelha. A História é o juiz. Seu verdugo é o proletariado.”4
Retórica semelhante foi também usada em um discurso proferido por Marx na Liga
dos Comunistas em abril de 1850:
“…longe
de nos opor aos chamados excessos, à vingança do povo dirigida a indivíduos
odiados e a ataques populares a edifícios associados a lembranças odientas,
devemos não apenas tolerar tais coisas como também assumir a iniciativa
delas.”5
Comentando este
trecho, o historiador Edmund Wilson afirma que “é uma deformação minimizar
o elemento sádico dos escritos de Marx”. Na verdade, uma semelhante fixação
no elemento violento se mostra também na sua própria produção teórica.
Conhece-se, por exemplo, o papel desempenhado pela violência na concepção
marxista da História. “A história das sociedades até agora tem sido a história
da luta de classes”6, diz o Manifesto do Partido Comunista. Aos olhos do filósofo,
o desenvolvimento da civilização aparece apenas como uma seqüência
ininterrupta de roubos, rapinagens, espoliações, latrocínios e dominações.
Decerto que violência e dominação fizeram parte da história humana, mas
transformá-las em único fundamento de uma interpretação da História revela
uma tendência patológica do pensamento de Marx, a tendência à depreciação
do valor moral e espiritual do ser humano. A arte, a ciência, a filosofia, a
religião, a moral e todas as formas culturais nas quais o homem projeta seus
ideais são para Marx apenas o reflexo distorcido e ilusório da única
realidade que ele reconhece: o modo de produção econômico e a luta de classes
a ele associada. O primeiro é a forma pela qual o homem domina a natureza,
submetendo-a violentamente à sua vontade; a segunda é a forma pela qual o
homem domina outros homens. Assim, a análise marxista reduz toda realidade
humana àquele fundo violento da luta pela sobrevivência e pela dominação.
Dir-se-ia que tais idéias resultam do espírito conflituoso, desassossegado e
marcadamente encrenqueiro de Marx, que se reflete em
sua obra, através da qual conseguiu atormentar durante setenta anos a
humanidade e atrasá-la espiritualmente.
Influência do darwinismo
Essas características do pensamento de Marx evidentemente o aproximam de
Darwin, e não é de hoje que se descobriu a importância do biólogo para o
patrono do comunismo. O próprio Engels reconhece implicitamente essa afinidade
de pensamento quando afirma, no discurso que proferiu por ocasião do enterro de
Marx, que “…assim como Darwin descobriu a lei da evolução da natureza orgânica,
Marx descobriu a lei do desenvolvimento da História humana…”.7 Marx, que
criticou tanta gente com ferocidade, elogia Darwin por ter demonstrado que também
a natureza tem uma história.8 E fez isso porque ele mesmo havia utilizado o
modelo darwinista de história natural para explicar a história dos homens.
Como se sabe, este modelo se baseia na teoria da seleção natural, segundo a
qual os espécimes geneticamente mais fortes e aptos conseguem determinar o
futuro das novas gerações derrotando os menos aptos na luta pela sobrevivência.
Basta tomar este modelo e substituir os espécimes pelas classes sociais (ou
seja, a luta entre os espécimes pela luta de classes) e a genética pela
economia (substituir as mutações genéticas pelas mutações econômicas, e o
patrimônio genético dos mais fortes pelo patrimônio econômico das classes
dominantes) para se ter um esquema da essência da concepção marxista da História.
Os marxistas gostam de criticar o chamado “darwinismo social”, que deu
origem a concepções fascistas da História, e de dizer que o método de Marx
se baseia na dialética de Hegel. Que leiam então o prefácio à primeira edição
de O Capital, onde o próprio Marx define seu método como uma tentativa de
compreender o desenvolvimento econômico da sociedade como um processo de história
natural, sem que seja dita qualquer palavra sobre “dialética”. Mas o que
ele pensava ao falar de história natural? Isto fica claro quando se descobre
que sua primeira intenção era dedicar a obra não a Hegel, mas a Charles
Darwin.9
Ligações perigosas com o Velho Testamento
Porém, para se compreender a onipresença da violência e do crime nas teses
marxistas, talvez seja necessário remontar a um darwinismo mais antigo, ao
protodarwinismo implícito no Velho Testamento, cujo estudo e leitura devem
seguramente ter preenchido considerável espaço da infância de Marx. O filósofo
nascera em uma família apinhada de rabinos tanto pelo lado da mãe quanto pelo
do pai, dentre os quais se contava o avô paterno e um tio. É possível então
imaginar o bombardeio teológico tanto explícito quanto subliminar a que esteve
submetido, e justamente em uma idade na qual não tinha meios de se defender.
Talvez até o professado ateísmo de Marx seja explicável como uma reação a
esta opressiva superexposição, reação esta que, não obstante, provavelmente
não terá podido apagar a profunda impressão que aquelas narrativas ancestrais
terão deixado no entendimento infante, com o terrível a misturar-se ao
grandioso, e com sua moralidade, para dizer o mínimo, confusa. É essa herança
metafísica adquirida na infância que, recalcada durante décadas de
materialismo, retorna na produção teórica de Marx, e às vezes em variações
perversas.
Alguns dos efeitos dessa inesperada influência são bem conhecidos: o
proletariado seria o substituto materialista e sociológico do povo eleito, e
Marx uma espécie de novo Moisés (aliás, esse era mesmo um de seus prenomes),
que, substituindo o cajado pela baioneta ensangüentada, o guiaria à Terra
Prometida da sociedade sem classes. Como Moisés, Marx não chegou a pisar a
Terra Prometida. Aliás, nem seus seguidores, ao contrário do que ocorre na
narrativa bíblica. Em uma outra interpretação, a imagem idílica que Marx faz
do chamado comunismo primitivo das primeiras sociedades humanas aparece como o
paraíso perdido do Éden, cuja reconquista o filósofo, vestido agora de
(falso) Messias, lideraria. Mas, ao contrário do paraíso que padres e rabinos
mencionam para ganhar o fervor do público, a miragem de Marx se situava na
Terra, e não no Céu, não seria mais preciso morrer para desfrutar dela, o que
a tornou consideravelmente mais atrativa para muita gente. Só que o homem é
expulso do paraíso que a Terra efetivamente é à medida que o capitalismo se
alastra impiedosamente até nos mais distantes rincões do planeta, desfigurando
e maculando a natureza para transformá-la inexoravelmente em mercadoria. E, por
mais estranho que pareça, esse tipo de regime deve o seu status de dono do
mundo e senhor absoluto do pedaço sobretudo a Marx e ao comunismo, como veremos
a seguir.
Retornando, porém, ao nosso tema, perguntemos: que diz o Velho Testamento a
respeito da origem da sociedade e da civilização? Simplesmente que ambas
resultam de um crime, nomeadamente, do fratricídio de Caim. Ao matar Abel, Caim
se torna, segundo a alegoria do Gênesis, o único herdeiro do mundo, o
precursor e patriarca da humanidade. A civilização e todas as suas obras, o
homem e todos as suas realizações, anseios e pensamentos, tudo isso derivaria
apenas do crime de Caim, e carregaria, conseqüentemente, seu estigma. É sob
este signo que Marx vê desenrolar-se toda a história humana, motivo pelo qual
apenas consegue concebê-la como uma seqüência infame de violências. Essa
postura evidencia a sua reconhecida afinidade com as idéias de Freud, que
procuram mostrar o homem como um ser naturalmente pervertido, incestuoso,
homicida e impotente diante de suas fraquezas. O precursor da psicanálise,
durante uma conferência proferida em Viena em 16 de fevereiro de 1915, afirmou:
“Nós todos nós nascemos de uma longa linhagem de assassinos” (in: Nous et
la mort). O estrago que o veneno das idéias de Marx ocasionou no plano político-social
só é comparável ao provocado no campo da psicologia por esse seu contemporâneo,
cujas idéias solaparam os valores do mundo ocidental do século XX, impelindo
as pessoas a encararem o homem como um ser irregenerável.

Boas inteções, muito fumo e
gritaria, nada mais!
(Um encontro de comunistas)
Teoria do mal necessário
Na narrativa de Caim, está contida a equívoca concepção ética da justificação
dos meios através dos fins, e de que mesmo o crime pode eventualmente ser útil
ao progresso humano: Caim matou Abel, mas deu início à civilização; e
talvez, pensar-se-ia, não pudéssemos estar aqui se fosse outro o iniciador de
tal geração. Semelhantemente, Marx aponta os roubos e violências impingidos
pelas classes dominantes às dominadas em cada fase da história humana, mas, ao
mesmo tempo, considera-as como estágios históricos necessários no caminho que
conduz ao comunismo. Isto é o que torna ambígua e improcedente a virulência
com que Marx denuncia os crimes do capitalismo. Ele descreve os horrores do modo
de produção capitalista com as cores mais sombrias e da forma mais crua
(apesar de ter passado a existência trancado em um gabinete sem nenhum contato
direto com a rotina dos operários): o aspecto vampiresco da grande indústria e
das altas finanças, a escravização do homem ao trabalho mecânico, a utilização
de mão-de-obra infantil, a desumana jornada de trabalho… Mas, ao mesmo tempo,
afirma que o capitalismo cria as condições de existência do comunismo, e que
é um estágio pelo qual é preciso necessariamente passar para se chegar enfim
à sociedade sem classes. Mais ainda: o comunismo só poderá surgir quando as
contradições do sistema capitalista tiverem atingido seu máximo grau, pois só
assim a revolução “redentora” terá se tornado inevitável. Mas então
deveríamos considerar os crimes do capitalismo como… úteis? E, nesse
sentido, como… bons? Pode algo ser condenável e ao mesmo tempo necessário?
É possível que
este paradoxo ético tenha tirado o sono de muitos marxistas. Mas há um outro
maior e mais grave, porque não se limita ao campo da teoria: como pode uma
doutrina que denuncia a violência e diz visar a sua supressão lançar mão da
própria violência como meio de atingir seus objetivos? Pode a fraternidade
surgir da discórdia? A paz do crime?
É evidente que não, e as conhecidas aventuras soviéticas do marxismo são a
prova mais espetacular disso. Esperemos que tenham sido as últimas.
O homem como animal
O lema preferido
de Marx era uma antiga sentença latina: nada de humano me é estranho. No próprio
ato de repetir esta frase, Marx dava uma prova cabal do contrário. Pois no que
toca ao conhecimento do ser humano vale aquela outro dito, menos elegante, mas
certo: quem sabe cala, quem não sabe fala. E, de fato, que sabia ele sobre o
ser humano? Conhecia bem a história da filosofia em geral, e especialmente
Hegel e Epicuro, sobre quem escreveu uma tese de doutorado. Lia grego e latim.
Era versado em temas de economia: conhecia os economistas clássicos e a história
da industrialização na Inglaterra. Escreveu sobre a Revolução Francesa e
sobre a guerra franco-prussiana. Mas sobre o ser humano era um completo
ignorante.
As próprias teorias de Marx a respeito do homem testemunham esta ignorância,
pois nesse ponto também se manifesta sua herança darwinista. A Darwin, Marx
deve não só a seleção natural mas também a idéia de que o homem é, em última
análise, um animal. Falante, mas animal.
Para Marx, o atributo da humanidade não é inerente ao ser humano, não
pertence à sua essência, mas é adquirido historicamente à medida que ele
desenvolve os meios de produção econômicos, isto é, à medida que ele
modifica o ambiente em que vive e submete a natureza ao seu domínio. Assim, a
seu ver, o homem primitivo, que não domina a natureza, mas ainda é dominado
por ela, não se distingue claramente dos animais:
“A consciência, naturalmente, começa por ser apenas consciência acerca do
ambiente sensível imediato… É, ao mesmo tempo consciência da natureza, a
qual a princípio se opõe aos homens como um poder totalmente estranho,
todo-poderoso e inatacável, com o qual os homens se relacionam de um modo
puramente animal e pelo qual se deixam amedrontar como animais; é, portanto,
uma consciência puramente animal da natureza (religião natural)… Este começo
é tão animal como a própria vida social desta fase, é mera consciência de
horda, e o homem distingue-se do carneiro apenas pelo fato de a sua consciência
lhe fazer as vezes do instinto, ou de seu instinto ser consciente.”10
É fácil perceber o estrago que tal concepção da natureza humana provoca na
autocompreensão do homem, especialmente no que toca à sua moralidade. Se o
homem se crê animal, pode-se dar o direito de agir como tal, cometendo toda
sorte de desatinos, ou seja, de atitudes desequilibradas e inconscientes. Sob
tal ótica, torna-se então impossível admitir que o ser humano seja capaz de
possuir ou buscar valores que transcendam esta estreita esfera. E no entanto são
esses esquecidos valores, e não a luta de classes ou a dominação da natureza,
que podem salvar a civilização do atraso moral e espiritual.
Aversão aos camponeses
Essa forma de conceber o homem e a natureza leva Marx, já em seus primeiros
escritos, a uma posição claramente preconceituosa em relação ao setor agrário
da economia e ao campesinato em geral, uma vez que ambos representariam um estágio
inferior do desenvolvimento das forças produtivas e estariam ainda por demais
submissos à natureza, ao invés de dominá-la. Kostas Papaioannou, filósofo
grego e crítico de Marx, comenta assim este estranho traço do pensamento
marxista, capaz de fazer tremer as bases teóricas dos movimentos agrários de
cunho socialista:
“O único trabalho que Marx conhece e reconhece é o trabalho industrial,
mediante o qual o homem se rebela real e eficazmente contra a natureza. Por
exemplo, o camponês não participa da dignidade do trabalhador concebida pelo
jovem Marx. Ele, que elogiou a burguesia por haver reduzido o número de
camponeses e ‘livrado uma grande parte da população do cretinismo rural’,
só sentia desprezo pelo camponês. ‘Hieróglifo inexplicável para todo espírito
civilizado’, representantes ‘da barbárie no próprio seio da civilização’,
os camponeses para ele não são verdadeiros trabalhadores, mas animais
submetidos à natureza.”11
Assim, para
Marx, a relação homem/natureza é necessariamente de antagonismo: ou se domina
ou se é dominado. A terceira possibilidade ele simplesmente não consegue
conceber: a de que o homem viva em harmonia com a natureza, desfrutando do que
ela oferece sem violentá-la, conhecendo e respeitando seus limites, seus ciclos
e necessidades. Se Marx acha que o homem precisa se comportar diante da natureza
ou como o animal amedrontado pelo trovão ou como o general conquistador no
front de batalha, é porque não consegue
pensá-lo como parte da natureza, como a parte dela que chegou à consciência,
da qual ele tanto fala sem ter a mínima noção do que seja. É incapaz de
conceber a possibilidade do sentimento de comunhão com a natureza, da percepção
de que alguma coisa em nós está ligada a tudo o que vive na Terra, e também
aos rios e às estrelas. Este sublime sentimento, tão humano e humanizante,
encontrado mesmo entre os aborígenes “incivilizados”, entre os artistas, os
místicos, camponeses, cientistas, filósofos (sim, até entre eles) e homens
comuns, desde que dotados de sensibilidade, este sentimento Marx, com toda a sua
erudição, não o pôde conceber. E dizia que nada de humano lhe era estranho.
Mudar a sociedade sem mudar o homem?
No homem há muito mais coisas do que sonhou a vã filosofia marxista. Ele é
vasto demais para caber no intelecto de Karl Marx, ou em qualquer outro. Por ter
concebido o ser humano de forma tão estreita, Marx chegou a pensar que seria
possível transformá-lo através de uma mudança da estrutura econômica da
sociedade.
O homem do
capitalismo é mau e injusto, meditava ele, mas o do comunismo será bom e justo
(e hoje em dia os marxistas de botequim afirmam que o comunismo “não deu
certo porque os homens que quiseram aplicar a doutrina de Marx não eram
bons”…); só depois que a sociedade for transformada o homem poderá se
transformar...
Percebe-se o
absurdo que está contido nesta idéia? Deveríamos então perguntar: porque o
mundo chegou a ser tão injusto e violento como é? Sem dúvida, porque no homem
existem tendências injustas e violentas, ou, como diz o próprio Marx:
“…aquelas paixões que são ao mesmo tempo as mais violentas, as mais vis e
as mais abomináveis de que o coração humano é capaz: as fúrias do interesse
pessoal”12. Suponhamos então que a sociedade seja efetivamente
“transformada” pela revolução, sem que antes o homem tenha se
transformado. O que impedirá aquelas mesmas tendências de se manifestarem
novamente, e de forma ainda mais intensa, já que teriam sido excitadas pela
revolta e pela vingança? Quanto tempo será necessário para que a inveja, a
volúpia, a avareza e outras manifestações malévolas transformem o paraíso
artificial num novo inferno real, pior ainda que o anterior? O que a Rússia nos ensina sobre isso? Não
será melhor então começar por mudar o homem?
Marx, que raciocinava com tanto rigor, e que insistia sempre na idéia de que a
sociedade era produto da atividade humana, não atentou para essas questões.
Mudemos a sociedade – bradava. O
homem? Isso se vê depois!
Contradições entre vida e doutrina
A verdade é que o homem não se transforma por decreto ou por coerção estatal
e policial a menos que se queira apenas uma mudança aparente, e mudar apenas a
aparência é armar uma bomba-relógio. Para ser verdadeira, a mudança tem de
partir do próprio indivíduo, num processo no qual ele precisa enfrentar e
vencer a si mesmo. Estamos falando aqui de uma transformação existencial
profunda e de alcance espiritual, e que, como tal, requer uma orientação
adequada. Essa orientação, entretanto, não pode ser oferecida por nenhuma
doutrina política. Eis a dura realidade.
Disto se conclui que antes de querer mudar o mundo, Karl Marx deveria tentar
mudar Karl Marx. Diante desta conclusão ele certamente responderia como o fazem
todos os revolucionários: Mas o mundo é tão injusto! E eu sou tão boa
pessoa…
Na verdade, tudo indica que ele achava mais fácil mudar o exterior do que o
interior. Mais fácil combater o Capital com todo o seu poderio e seus exércitos
do que enfrentar a si mesmo. Isso explica a notável incongruência entre seu
discurso e sua vida.
O paladino da causa proletária levava uma vida que nenhum proletário poderia
sonhar viver. Vivia praticamente encerrado em seu gabinete ou nas bibliotecas de
Londres e Berlin, lendo, escrevendo, preparando e decorando discursos sobre as
condições de vida e de trabalho dos operários, as quais conhecia apenas através
de relatórios. Adotou o símbolo da foice e do martelo, mas é possível que não
soubesse diferenciar um do outro.
Para escrever com tranqüilidade sobre a produção do capital, Marx
simplesmente se negou a produzir, ele mesmo, qualquer capital. Por esse motivo,
nunca foi capaz de conservar por muito tempo uma fonte de renda própria, como
aliás conviria a alguém que tem uma família e quer manter alguma independência.
De fato, foi o casamento que, por algum tempo, o salvou do destino comum dos
desempregados. Casado com Jenny von Westphalen, filha do barão Ludwig von
Westphalen, Marx reduziu a zero o dote da esposa a fim de se sustentar e de
publicar alguns de seus escritos. Assim é que o intelectual que tanto atacou a
aristocracia não viu nenhum problema em ser subsidiado com o dinheiro desta.
Tampouco não viu problema em aceitar dinheiro advindo da “exploração do
trabalhador assalariado”: depois que Jenny já havia vendido as últimas
pratarias, a família teve de ser sustentada pelas atividades industriais de
Engels, pois o “trabalho” de Marx não podia ser interrompido. Assim, Engels
extraía a mais-valia de seus empregados para enviar o dinheiro de que Marx
necessitava para denunciar a mais-valia. Tal suporte econômico concedido pelo
amigo estendeu-se por toda a sua vida.
Muitas vezes as remessas não eram suficientes e os Marx passavam grandes
apertos. Nem mesmo as heranças que ele recebeu de seu pai e, posteriormente, de
sua mãe, serviram para aliviar sua situação financeira. A parte que lhe
competia da herança materna ele já havia recebido antecipadamente através de
um tio. As dívidas se acumulavam a tal ponto que os oficiais de justiça
levavam embora os móveis por inadimplência, obrigando parte da família a usar
o chão como cama. E nem assim o chefe da família se decidia a ir à luta.
Beberrão e fumante inveterado13, não se sentia disposto a enfrentar a labuta
do dia-a-dia, embora pudesse trabalhar como jornalista. Por causa disso e de
outras faltas, sua mulher o abandonou duas vezes, regressando, porém, à casa
em ambas as ocasiões. Marx havia encasquetado que tinha de salvar o
proletariado, e essa idéia fixa o cegou para suas responsabilidades imediatas,
impingindo a si mesmo e aos familiares sofrimentos desnecessários. O conde
Tolstói, de cuja herança humanística os comunistas indevidamente se
apropriaram, adaptando e desfigurando seu discurso de acordo com suas intenções,
abdicou das vantagens da nobreza e foi arar a terra como lavrador. Melhor seria
se Marx tivesse seguido este exemplo prático e houvesse conhecido na prática o
peso que tem uma enxada. Assim teria compreendido realmente algo sobre o ser
humano, e pensaria melhor antes de falar mal dos camponeses.
A esposa tampouco sabia lidar com dinheiro. Ela havia recebido da mãe como
“presente” uma criada, Helen Demuth (mais conhecida como Lenchen), que fazia
todo o trabalho da casa e ainda cuidava das finanças da família, mas que nunca
recebeu um centavo por seus préstimos desde 1845 até sua morte em 1890. Em
1850 ela tornou-se amante de Marx e teve com ele um filho ilegítimo, Freddy,
que ele nunca reconheceu, e que foi criado por uma família operária. As omissões
do chefe de família em relação ao trabalho provocaram a morte de três filhos
seus por subnutrição. Restaram-lhe então três filhas, às quais ele negou
qualquer educação ou carreira, apesar de serem bastante inteligentes. Sua
filha favorita, Eleanora, casada com o escritor e político radical Edward
Aveling, que era satanista, cometeu suicídio em 1898. Em 1911 sua filha Laura e
o marido suicidaram-se juntos. Sua filha Jenny morreu em 1882, um pouco antes
dele mesmo.
Segundo o escritor Paul Johnson, em sua obra Intellectuals, havia algo no
temperamento de Marx que não se chocava com as idéias expressas em sua obra;
ao contrário, parecia ser a origem delas: seu temperamento violento, autoritário
e brigão, motivo pelo qual quase foi expulso de uma universidade. Já em sua
mocidade, quando contava com aproximadamente vinte anos, ele evidenciava esse
forte traço de seu caráter através de seus poemas, que apresentavam dois
temas principais: seu amor por Jenny e a destruição do mundo. Johnson afirma
que “dois desses poemas foram publicados no Athenaeum (Berlin, 1841) sob o título
de Canções Selvagens, onde, além da selvageria, ele mostra intenso pessimismo
em relação à condição humana, fascinação pela violência, pactos
suicidas, pactos com o diabo.” E que “o ódio, a violência e a visão
apocalíptica de uma catástrofe iminente do sistema social permeiam toda a sua
obra. (pág. 54)
Porém, a coragem não era seu forte, já que se envolvia em conflitos e duelos
e depois recusava-se covardemente a duelar, incitando seus assistentes a fazê-lo.
Um deles, Konrad Schramm, bateu-se em seu lugar, não obstante nunca ter usado
uma pistola, e saiu ferido. Outro assistente, Gustav Techow assassinou pelo
menos um outro revolucionário rival de Marx e
foi enforcado pelo assassinato de um policial. (Johnson, pág. 71)
Tampouco a solidariedade era o seu forte. A maior evidência a esse respeito foi
o seu relacionamento com Engels. O amigo constituiu, durante mais de vinte e
cinco anos, o suporte financeiro de família Marx, tendo-lhe entregado mais da
metade de sua renda total. Porém, o chefe da casa não só se mostrou grato
como ainda acomodou-se a essa situação, esquecendo-se dos brios e
acostumando-se a lhe pedir empréstimos financeiros, os quais, na verdade nunca
foram reembolsados. Quando a companheira de Engels faleceu, este encontrava-se
desolado, mas Marx não se mostrou capaz de expressar qualquer sentimento de
pesar pelo fato; ao contrário, enviou-lhe uma carta comunicando-lhe que estava
ciente do fato e, em seguida, indo direto ao assunto que o interessava: o envio
de uma nova remessa de dinheiro. O historiador Edmund Wilson comenta a
correspondência trocada por eles a despeito do assunto:
“No dia sete de janeiro de 1863, a amante de Engels, Mary Burns, morreu
subitamente de apoplexia. ‘Não posso sequer exprimir o que sinto’, escreveu
Engels a Marx num bilhete curto: ‘A pobre moça me amava de todo o oração’.
Em sua resposta Marx limitou-se a comentar que a notícia o ‘surpreendeu e
chocou’, que Mary era ‘simpática, espirituosa e dedicada’; em seguida,
discorreu longamente sobre a miséria em que vivia, queixando-se da dificuldade
de obter um empréstimo em Londres. (...) Engels só respondeu no dia treze a
carta que Marx lhe escrevera no dia oito, nos seguintes termos: ‘Prezado Marx:
você certamente há de compreender que a desgraça que me acometeu e a sua
atitude fria em relação a ela me impediram de lhe responder antes. Todos os
meus amigos, inclusive simples conhecidos filisteus, souberam manifestar, nessa
ocasião que não podia senão me abalar profundamente, mais solidariedade e
amizade do que eu esperava. Você aproveitou a oportunidade para demonstar sua
maneira orgulhosa de encarar as coisas com frieza’. (...) Dez dias depois Marx
lhe responde, pedindo desculpas e dizendo que se arrependera da carta tão logo
a enviara; mas ‘sob tais circunstâncias eu geralmente não consigo senão
recorrer ao cinismo’. E sua falta de tato e sentimento é tamanha que ele se
estende por páginas e páginas queixando-se de sua situação, e mais ou menos
dando a entender que sua carta anterior saiu como saiu devido à pressão que
sua mulher lhe impusera”.14
Esse episódio causou em Engels uma profunda indignação contra Marx e, a
partir de então, o relacionamento dos dois nunca mais foi o mesmo.15
Engels foi, segundo Johnson, a terceira grande vítima explorada
financeiramente por Marx; a primeira foi a família da esposa; e, a segunda, os
seus próprios pais.
Um contemporâneo seu, o anarquista Michael Bakunin, declarou a seu respeito:
“Se seu coração fosse tão forte como seu intelecto eu o seguiria através
do fogo. Mas falta-lhe nobreza de espírito. Estou convencido de que uma
perigosa ambição pessoal devorou tudo que havia de bom nele. A aquisição de
poder pessoal é o objetivo de todas as suas ações.16
O triste saldo
negativo
Se todos esses conflitos e sofrimentos houvessem resultado em algum bem para a
humanidade teriam pelo menos algum sentido. Mas o que Marx conseguiu? Sua
doutrina não gerou um mundo de fartura e concórdia, mas sim miséria, além do
terror do regime que mais crimes cometeu na História. Não gerou a liberdade,
mas a opressão do indivíduo pelo Estado absoluto. Onde quer que tenha sido
implantado, o Estado comunista se transformou num insuportável e odioso monstro
de ferro controlador e patrulhador da vida individual e das atividades e
pensamentos humanos, como se não devesse servir aos homens, mas sim ser servido
e adorado por eles. Marx achava que, sendo o Estado um instrumento de dominação
a serviço da classe privilegiada, deveria desaparecer com o supressão das
classes sociais. Mas (coisa estranha!), deu-se precisamente o oposto: o estado
fortaleceu-se além de toda medida! Terá saído algo errado? Ou será isso a
tal “dialética”?
Por outro lado, ao final das contas, o comunismo nem sequer arranhou o poderio
de seu arqui-inimigo. Pelo contrário: o capitalismo nunca foi tão pujante. E a
causa de sua radicalização e onipotência atuais foi sem dúvida a guerra
fria. Não fosse o pretexto de combater a terrível ameaça comunista, o
capitalismo não teria podido semear de forma tão eficaz por todo o mundo a
crença ideológica de que é a única forma possível de organização humana.
Outro fator da radicalização capitalista foi ter o marxismo entravado
enormemente o diálogo entre as classes. Não há nada de errado em organizar os
trabalhadores, mas a pregação da luta de classes criou artificialmente um
fosso ideológico praticamente intransponível entre empregados e patrões,
predispondo ambos os lados à animosidade e à desconfiança. Talvez se Marx não
houvesse escrito nenhuma linha, o capitalismo já houvesse evoluído para uma
forma mais humana de convivência, ou mesmo teria sido superado. E a previsível
falência do comunismo ainda serve atualmente como argumento complementar às
mentiras dos ideólogos do capitalismo. Hoje, que o comunismo não assusta mais
nem a Liga das Senhoras Católicas, estes mesmos ideólogos se entregam ao ridículo
de citar Marx, seja para se darem ares de “humanistas”, seja para ressaltar,
pelo contraste, o valor de suas próprias teorias.
E o proletariado? Que fez Marx por ele? Nada além de acrescentar à sua miséria
material a miséria espiritual do ressentimento, da revolta e do rancor, que são
apenas o outro lado da ganância e avareza capitalista, a imagem das paixões
capitalistas refletidas num espelho, o que mostra que ambos os sistemas não são
assim tão opostos. São somente manifestações das mesmas tendências não
humanas, cujo combate Marx quis adiar para depois da revolução, e que não
conseguiu combater em si mesmo.
Os Dois Demônios
A verdadeira história do
comunismo e do capitalismo
Demônio-Comunismo:
Eu possuo a bomba atômica. Posso impor o regime capaz de
destruir o dom dos homens que mais me irrita.
Demônio-Capitalismo:
Consta nos Evangelhos que nós, os demônios, somos os
pais da mentira, e por isso não sei se devo acreditar no que dizes. Talvez
estejas a inventar mais uma de tuas mentiras. Entretanto, não posso compreender
tuas palavras quando afirmas pretender destruir o dom dos homens que mais te
irrita. Que dom é esse?
Demônio-Comunismo:
Não percebes? Falo do dom da liberdade. A liberdade dos
homens permite-lhes escapar ao meu império. Porém, são tantos os desatinos
que em nome dela são cometidos que muitos dos que hasteiam sua bandeira acabam
caminhando às cegas para mim. O melhor, pois, é precipitar essa marcha pela
violência e fazê-los logo escravos.
Demônio-Capitalismo:
És um demônio bem tolo com essa tua camisa de operário.
Não podes compreender a minha filosofia de diabo rico, vestido elegantemente em
meio à grã-finagem. Pois a liberdade é justamente o poder que os homens
possuem de transgredir as leis morais. Se não fosse a liberdade, como poderia
eu alcançar êxito nas tentações que sutilmente insinuo nos homens,
conduzindo-os ao caminho da perdição?
Demônio-Comunismo:
Mais tolo és tu, pois não vês que esse caminho leva os
homens ao reino que presido. Julgas trabalhar para ti, mas, na verdade,
trabalhas para mim.
Demônio-Capitalismo:
Trabalho para a Civilização Ocidental Capitalista.
Demônio-Comunismo:
E o que é a Civilização Ocidental Capitalista?
Demônio-Capitalismo:
É algo como uma coisa que existe sem existir.
Demônio-Comunismo:
E trabalhas para uma coisa que ao mesmo tempo existe e não
existe?
Demônio-Capitalismo:
Trabalho pelo que não tem sentido.
Demônio-Comunismo:
Se não tem sentido, para que serve?
Demônio-Capitalismo:
Serve para que unicamente o meu próprio sentido prevaleça.
Demônio-Comunismo:
Pois não vejo sentido no teu sentido. Não te defines, como
eu, abertamente. As coisas que faço dirigem-se a um fim: a destruição do
homem, a sua transformação em peça de máquina, a sua degradação total. Bem
sabes que desde o começo, quando o demônio Lusbel nos arregimentou para a
grande revolta, cujos episódios o escritor Milton descreve com tanta eloqüência,
o motivo principal da nossa indisciplina foi o galardão que Deus outorgou aos
homens de serem racionais e livres e, de certa forma, superiores aos anjos,
porque em sua natureza dever-se-ia operar o milagre da Sagrada Aliança. Esta
guerra, anterior à criação do mundo visível e tangível, continua até hoje.
Todo o nosso empenho deve estar em despojar os homens de sua dignidade e de sua
humanidade, reduzindo-os à condição de simples animais.
Demônio-Capitalismo:
Trabalhas contra ti mesmo. Ou melhor, julgas trabalhar
pela escravidão dos homens, mas ao mesmo tempo crias condições para que
desperte neles a razão. Porque é justamente quando o homem se vê desligado de
todos os bens da terra e se sente humilhado, ofendido, esmagado pelo sofrimento
e impotente para fazer uso da liberdade que ele se recorda do que é, de onde
veio e para onde vai. Então, sob o peso da dor, o homem renasce. E quando isto
acontece, ele escapa ao teu e ao meu domínio. Ao contrário de ti, que impões
o materialismo ateu, que crias o mito do coletivismo, que reduzes as pessoas a
indivíduos e o indivíduos a nada, para que do nada ressurja a imagem autêntica
do homem, eu fiz erguer no porto de Nova York a estátua da liberdade, e a essa
estátua dei uma interpretação em cuja amplitude trago os homens escravos de
si mesmos. Tu constróis os homens, eu é que os destruo. Na tua escravidão há
um canto de esperança, mas na minha liberdade só uma marcha fúnebre subsiste.
Demônio-Comunismo:
Assim dizes, mas o certo é que, conforme já te disse,
trabalhas para mim.
Demônio-Capitalismo:
Jamais! Considero-te o pior dos adversários, porque és
um traidor de Lusbel. Acordas o Homem no homem. Quanto a mim, faço com que os
entes humanos adormeçam. Não me é difícil consegui-lo: basta-me ensiná-los
a cantar e dançar “rock” e outros ritmos frenéticos e fazer soar em todos
os quadrantes a trombeta da Declaração dos Direitos, soprada com toda a força
em 1789 na França, na Revolução Francesa. Subverti todos os valores morais no
mundo da inteligência e da sensibilidade enquanto os comerciantes, industriais,
banqueiros e políticos iam perdendo, dia a dia, o critério do bem e do mal.
Engendrei todas as formas de divertimento e de prazeres, desde as boates, com
suas músicas pop e os streap teases, até as famosas “casas de massagens” e
as discotecas, que se multiplicaram pelo globo terrestre com luzes mortiças e
coloridas sob as quais prostitutas e mulheres casadas se encontram numa
promiscuidade ultramoderna. Acendi a paixão do jogo, fazendo cantar as roletas
e grasnar as espátulas que arrecadam fichas. Fiz as cartas de baralho, de cartão
e matéria plástica. Transformei a arte da equitação em jogatina desenfreada.
Desorientei o cinema e o teatro de sorte a torná-los instrumentos da degradação
humana. Por fim, contaminei todos os jornais, as revistas, as novelas de TV e até
os desenhos animados, com que vou imbecilizando as multidões. Se o nosso fim é
levar as almas ao inferno, haverás de convir que quem trabalha honestamente
para Lusbel sou eu, e não tu...
Demônio-Comunismo:
Pensas que trabalhas para ti, mas insisto em que, na
realidade, é para mim que trabalhas. Se animalizas os homens e as mulheres, não
fazes mais do que preparar o meu advento, a minha vitória. O homem só se
escraviza ao meu império depois de haver se tornado escravo de si próprio. O
homem consciente e desperto reage contra mim. Por conseguinte, todo o teu esforço
redunda em meu benefício. Mas esqueceste-te de mencionar tua ciência. Foi esta
criação tua que me facultou os meios de fabricar a bomba atômica, e a de
hidrogênio, e a de nêutrons...
Demônio-Capitalismo:
Inventei as bombas para impedir que dominasses esta parte
do mundo onde exerço meu poder. Reconheço que és violento, ó demônio da
estepe, diabo glacial-ártico, espírito vermelho de além dos Urais, e que
passeias há séculos pela Ásia enforcando, degolando, incendiando,
oprimindo... E, sendo tu violento, só pela violência poderias ser dominado.
Então, ordenei a meus cientistas que mergulhassem qual escafandristas até as
profundezas da matéria e de lá voltassem trazendo nas mãos a força invisível
do átomo. Tal descoberta foi um sucesso, e, ao retornarem, assim como caçadores
de pérolas após proveitoso dia de trabalho, traziam consigo esse grande
tesouro, o qual considero meu tesouro maior. Fiz com ele as primeiras demonstrações
em Nagasaki e Hiroshima, como bem sabes. Isto foi apenas para que viesses a
saber de meu poder. Mas não tenho qualquer interesse em empregar essa arma
brutal. Seria representar a tragédia em que as almas são salvas pelo
sofrimento e pôr fim à comédia mecanicista por mim montada, que constitui o
mais eficaz meio de manipulação. Fica tranqüilo. Se para ganhar tempo pregas
a paz e a seguir te preparas para a guerra, eu, por mim, desejo apenas a paz, a
paz prolongada, a paz dos pântanos e dos cemitérios onde apodrece a coragem
humana, a paz do FMI, a paz das pressões econômicas, das futilidades e da lascívia,
onde não lampeja a chama da vida heróica e nem mesmo o do sonho. Que o mundo
se decomponha na paz da ilusão: é o meu desejo.
Demônio-Comunismo:
Mas eu possuo, agora também, as bombas apocalípticas. E
isto, devo dizê-lo, graças a ti. Não te espantes! Enquanto tu procuravas
domar a natureza e arrancar dos recessos da matéria a força de que tanto te
orgulhas, eu penetrava nas almas de teus cientistas e ia buscar uma força ainda
maior: aquela que habita as almas dos homens. Infiltrei-me em teu império, e a
alguns de teus súditos conquistei com falazes promessas de uma existência
melhor e mais justa, e a outros prometi uma vida em que os instintos gozassem da
mais plena liberdade. Tu mesmo me ajudaste a mobilizar tais elementos, dando-me,
para os primeiros argumentos de Rousseau, de Diderot, de Helvetius, de Saint
Simon, de Fourier, de Ricardo e de Marx; e dando-me, para os segundos, a lógica
agradável de Freud. Tudo obra tua. E, tendo eu conquistado desse modo a
simpatia de teus homens, eis que eles prontamente revelaram-me os segredos das fórmulas
herméticas da física nuclear. E hoje posso dizer-te a ti, que és o demônio
do individualismo, do egoísmo, do comodismo, dos divertimentos, das ambições,
dos banquetes, das festas e dos bailes, que eu, o demônio do coletivismo, da
brutalidade e do terror, estou em igualdade de forças contigo. Empatamos. E
neste empate, há um vitorioso: eu. Se não me crês, considera: porque és o
demônio da desorganização e da anarquia, do liberalismo sem freios, do
agnosticismo e da lassidão, e levas o homem a renunciar ao uso das forças
poderosas que lhe habitam a alma, os que te seguem são incapazes. Dentre eles,
há os que são revoltados, e estes me pertencem. E mesmo aqueles de espírito
justo, que rejeitam teu império mas estão interiormente petrificados pelo
materialismo, haverão de ser por mim conquistados, para que na tua fortaleza
venham a ser verdadeiros cavalos de Tróia. Então, como vês, se é verdade que
foste o primeiro a lançar mão das grandes armas, a mim, para tudo dominar,
bastam-me as almas. O meu triunfo é, pois, inevitável!
Demônio-Capitalismo:
Nossos métodos são diferentes. Porém, desejamos a mesma
coisa: a vitória de Lusbel. E haverás de admitir que, se eu vencer, ele será
vencedor. Mas se venceres tu, ele jamais virá a sê-lo. O sofrimento salva os
homens, os prazeres perdem-nos.
Demônio-Comunismo:
Vendo-te proferir tais palavras, sinto-me como se estivesse
a contemplar-me num espelho...
Demônio-Capitalismo:
Também eu sinto o mesmo ao contemplar-te.
Demônio-Comunismo:
E que significado supões que isto possa ter?
Demônio-Capitalismo:
Não serás porventura a minha própria pessoa?
Demônio-Comunismo:
Suspeito que sejamos a mesma pessoa. (Os dois demônios
aproximam-se e fundem-se num só demônio).
O Demônio:
Sim, sou eu mesmo que estou a falar comigo. E agora que sou um só,
vejo desfazerem-se os enigmas. E temo. Temo porque, nas trevas do século,
pressinto o renascer do grande sol, aquele mesmo sol que, há dois mil anos,
iluminou o mundo romano. Raios, coriscos e trovões! De que me vale o meu vasto
arsenal de artimanhas, se já não posso deter a sua luz? Nascerá dos
horizontes do tédio do Ocidente e estenderá seus raios ao longe, até o recôndito
Oriente. E, na plenitude do dia, haverá seres humanos sobre a Terra.
Notas
1. Os papéis eram tão comprometedores que o governo bávaro interveio
imediatamente. Operou-se uma perseguição e o caso terminou
por um célebre processo. O chefe do grupo, Weishaupt, conseguiu fugir.
Todos os documentos apreendidos figuram no Arquivo de Munique.
2. A estimativa é feita por Stéphane Courtois na impressionante e indispensável
obra O Livro Negro do Comunismo. Courtois et alii, Rio de Janeiro, ed. Bertrand
Brasil, 1999. p. 16.
3. Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, in O manifesto Comunista 150
anos depois, Rio de Janeiro, Ed. Contraponto, pp 19, 29 e 41.
4. Citado por Wilson, Edmund, em Rumo à Estação Finlândia, São Paulo,
Companhia das Letras, 1987. p.188.
Wilson, Edmund, op.cit. p.297
5. Wilson, Edmund, op.cit. p.297
6.
Marx e Engels op. cit. p.8.
7. Marx e Engels Gesamtausgabe (MEGA) volume 25, Berlin, ietz Verlag, 1985 p.
407.
8.
"Quando [Marx], posteriormente, elogia Darwin por haver demonstrado que
também a natureza tem uma história, devemos pensar não no materialismo ingênuo
de sua juventude, mas nas conclusões anti-hegelianas que não deixou de tirar
das descobertas de Darwin." Papaioannou,
K. El Mito de la Dialéctica, in De Marx y del Marxismo, Cidade do México, Ed.
Fondo de Cultura Econômica, 1991. Prefácio
de Raymond Aron. p.140.
9. Papaioannou, K, op. cit. p.137.
10. Marx e Engels, A Ideologia Alemã, São Paulo, Editora Moraes, 1984.p 34-35.
11. Papaioannou, K, op. cit. p. 62
12.
Citado
por Wilson, E. op. cit. p. 276.
13. Paul Johnson, Intellectuals, Ed. Harperperennial, New York, 1988.
14. Wilson, Edmund, op. cit. p.
15.
Segundo Johnson, op. cit. p.75
16. Idem, op. ct. pág. 72
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