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Michael Ende
Uma inteligência a
serviço do bem
Um escritor? Um inventor! Um inventor de realidades fantásticas
e maravilhosas, de mundos que coexistem e se entrelaçam, de dimensões mágicas
que se ligam por corredores de tempo e espaço, onde a lógica não tem vez e as
leis da Física não valem mais do que as da imaginação. Um arquiteto, que
organiza em uma única construção uma série de mundos paralelos, cada qual
com suas próprias leis, sem se esquecer de pintar seus detalhes com o primor
cuidadoso de um miniaturista. Um simpático guia de viagem, que nos mostra uma
paisagem de sonho, demorando-se generoso a comentar suas menores peculiaridades,
mas que a qualquer momento pode nos fazer saltar inesperadamente para uma outra
paisagem que está por trás da primeira, ou então abaixo, acima, ou mesmo
dentro dela. Mas também um pensador que
não esquece a realidade em que vivemos todos os dias, que diagnostica seus
males, seus problemas, suas contradições, ao mesmo tempo em que acena com a
esperança da superação e da redenção. E, ainda, um educador que ensina as
crianças brincando enquanto aprende seriamente com elas. Um advogado que alça
corajosamente a voz pelos direitos da infância, e, por isso, do ser humano.
Esse é Michael Ende, o escritor Michael Ende.
E que escritor! Romancista, contista, poeta, dramaturgo,
libretista, roteirista e ensaísta, Ende (1929-1996) é o autor alemão de maior
sucesso do pós-guerra. Suas obras foram traduzidas para mais de quarenta línguas
e alcançaram uma tiragem mundial de mais de vinte milhões de exemplares. Seus
romances A História sem Fim e Manu,a Menina que Sabia Ouvir foram adaptados
para o cinema, atingindo relativo sucesso (especialmente A História sem Fim,
filmada em três episódios, o primeiro dos quais já é um clássico). E embora
tenham desagradado o autor e muitos de seus mais exigentes leitores, esses
filmes dão indiscutível mostra do talento, inteligência e inventividade de
Ende. Apesar de sua obra voltar-se predominantemente para o público
infanto-juvenil, ele fascinou e cativou um contingente que abrange todas as
faixas etárias. Mas sua mensagem tocou sobretudo os jovens, que peregrinavam de
mochila nas costas em caravanas até a Casa do Unicórnio (foi assim que Ende
batizou sua residência nas imediações de Roma) para ver de perto o seu
escritor, coisa bem rara na literatura.
Isto tudo poderá surpreender muitos sul-americanos
interessados em literatura. Alguns simplesmente desconhecerão Ende, e outros não
estarão acostumados a pensar nele como um autor relevante. Treze de suas obras
estão traduzidas para o português, mas não costumam freqüentar as estantes
das livrarias e bibliotecas. Michael Ende deveria ser lido nas escolas primárias
e discutido nas universidades. Deveria ser presença constante nos palcos, no
cinema e na televisão. Deveria suscitar reflexões e debates nos campos da
pedagogia, da ecologia, dos direitos humanos e da crítica da cultura em geral.
Mas nada disso acontece. Por quê?
Várias razões concorrem para isso. No que toca às
academias, Ende é marcado com o estigma da literatura infanto-juvenil, o que,
para os narizes empinados de uma intelectualidade imatura, significa quase o
mesmo que “literatura menor”, material indigno de penetrar nos santuários
restritos da crítica literária. Porém, embora ele reproduza, em grande parte
de seus livros (especificamente os que são dirigidos ao público
infanto-juvenil), os mecanismos mágicos da
imaginação da criança e se utilize de ingredientes lúdicos, sua obra é
dirigida a todas as faixas etárias, dado que é marcada pela presença
constante da questão existencial. É
verdade que os adultos têm condições
de desfrutar de seus conteúdos muito mais do que as crianças, justamente por
alcançarem o significado da simbologia que a permeia, a qual expressa a busca
do homem pelo sentido da vida e pela transcendência.
Já no que se refere ao público infanto-juvenil, há o
problema da perda do hábito da leitura. Este é um aspecto de um problema
maior, que constitui um dos temas centrais das obras de Ende: o definhamento
progressivo das características que distinguem estes primeiros períodos da
vida humana. A cada dia mais apressados e preocupados, vivendo no ritmo dos
adultos e compartilhando compulsoriamente com eles a solidão e os medos
inerentes à vida das cidades contemporâneas, crianças e adolescentes
simplesmente não têm mais tempo nem oportunidade de desenvolver sua capacidade
de fantasiar, suas faculdades lúdicas e criativas. Vivem em uma sociedade onde
tudo já está determinado e organizado milimetricamente, e onde não há mais
nenhum espaço para inventar o que quer que seja. Prematura e violentamente
submetidos a uma rotina massificadora e neurotizante, eles não conseguem mais
suportar nada que requeira paciência. Qualquer coisa que não tenha a
velocidade dos videogames lhes é irritante. Tornam-se assim incapazes de
apreciar essas atividades tão antigas e distintivas da infância que são o
ouvir e o ler histórias. Como então esperar que estes pobres pequenos adultos
venham a empregar seu tão exíguo tempo debruçando-se sobre as páginas de Jim
Knopf, Manu ou A História sem Fim? Mas deve-se notar que a literatura não
seria a única forma de fazer com que o público infantil tomasse contato com a
obra de Michael Ende. Como também é verdade que o nome de Ende tem estado
ausente até mesmo das campanhas de incentivo à leitura, embora ele possa ser
considerado como um dos escritores que mais estimularam até hoje o ato de ler,
tanto pela forma como pelo conteúdo de suas obras.
Deve haver então algum motivo suplementar que possa
explicar a pouca atenção que ele tem recebido entre nós. Realmente há um, e
a esta altura já se pode bem atinar qual seja. Ende é um crítico da sociedade
contemporânea, eis a solução do enigma. De fato, ele é um dos mais
importantes críticos não só da sociedade, mas também da cultura e da
civilização ocidental. Suas idéias estão em flagrante desacordo com os
pseudovalores que sustentam o mundo atual. Ele defende o resgate dos verdadeiros
valores, que, apesar de sumamente humanos, abalariam as estruturas das várias
esferas de poder: do poder político, do econômico, do acadêmico/científico e
do poder dos meios de comunicação e divulgação da cultura. E, o que é mais
interessante, faz tudo isso com talento, criatividade, humor e alegria.
“Esse senhor é o fim! É uma pedra no nosso caminho e em
nossos sapatos.” Assim falariam os senhores cinzentos, os ladrões que
roubam o tempo das pessoas e perseguem a pequena Manu, se Ende, com sua
liberdade criativa, lhes tivesse concedido a faculdade de perceber quem estava
por trás da meiga criança que sabia ouvir. Certamente fariam de tudo para
impedir a circulação não só do livro do qual são personagens, mas de todos
os outros de Michael Ende.
E quem garante que tais ladrões não existam de verdade? E
se não é assim, então alguém responda: onde está o tempo das pessoas? E
mais: onde estão os livros de Ende?
Residência de Michael Ende
em Roma, Casa do Unicórnio
Crítica social:
ciência e capitalismo na mira de Ende
Em 1971, Michael Ende muda-se para uma pequena cidade ao
sul de Roma. Não foi só pelo clima aprazível, pelas belas paisagens e pela
amabilidade do povo italiano que ele se instalou lá. Pesou bastante em sua
decisão de fazê-lo o clima intelectual reinante nos círculos literários alemães.
Vigorava então em seu país um tipo de patrulhamento ideológico semelhante ao
que se verificou na América Latina na mesma época, se bem que, certamente, com
menor intensidade. A crítica literária alemã media a relevância de um autor
através de alguns critérios básicos: cobrava-se uma descrição realista da
sociedade, a crítica social e política engajada, a reflexão sobre os
movimentos e problemas populares, e coisas do gênero. Não era o ambiente em
que um escritor inclinado ao fantástico e ao místico pudesse se sentir à
vontade. Seus escritos eram classificados como literatura escapista e como fuga
da realidade. Avesso a discussões estéreis, ele foi atraído pelo ar mais leve
da Itália, e foi esse o país que viu surgir suas maiores obras-primas.
E essas obras mostram claramente a injustiça das acusações
de seus colegas alemães. Pois nelas, sem renunciar ao fantástico, Ende realiza
uma crítica absolutamente consistente da sociedade. De fato, ninguém mais do
que ele tinha consciência da crise do mundo moderno. Porém, ao contrário do
que acontecia na literatura “engajada”, não a compreendia simplesmente como
crise política, social ou econômica, e sim como crise espiritual e
existencial. Para Ende, a grande ameaça à civilização não eram as guerras,
a miséria, os conflitos de classe ou o problema ecológico. Todos esses males
eram, a seu ver, apenas resultados e manifestações visíveis de uma patologia
mais profunda e mais perigosa que ele combateu incansavelmente durante toda a
sua produção: a perda do sentido da vida humana, ou, como ele se expressa
simbolicamente em A História sem Fim, o domínio do Nada. E como pensador
atento que era, soube enxergar no materialismo científico (na falsa ciência)1
e no capitalismo os grandes protagonistas da diluição do sentido da existência.
Toda a sua literatura pode ser lida como uma denúncia dos efeitos negativos
desses dois fatores históricos sobre o espírito humano.
A ciência, no estado materialista em que ainda se
encontra, havia levado a efeito aquilo que Max Weber chamou de
“desencantamento do mundo”, ou seja, o processo no qual o mundo perdeu pouco
a pouco, aos olhos dos homens, todo o mistério e todo o encanto. O processo no
qual todos os mitos e as concepções mágicas e religiosas da natureza foram
sendo substituídas pela visão cientificista do mundo, baseada na suposição
arrogante de que tudo o que existe pode ser perfeitamente compreendido pelo
intelecto humano. Sob tal ótica, toda a poesia tende a ser eliminada da face da
Terra, assim como o sentimento do sublime e a esperança de uma relação do
homem com algo maior do qual ele faz parte. Estes, porém, são os sentimentos
mais caros ao ser humano, e os que sempre haviam dado um significado à sua
existência. Sem eles, a vida se torna insípida e quase que um fardo.
O desencantamento do mundo é o que faz da ciência um tema
constante na obra de Ende. O escritor estende a crítica que faz à
ciência também aos sistemas filosóficos e, em geral, a todas as criações
do intelecto humano, com suas ridículas pretensões ao saber absoluto. Esse traço
de sua obra pode ser encontrado sobretudo em sua produção destinada ao público
adulto. Especialmente nas coletâneas de contos O Espelho no Espelho e A Prisão
da Liberdade (vide nas págs. 98-103 deste anuário o conto A prisão da
Liberdade, que faz parte do segundo livro mencionado), nas quais a sátira e o
humor levemente sarcástico são às vezes utilizados para desmascarar o embuste
cientificista e intelectual. Mas há também suas palestras, entrevistas e colóquios,
nos quais o tema é tratado de forma mais objetiva. É particularmente feliz
nesse aspecto a série de vídeos intitulada O Romance de Einstein (Einstein
Roman), produzida em colaboração com a TV japonesa, na qual a figura de
Einstein é utilizada como símbolo da ciência e da visão cientificista de
mundo, bem como de seus perigos.
Quanto ao capitalismo, a crítica de Ende se concentra na
mecanização do ser humano. O capitalismo impôs a toda a sociedade o ritmo
frenético da produção industrial, sempre acelerado pela corrida tecnológica
e pela competição. Submissos ao movimento inexorável dos ponteiros do relógio,
assim como os remadores das galés o eram aos golpes surdos do tambor, os homens
da era capitalista foram obrigados a cronometrar e planejar todas as suas ações
com uma precisão que só se pode esperar de máquinas. E isso já se incorporou
de tal forma às suas vidas que consideram qualquer ação que não se enquadre
no rígido planejamento pragmático como um absurdo. Mesmo quando seus corpos
param, suas mentes continuam girando no movimento inercial das preocupações e
das incertezas. É como se houvessem entrado, não se sabe como nem porquê,
numa ciranda vertiginosa e caótica, que a cada dia gira mais rápido e ninguém
sabe como parar. E ninguém se atreve a parar por conta própria, com medo de
ser arrastado e pisoteado pela massa em movimento. O resultado é um homem que não
pode dispor de seu tempo, o que significa dizer que não possui mais seu próprio
tempo. Mas a lição de Manu é a de que o tempo não é algo separado da vida,
algo que se possa armazenar, poupar ou gastar, como o dinheiro. O tempo é a própria
substância da vida, que não pode existir senão nele. Por isso, o homem que não
dispõe de seu tempo se aliena de sua vida, permite que ela se lhe escoe pelas mãos,
perdendo de vista o significado.
Também concernentes ao capitalismo são as críticas de
Ende ao consumismo, ao culto ao dinheiro e à especulação financeira como
forma de escravização. Todos estes temas são abordados com maestria literária
em várias obras, especialmente em Manu, a Menina que Sabia Ouvir (sobre o
consumismo, vale lembrar o trecho no qual um homem cinzento tenta cooptar a
protagonista através da “boneca perfeita”), também em O Espelho no Espelho
(o conto da catedral do dinheiro, por exemplo) e em A Prisão da Liberdade (As
Catacumbas de Misraim).
Fantasia: a chave do real
Apesar de seu posicionamento em relação ao capitalismo,
Michael Ende se distancia diametralmente do discurso esquerdista. Em primeiro
lugar, porque não é exatamente o capitalismo – e tampouco a ciência – o
que ele combate, mas sim a perda do sentido da vida humana. Cientificismo e
capitalismo são apenas fatores históricos que aceleraram o agravamento do
problema existencial humano. Em segundo lugar, porque considera que a transformação
da sociedade tem de ser precedida por uma regeneração interior do indivíduo,
equivalente à redescoberta do sentido da existência.
Em sua obra, Ende demonstra possuir a convicção de que
este sentido deve ser buscado no interior do espírito humano, pois pressente
que ali devem existir riquezas inestimavelmente valiosas que, apesar de
sufocadas e fortemente reprimidas pelo desencantamento e pela mecanização, não
foram corrompidas por sua ação, conservando-se ainda intactas, à espera de
algum intrépido caçador de tesouros que as quisesse resgatar. Desde o início
de sua produção, Ende percebeu instintivamente que seu caminho artístico era
o de realizar esse resgate a fim de extrair do íntimo do ser humano os
elementos que pudessem restituir o sentido à vida.
Nesse caminho ele certamente precisou sempre perscrutar seu
próprio interior. Mas isso não era suficiente. Era ainda necessário encontrar
os meios expressivos que possibilitassem a simbolização da riqueza interior,
de modo que os símbolos assim criados pudessem servir de pistas para o itinerário
que o leitor teria de fazer, por sua vez, dentro de si mesmo. Foi essa
necessidade que tanto o aproximou
do surrealismo, que conheceu através do pintor Edgar Ende, seu pai; e, mais
tarde, da literatura fantástica (Jorge Luís Borges e Kafka são claríssimas
influências no estilo literário de sua obra “adulta”, assim como Tolkien o
é em sua obra infanto-juvenil). Freqüentemente se comenta a ligação de Ende
a essas escolas, e às vezes corre-se o risco de esquecer que o autor perseguia
nelas, essencialmente, apenas os meios de expressão para idéias e conteúdos
marcantemente próprios.
O que ele chama de “fantasia” não é outra coisa senão
essa arte de expressar e compreender os conteúdos profundos da alma humana
através de símbolos. Ele sabia muito bem que isso não era invenção sua, mas
uma faculdade tão antiga quanto o homem. Os povos primitivos, quando criavam
seus mitos, utilizavam a fantasia, assim como os místicos (Ende estudou Jakob Böhme,
cabala, budismo e zen), os poetas e artistas em geral (“Fantasia foi criada
por todos os artistas”, disse Ende, referindo-se ao mundo encantado de A História
sem Fim) e também as crianças, com os jogos e invenções de sua
espontaneidade criativa.
Vê-se então que “fantasia”, em Ende, não é fuga da
realidade, mas sim descoberta e revelação de uma realidade mais essencial que
permanecia oculta. Essa nova dimensão do real não é buscada em detrimento da
realidade cotidiana, mas em seu benefício. Ao recorrer à fantasia, Ende não
quer fugir do mundo, mas melhorá-lo. É ele mesmo que explica: “O reino mágico
do imaginário é a própria Fantasia, à qual é preciso viajar para tornar-se
vidente. Então pode-se voltar à realidade exterior com uma consciência
transformada, e transformar essa realidade, ou pelo menos vê-la e vivê-la de
maneira nova”2.
A boa poesia, disse Ende, transforma o mundo. Num momento
em que a literatura tantas vezes escolhe o niilismo ou o sarcasmo como a última
saída, e em que a arte como um todo parece se resignar a decair no mero
esteticismo, vale a pena prestar atenção a essa afirmação. Ela pertence à
consciência dos que realmente compreendem a essência do fazer artístico.
Jim Knopf e Lucas, o Maquinista
Este é o primeiro livro de Ende, cuja publicação (em
dois volumes, o segundo chama-se Jim Knopf e os Treze Piratas) foi recusada
pelas editoras de seu próprio país, tendo recebido, felizmente, acolhida em
outro, a Áustria.
Jim é um menino negro, órfão, de origem desconhecida, e
seu amigo Lucas, um habilidoso e simpático maquinista. Ema, a locomotiva que
lhes permite viajar juntos pelo mundo, representa o ideal humano de realização
do bem quando manifestado de forma incondicional e ilimitada. Ema é capaz de
correr sem trilhos sobre a terra, flutuar na superfície do mar, submergir como
um submarino nas profundas águas do oceano e voar pelo espaço. Essa sua admirável
disponibilidade reflete o estado de espírito de seus dois tripulantes, que não
medem esforços para auxiliar as pessoas diante das inúmeras situações com
que se deparam em sua longa viagem. Após uma grande aventura permeada de
suspense e de encanto poético, retornam para casa triunfantes, trazendo consigo
os frutos de uma viagem marcada pelo altruísmo. Como recompensa pelo bom
trabalho realizado em todos os lugares por onde passaram, a minúscula ilha de
origem, de onde tiveram que sair por falta de espaço, une-se a uma outra
ilha que emerge na superfície do mar formando um grande continente, que
dá acolhida a todos os que compartilham do mesmo sonho de Jim e Lucas. O
acontecimento a que Jim, Lucas e todos os seus amigos assistem – a emersão do
continente – é em tudo oposto ao dilúvio, o qual, ao contrário, faz imergir
a terra nas águas e ameaça de morte os homens. Assim, os personagens de
Jambala (nome da nova terra) são premiados com os efeitos do antidilúvio, que
lhes proporciona a solução para o problema do espaço que até então os
afligia.
Jim descobre no final que é descendente de Gaspar, um dos
reis magos, o de pele negra, e que seu destino é liderar seu povo. É nesse
ponto que Ende revela sua concepção de amor universal, uma vez que elege um
negro para ser o rei e herói de sua história. Ende, como germânico, conhecia
bem a prepotência associada ao orgulho de se pertencer à raça branca e certamente sabia da origem falaciosa e ideológica
desse orgulho, já que o branco não é outra coisa senão a soma de todas as
cores. Em contrapartida, a cor negra representa a ausência de cor, o que
permite considerá-lo como símbolo da ausência de ideologias e, conseqüentemente,
de preconceitos raciais. Com isso Ende ensina que as possíveis divergências
entre os homens devem ser superadas em função do reconhecimento da autoridade
de um líder natural, que prime pela humildade. A coroa pertence ao mais
humilde: eis a concepção cristã que vigora em sua obra de forma implícita.
Além disso, é preciso fazer prevalecer o amor para que se possam superar as
diferenças entre os homens. Assim, Ende decide unir Jim a uma menina da raça
amarela, união essa que é comemorada apoteoticamente no final. E tudo indica
que essa decisão literária do autor foi premonitória em relação à sua própria pessoa, pois
ele se casou em segundas núpcias com uma oriental, tendo passado parte
de sua vida no Japão.
Manu, a menina que sabia ouvir
Se em A história sem fim o nada ameaça acabar com o reino
da Fantasia, cuja imperatriz é a criança, em Manu, a Menina que Sabia Ouvir,
esse mesmo nada é representado pelos homens cinzentos, que simbolizam a ilusão
do mundo materialista. Conforme um dos próprios cinzentos confessa, eles, de
fato, não existem. São apenas personificações do vazio que domina a
sociedade. Sua existência é feita do tempo que roubam das pessoas. Corrupção
e sedução em função do lucro, usura, especulação financeira e consumismo são
os principais recursos usados por eles para automatizar os homens, de modo que não
lhes seja permitido refletir. Dessa forma, criam o tédio e depois induzem-nos a
consumir produtos com a promessa de livrá-los do mesmo tédio, o que, na
realidade, é um sutil engodo que só o faz aumentar. Tal círculo vicioso priva
as pessoas de sentir a alegria de
viver e os submete a uma degradante e sinistra escravidão.
Em meio à sociedade dominada pelos homens cinzentos, Manu
representa um perigo à ilusão (simbolizada na história pelos vilões), que
planejam destruí-la, sem nunca conseguir alcançar tal objetivo. É tão forte
a sua presença que todos a procuram para expor seus problemas, geralmente com o
objetivo de queixar-se dos outros, e acabam, no meio dos relatos, admitindo seus
erros e compreendendo a necessidade de reconciliar-se com tais pessoas. Não há
como não reconhecer que ela simboliza a consciência humana, cujo destino é
ser resgatada por cada um.
Com relação ao tempo, Manu é a única que está no
presente, o que significa que é também a única a possuir seu próprio tempo,
ao contrário das outras pessoas, que o esbanjam por não conseguirem viver seu
momento presente: estão sempre ligadas ao passado ou ao futuro. Nunca
estão realmente no presente. Em Manu, a máxima inocência equivale à máxima
sabedoria: ela é uma iniciada que se torna consciente do mistério que envolve
o tempo. A partir de então, os cinzentos não podem mais ter qualquer poder
sobre ela. Essa é a chave de sua vitória sobre eles, a qual lhe permite
restituir o tempo de todos os homens a seus verdadeiros donos.

Michael Ende e seu pai,
Edgar Ende comtemplando
uma pintura
A história sem fim
Bastian – cujo nome deve ser ligado à sua origem latina,
da qual provém o nosso termo bastião – é de fato o bastião, o guardião
de um reino em perigo. Em princípio, tal posição parece não se casar
muito bem com a figura de um garoto gordo, de óculos, que precisa estar sempre
fugindo das perseguições dos colegas de classe, cuja sensibilidade foi
praticamente arrasada pela esclerose de um sistema educacional que estimula a
competição, que premia a hipocrisia e trata cruelmente os que não conseguem
se enquadrar – geralmente, os mais criativos. Em meio a eles, Bastian se
destaca, não por qualquer qualidade física ou intelectual, mas por ser o único
que ainda é capaz de ler em toda a classe e, talvez, no mundo. Dissemos
“ainda” porque Bastian lê de uma maneira há muito desusada, e já quase
esquecida. Lê por imersão, sente e vive o que está lendo, participa das
aventuras dos livros. Entra nelas.
Pode-se imaginar o que ele sentiu quando lhe caiu em mãos
um livro chamado A História sem Fim. Era o que ele sempre havia almejado: uma
história que nunca acabasse. Aquele devia ser “o livro dos livros”. E era,
pois contava a história de um reino que abrigava todas as produções da
fantasia humana em todos os tempos, todos os seres monstruosos ou maravilhosos,
todas as paisagens encantadoras e fantásticas de todas as sagas, narrativas e
mitos já criados pela imaginação dos povos, dos artistas e dos sonhadores.
Esse reino chamava-se Fantasia, e corria perigo, pois uma potência desconhecida
chamada Nada se espalhava por vastas extensões de seu território, deixando à
sua passagem apenas um vazio, um nada. Isso era o reflexo do que acontecia no
mundo dos seres humanos, pois ali ninguém mais parecia se interessar pelos
seres e histórias que compunham Fantasia. Ningúem exceto Bastian Balthasar
Bux. Por isso, ele foi o escolhido para salvar o reino ameaçado. Realiza então
aquela que deve ser considerada a maior proeza para um leitor de aventuras:
torna-se personagem do livro que está lendo; entra, literal e literariamente,
em Fantasia, reino que finalmente consegue salvar através de meios que não
devem nem podem ser expostos em uma sinopse como esta.
Bastian é auxiliado, em suas façanhas, pela força de um
amuleto no qual estão representadas duas serpentes, cada uma das quais morde a
cauda da outra. Este símbolo possui não um, mas vários significados, que estão
estreitamente ligados. Um deles é a relação intrínseca entre a dimensão da
fantasia e a do mundo humano, o que constitui, como já se viu, uma idéia
fundamental na obra de Ende. Da mesma forma que a devastação de Fantasia tem
origem no mundo dos homens, essa devastação é também a causa da desertificação
deste mesmo mundo. À medida que Fantasia se retrai e encolhe, mais o homem se
robotiza e mais sua existência vai, aos poucos, perdendo o sentido. Seus ideais
se esvaecem à medida que são atingidos pelo nada. O destino dos dois mundos
estão indissoluvelmente ligados, e é por isso que, ao salvar Fantasia, Bastian
salva também, sem o saber, o mundo dos homens. Um outro significado é o do
infinito e da eternidade. Desde as mais remotas eras, o círculo ou a cobra que
morde a própria cauda representam o infinito, pois são imagens nas quais o fim
se confunde com o início. No presente caso, a imagem representa a infinidade da
história de Fantasia: ela nunca terá fim enquanto houver alguém em cuja
imaginação ela puder continuar. Bastian salva Fantasia já ao começar a
leitura do livro: as aventuras de Atreiú – personagem que recebe da
Imperatriz-Criança a missão de atrair Bastian para Fantasia – na primeira
parte do livro lido por Bastian, têm o único objetivo de prender sua atenção.
Uma vez fisgado o leitor, Fantasia vive e se perpetua nele e através dele.

Passeio na Floresta (1970) - Quadro
pintado por Luise Ende
E a história continua ainda em uma outra dimensão, na
nossa dimensão. O livro de Ende contém o livro lido por Bastian, e por isso
ele mesmo é a própria História sem Fim. Ao ler esta obra, nós mesmos somos
fisgados por Bastian, da mesma forma como ele o é por Atreiú. O menino gordo e
de óculos salva Fantasia e o nosso mundo porque ele consegue fazer com que
Fantasia viva e se perpetue em nós. Essa é a mágica que faz realmente
infinita a história de Fantasia. Essa mágica é a imantação de uma corrente
sem fim, cujos elos são o leitor, Bastian, Atreiú, a Imperatriz-Criança e,
como elo inicial, aquele que chamou à existência a Imperatriz-Criança, Atreiú
e Bastian: Ende – cujo nome significa fim.

Michael Ende e sua
mãe Luise Ende
Bastian e Manu:
duas sagas
pelo fim do nada
É claro que Ende acredita na arte como instrumento de
superação do nada, da falta de sentido. Mas ele também sente a necessidade de
encontrar um aliado para a arte. Pois, em sua longa trajetória, ela sofreu as
insistentes investidas do nada e hoje sente as consequências do ataque.
Aliou-se ao pensamento cientificista e filosófico. Intelectualizou-se,
desencantou-se. Tornou-se conceitual ou realista. Aderiu assim a uma visão de
mundo estranha à sua natureza original. Além disso, ela tem os movimentos
tolhidos pelo peso de sua própria tradição. Vinte e cinco séculos de história
da arte se acumulam sobre os ombros do artista contemporâneo, o qual já não
consegue encontrar, em meio a esta densa floresta, a fonte da originalidade. Ele
renuncia ao novo e investe em uma falsa novidade, que é, em última análise,
apenas repetição. E, como se não bastasse, a arte acabou ainda por entrar na
ciranda capitalista. Tornou-se mercadoria e sujeitou-se ao mercado.

A Mulher sobre a tartaruga (1933)
Edgar Ende - Óleo sobre tela 70 x 90 cm
Realmente, a arte precisa de um aliado, precisa de algo que
a possa ligar novamente à fonte da fantasia. Mas onde encontrá-lo? No mito?
Ende não tem ilusões. Percebe que, no ponto a que chegamos, após todos estes
séculos de domínio de uma visão materialista-intelectual da realidade, seria
simplesmente uma quimera “voltar ao mito”. Por razões semelhantes, é muito
restrito o auxílio que os místicos e as tradições religiosas podem oferecer.
Ambos podem ser utilizados como fonte de inspiração, mas perderam a capacidade
de influenciar significativamente a sociedade. Assim como à arte, lhes falta o
acesso à sua fonte primeira, e por isso decaíram na rigidez doutrinária e no
sectarismo. Mas Ende não concebe lugar para o derrotismo, pois, no mundo atual,
ainda há uma região – uma única região – onde a fantasia ainda flui com
todo o seu vigor original: o coração da criança.
Para o escritor, a imaginação infantil aparece como a própria
fantasia em estado puro, intocada pelo poder do nada, pois as crianças são
seres ainda não adaptados ao desencantamento e à robotização. Por isso, elas
são também símbolos da eterna juventude da fantasia, de sua inexauribilidade.
É isso o que concede à criança o lugar de destaque de que ela goza na
literatura de Ende.
Tanto Manu como Bastian reúnem em si, em máximo grau, as
principais virtudes da infância. Vivem numa sociedade que decidiu banir
definitivamente a fantasia e que já está prestes a alcançar essa meta, pois já
nem mesmo as crianças podem se pôr a salvo da força paralisante do nada, e se
afastam-se cada vez mais cedo da infância. Nessa sociedade, Manu e Bastian só
podem ser outsiders, seres marginalizados, inadaptados (e, na verdade, inadaptáveis)
a um mundo que se desumaniza a olhos vistos. Mas, justamente por esse motivo,
eles aparecem sob uma aura literalmente heróica: como última salvaguarda da
fantasia, concentram em si toda a esperança da humanidade, da mesma humanidade
que os marginaliza. São heróis no sentido mais forte do termo: em suas mãos
repousa a tarefa de salvar o mundo. E ao combater e finalmente vencer o nada,
ambos efetivamente salvam o mundo. Mas – e aqui está o traço mais encantador
destes pequenos Ulisses – eles mesmos parecem não ter noção da dimensão e
da importância de sua proeza. A rigor, não sabem que são heróis! São e
continuam sendo apenas crianças...

O Perigo (1931) - Edgar Ende
Óleo sobre tela 90 x 120 cm
Para fazer justiça à dimensão da influência do pintor
Edgar Ende sobre seu filho Michael, é importante ressaltar que ela se deu tanto
no que se refere à temática abordada pelo escritor quanto nos métodos
criativos, e, ainda, na própria idéia da arte como forma de simbolização dos
conteúdos profundos da consciência humana. Edgar foi sem dúvida a personagem
que mais influenciou Michael, como homem e como artista. Tanto é que o escritor
chegou a dizer que sua literatura constitui uma tentativa de expressar em
palavras o mundo das imagens criadas pelo pai. Mas o reverso também acontecia:
Edgar várias vezes pintou o que Michael escrevia. O óleo acima é um excelente
testemunho da singular interação artística estabelecida entre estes dois
seres que tiveram a sorte de vir ao mundo como pai e filho. Eis, resumidamente,
a história das imagens imortalizadas por Edgar Ende:
Certa vez, o jovem Michael teve um sonho inquietante e
contou-o ao pai. O sonho e a imaginação onírica eram umas das principais
fontes de inspiração de Edgar. Ele entusiasmou-se pelo relato do filho e
resolveu pintá-lo, utilizando também como referência um texto no qual Michael
havia tentado transformar em conto seu sonho. Anos mais tarde, Michael retoma o
assunto dando nova e definitiva forma ao conto. Agora, sua inspiração não se
resume mais apenas a seu sonho, nem ao texto primitivo, mas inclui também a
interpretação pictórica que o pai lhe dera em seu quadro. O conto se chama
“O Filho de Ninguém”, e faz parte do livro O Espelho no Espelho. Na esfera
que Michael segura no quadro está gravado em grego o seu lema preferido na época,
a súplica dirigida pelo “bom ladrão” a Jesus: “Lembra-te de mim quando
entrares em teu reino”.

Retrato de Michael Ende (1951)
Edgar Ende - Óleo sobre tela 120 x 90 cm
Obras de Michael Ende traduzidas para o Português:
Jim Knopf e Lucas, o maquinista e Jim Knopf e os treze
piratas (Martins Fontes), Manu a menina que sabia ouvir (Editora Salamandra), O
Pequeno papa-sonho (Ática) O teatro de sombras de Ofélia,(Ática) A história
sem Fim (Martins Fontes), O espelho no espelho(Círculo do Livro),
A Escola de Magia (Martins Fontes) Dagoberto Dobradura (Martins Fontes) ,
Norberto Nucagrossa (Martins Fontes)
Ola Ole, Beto Por Quê
(Martins Fontes) , Ursinho de Pelúcia e os Animais
(Martins Fontes, O Elixir dos Desejos (Salamandra)
Notas
1. A respeito do conceito de “falsa ciência”, leia
neste mesmo número o artigo Ciência sem Consciência.
2.
Hocke, R. e Kraft, T. Michael Ende und seine phantastische Welt. Alemanha,
Weitbrecht Verlag in K. Thienemanns Verlag, 1987, p.7
Imagens
Hocke,
R. e Kraft, T. Michael Ende Und Seine Phantastische Welt.
Alemanha,
Weitbrecht Verlag in K. Thienemanns Verlag, 1987, p.22
Bibliografia
Ende, Michael, A História sem Fim, São Paulo, Martins
Fontes, 1993
___________ Manu,
a Menina que Sabia Ouvir, Rio de Janeiro, Salamandra, 1984
___________ Jim
Knopf e Lucas, o Maquinista São Paulo, Martins Fontes, 1988
___________
Jim Knopf e os 13 Piratas, São
Paulo, Martins Fontes, 1993
___________ O
Espelho no Espelho, São Paulo, Círculo do Livro, 1984
___________ Das
Gefängnis der Freiheit (A Prisão da Liberdade), Munique, WIlhelm Heyne Verlag,
1992
Hocke, R. e Kraft, T. Michael Ende und seine phantastische
Welt. Stuttgart, Weitbrecht
Verlag in K.
Thienemanns Verlag, 1987, p.7
Boccarius, P. Michael Ende, Der Anfang der Geschichte,
Berlin, Ullstein, 1995
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