Tantra
Uma história de amor



“Ó, vós, sábios, de alto e profundo saber, que meditastes e sabeis onde, quando e como 
tudo se une na natureza, para que servem todos esses amores, esses beijos? Torturai 
o vosso espírito sutil e dizei-me: Onde, quando e como me sucedeu amar?  E por que 
me aconteceu amar?”
Burger

 

O Tantrismo é uma vertente do Budismo que influenciou e enriqueceu tanto o Hinduísmo como o Jainismo. Também os gnósticos cristãos e os sufis muçulmanos foram influenciados por essa doutrina. A chama do Tantrismo é mantida viva até os dias atuais pelos Lamas tibetanos. Esta vertente que vive hoje no Tibete foi fundada por Saraha. Ele é o fundador do Tantra assim como Bodhidharma é o fundador do Zen. Bodhidharma conquistou a China, a Coréia, o Japão. Saraha conquistou o Tibete.

O vocábulo Tantra provém do sânscrito, e sua raiz, tan, significa estender, continuar, multiplicar. O Tantrismo postula a importância de alcançar a sintonia com o sagrado, afirmando que quanto mais os homens conseguirem isso mais superarão seus limites e terão a consciência ampliada.

Com relação à época de surgimento do movimento, há alguma controvérsia entre os estudiosos do assunto. Alguns afirmam que ele teve origem 2.000 anos antes de Cristo, e outros que ele surgiu entre os anos 400 e 600 d. C., quando chegou a transformar-se numa moda que acabou por influenciar os modos de pensar e agir da sociedade indiana medieval. Nessa época o Tantra teria se firmado e se popularizado, dando origem a um grande número de correntes e manifestações filosóficas, religiosas, mágicas e artísticas.

Saraha nasceu em Vidarbha, bem próximo a Poona, Índia, durante o reinado do rei Mahapala. Era filho de um erudito brâmane que pertencia à corte do rei. O pai fazia parte da corte e, assim, seu filho também. Saraha tinha quatro irmãos, todos excelentes estudantes, mas ele, o mais novo, era o mais inteligente de todos. Sua magnífica inteligência ganhou fama pouco a pouco por todo o país, tendo chegado  ao conhecimento do rei, que ficou impressionado com tudo o que ouviu falar a seu respeito. Ao se tornarem adultos, seus quatro irmãos se casaram. O rei estava disposto a dar a mão de sua filha a Saraha, que havia se tornado um rapaz belo e encantador, mas este preferiu renunciar a tudo para se tornar um sannyasin e discípulo de Sri Kirti.

Sri Kirti está na linhagem direta de Buda. Rahul Bhadra, filho de Buda, é pai de Sri Kirti. Buda havia acabado de partir, o ar ainda devia estar impregnado de sua fragrância.

Quando Saraha foi até Sri Kirti, este lhe disse:

– Esqueça todos os seus Vedas1, todos os seus conhecimentos, todas essas coisas sem sentido.

Isso foi difícil para Saraha, mas ele estava pronto a arriscar qualquer coisa, pois algo em Kirti o havia atraído. Saraha abandonou então todos os seus conhecimentos e viu-se destituído deles. Essa renúncia é uma das maiores provas pelas quais pode passar um homem que busca seguir pelo caminho da espiritualidade. Pode-se renunciar facilmente à riqueza, a um reino, a uma posição social. Porém, renunciar ao conhecimento, renunciar ao que se sabe, costuma ser algo profundamente doloroso. Mas Saraha estava disposto a grandes sacrifícios e, aos poucos, apagou dentro de si todo o conhecimento que tinha. Tornou-se um grande meditador. As pessoas começavam a vir de longe para conhecê-lo.

Um dia, enquanto meditava, Saraha, repentinamente, teve uma visão de uma mulher no mercado público, e pressentiu então que essa mulher viria a ser sua verdadeira instrutora. Kirti o havia colocado no caminho, mas o verdadeiro ensinamento viria de uma mulher. Ele levantou-se e Kirti lhe perguntou aonde ia. Saraha respondeu:

– Você me mostrou o caminho. Você me livrou daquela minha bagagem, limpou a minha lousa e, com isso, realizou metade do trabalho. Agora estou pronto para a realização da outra metade.

Com as bênçãos de Kirti, Saraha partiu. Foi para o mercado e lá ficou surpreso: ele realmente encontrou a mulher que lhe aparecera na visão. Ela era uma fabricante de flechas e naquele momento estava trabalhando uma. Então, a flecha ficou pronta e a mulher assumiu a postura de quem está mirando um alvo invisível. Não olhava para a direita ou para a esquerda. Estava totalmente absorta. Por esse motivo ela era bela, luminosa. Sua beleza provinha do fato de estar no centro, equilibrada, em total absorção. E a sabedoria consiste em conseguir ficar no centro. 

Por que o mercado? Por que o Tantra veio do ordinário, do básico da vida. Além disso, o fato de um erudito, um brâmane famoso, que havia pertencido à corte do rei, seguir uma ferreira, uma mulher de baixa casta, era bastante simbólico: indicava que o erudito tem que ir ao encontro do vital, que o artificial deve ir até o real. Saraha havia abandonado os Vedas, as Escrituras e a filosofia, mas agora estava diante de uma mulher que não era nem a favor nem contra a filosofia, alguém que sequer sabia o que era isso. Era uma mulher de ação e estava totalmente absorta em sua ação. Ela mirava o desconhecido, o invisível, o uno, e esse é o alvo em que se dá a comunhão, quando sujeito e objeto desaparecem, quando o eu e o tu se tornam um, quando existe a unidade, a harmonia.

Saraha perguntou à mulher se ela era uma ferreira profissional. E ela, olhando seu robe amarelo (a roupa dos monges budistas), deu uma gargalhada selvagem e respondeu:

– Você é um brâmane estúpido! Você abandonou os Vedas e agora vive adorando os ensinamentos de Buda, o Dhammapada. Você pensa que é um budista? O significado dos ensinamentos de Buda só pode ser conhecido através da ação, não através de palavras ou livros. Não desperdice mais seu tempo nessa busca inútil. Venha, siga-me!

Saraha disse a ela:

– Você não é uma fabricante de flechas comum. Você é um grande mestre e eu renasço através de você. Até ontem eu não era um verdadeiro brâmane, de hoje em diante eu sou.

Ela o aceitou como discípulo e eles se mudaram para um terreno de cremação e começaram a viver juntos. Por que um terreno de cremação? Porque Buda diz que a não ser que se compreenda a morte, não é possível compreender a vida, não é possível renascer. A partir de Saraha, muitos discípulos do Tantra também viveram em terrenos de cremação. Aos poucos, ele parou de meditar e começou a cantar e a dançar. A celebração passou a ser seu estilo de vida, e ele vivia alegremente onde a morte acontece. Essa é a beleza do Tantra: ele une os opostos, os contrários, os contraditórios.

O êxtase de Saraha era tão contagiante que as pessoas começaram a ir vê-lo cantar e dançar, e passaram a dançar e cantar com ele. Assim, o terreno de cremação se tornou o espaço de uma grande celebração e uma grande alegria tomou conta daquele local. Pessoas que sequer haviam ouvido falar em êxtase vinham, dançavam, cantavam e sentiam o êxtase.

Porém, o inevitável aconteceu. Os brâmanes, os sacerdotes, os acadêmicos e as pessoas influentes da cidade começaram a vilipendiar e a difamar Saraha. Diziam que ele era um pervertido, que não era mais um brâmane, que abandonara o Budismo e o celibato. E, ainda, que se permitia práticas vergonhosas com uma mulher de baixa casta e que corria como cachorro louco em todas as direções.

Tais difamações chegaram até o rei, que enviou pessoas para tentar dissuadir Saraha de prosseguir com sua nova vida. Mas ele não cedeu. A rainha então, que sempre sonhara casá-lo com sua filha, foi até o crematório público para tentar convencê-lo a retornar à corte. Ele limitou-se a cantar-lhe oitenta versos, e a rainha... não mais voltou ao palácio. Agora o rei estava ainda mais confuso, e resolveu ir em pessoa até o local. Saraha cantou então quarenta versos ao monarca e ele começou a dançar como todos! E com a conversão do rei, todo o país se converteu também.

 

 
Saraha e sua amada

A essência do Tantra 

“Somente o verdadeiro é belo; somente o verdadeiro é agradável.”
Boileau
 

Os princípios do Tantrismo tibetano transparecem na própria história de Saraha. Quem capta os ricos significados que subjazem a essa história capta também o espírito da doutrina a que ela deu origem.

Para poder conhecer a felicidade conjugal, Saraha teve que passar por um profundo processo de limpeza interior. Desfez-se do pesado fardo dos conhecimentos inúteis que havia acumulado durante a vida e somente então, já bem mais leve e limpo, é que pôde desfrutar da graça de  vivenciar o amor com alguém. De modo que sua realização conjugal foi a recompensa que recebeu pela coragem e confiança que soube demonstrar abdicando de sua antiga bagagem em prol do aperfeiçoamento. Se não tivesse aceitado sacrificá-la não teria alcançado um estado de espírito propício para viver a sublime experiência do amor. Afinal, a harmônica convivência a dois, pautada sempre de pequenas renúncias de ambas as partes, não pode existir se não houver sintonia plena, e essa sintonia apenas se manifesta nos que conseguem libertar-se dos equívocos típicos do homem ainda escravo da mente.

Foi por encontrar-se assim leve, também, que Saraha pôde ter a visão premonitória com sua amada. Sem os antigos empeços a embaçar-lhe os olhos do espírito, pôde ele, já mais lúcido e atento, vislumbrar o seu porvir. Dissipadas as nuvens, descobre-se invariavelmente, por trás delas, um céu límpido e azul. Foi este céu que, num momento de inspiração, o sábio tibetano contemplou, antevendo assim seu futuro e, ao mesmo tempo, a meta que lhe cabia alcançar: um estado de espírito tão nobre e elevado como o da fabricante de flechas no mercado, empenhada, ela própria, em alcançar também uma meta, claramente simbolizada pelo alvo à sua frente.

Harmonia conjugal e equilíbrio

O momento em que, já com o espírito mais clarificado, “mira-se o alvo”, isto é, aquele em que se compreende aonde é preciso chegar, é o momento que antecede o cumprimento desse objetivo, e é também um momento de preparação. O alvo representa o essencial, a meta máxima, o ponto mais importante da realização humana. Quando o homem atinge esse ponto, ele alcança um estado de equilíbrio graças ao qual se vê dotado de grande inteligência e beleza. Tudo à sua volta se beneficia de sua presença. Somente quem se harmonizou consigo mesmo é capaz de relacionar-se de forma harmônica com os que estão à sua volta.

A história ricamente simbólica de Saraha também ensina que o estado de equilíbrio resulta de um processo de aprendizagem e autoconhecimento, e tem por requisito a humildade, sem a qual não pode haver disposição para aprender. Diante do convite da fabricante de flechas, que, diferentemente dele, é pessoa de baixa casta e totalmente desprovida de qualquer erudição, ele não vacila. Longe de sentir-se constrangido pela idéia de ser doutrinado por alguém de tão pouco prestígio social, ele compreende que a ferreira lhe é superior e dispõe-se incontinenti a segui-la.

O local escolhido para abrigar tão feliz união, o campo de cremação, torna-se o palco da grande alegria manifestada pelo casal e seus seguidores através do canto e da dança, fato que sugere a vitória da evolução sobre a morte. Essa escolha revela que quem está bem sente-se bem em qualquer lugar, seja em meio à mais bela paisagem, seja onde a morte insiste em se fazer lembrar. A morte deixa então de ser temida para ser compreendida como passagem para a vida. Quem alcança tão admirável estado de espírito vibra em sintonia com todo o Universo e está pronto para auxiliar o semelhante a encontrar o caminho.

O Tantra diz que somente o homem que está realmente satisfeito consigo mesmo pode realizar esse trabalho de auxiliar outras pessoas em direção à sua realização. A menos que esteja impregnado de sua própria felicidade, o ser humano é um perigo para a sociedade, pois uma pessoa infeliz cria ondas de infelicidade à sua volta. Mas aquele que está satisfeito está impregnado do bem, não almeja senão o bem e não atrai senão o bem. E sua satisfação repercute positivamente em todos os que o cercam. Assim é que a felicidade do casal consegue atrair grande número de pessoas, inclusive os reis, que, de início relutantes, acabam depois admirando os versos de Saraha.

Harmonia conjugal e purificação

Mas um homem só pode estar satisfeito consigo mesmo se estiver limpo espiritualmente. Sem passar por um processo de limpeza interior toda e qualquer tentativa de auto-realização estará fadada ao fracasso, principalmente se ela se fundar na relação conjugal. E apesar da purificação ser algo tão essencial para que se possa viver em harmonia com os outros homens – e principalmente com o cônjuge – poucos são os que têm acesso a esse ensinamento, e menos ainda os que o praticam. Em decorrência disso, muitos equívocos têm sido perpetrados nos relacionamentos a dois, sobretudo em relação à prática  sexual.

É possível que nada até hoje tenha sido mais erroneamente interpretado do que o sexo. Explorado comercialmente de forma abusiva e usado quase sempre como instrumento de obtenção de prazer e poder, o sexo é o principal assunto dos meios de comunicação numa era caracterizada pela licenciosidade e pela permissividade. Desconhecendo os mistérios que envolvem o ato sexual e não sabendo lidar com a força que o move, o homem não consegue relacionar-se com ele de forma sadia, e tende assim a cair nos extremos, resvalando ora para uma exacerbada promiscuidade ora para um puritanismo pseudo-religioso.

O sexo pode tornar-se um instrumento de sintonia e harmonia entre dois pólos distintos – o masculino e o feminino – quando fruto de uma autêntica união entre ambos. Assim, quanto maior o grau de pureza no relacionamento conjugal, quanto maior a confiança e a transparência , mais forte e sólida será a relação e mais elevado o nível da realização sexual. Porém, se essa pureza faltar, o sexo será limitado e não conduzirá à felicidade. É o que acontece, por exemplo, no sexo prostituído, praticado por espíritos também prostituídos e corrompidos.

Nos ambientes em que há prostituição, a felicidade não tem lugar, mas têm lugar o egoísmo, a solidão e, muitas vezes, até mesmo a violência. Também o sexo passional é incompatível com a felicidade, pois é próprio de estados de espírito marcados por grande carência e debilidade. Se, por um lado, dois apaixonados experimentam com intensidade uma grande carga emocional, não conseguem, por outro, relacionar-se de forma sadia ou mesmo duradoura, pois não têm estrutura para isso. E quanto mais insistem em levar adiante sua relação, mais suas carências e debilidades espirituais se vêem agravadas, daí que ela esteja fadada a ser fugaz e passageira. A felicidade é própria de quem sente amor. Tudo o que a paixão pode chegar a fazer é conduzir a uma falsa felicidade.

A grande verdade sobre o sexo é que ele não corresponde a um meio de alcançar a felicidade, como quase sempre se propaga, mas a felicidade que pode provir dele é um efeito  do nível de relacionamento do casal. Isso equivale a dizer que ele reflete o estado de espírito dos que o praticam. E o Tantrismo tibetano encara o sexo exatamente como aquilo que ele é: um fenômeno natural, algo que não deve ser reprimido ou evitado mas que é resultado do que os cônjuges conquistaram em termos de união e harmonia.

A história de Saraha ensina que o êxtase no relacionamento conjugal é fruto de uma luta e de uma vitória sobre o próprio ser. Ou, ainda, de uma união com o próprio ser. Somente a partir dessa luta e dessa união é que ele pôde desfrutar do supremo equilíbrio e, com isto, unir-se de forma total com sua amada, podendo assim sentir a felicidade e o êxtase.

Antigas escrituras da Índia, berço das tradições, constituem os mais valiosos registros de que a humanidade dispõe a respeito dos segredos da relação mágica entre o homem e a mulher através dos séculos, independentemente de suas culturas, etnias, espaços geográficos e características. Esses preciosos textos conduzem a uma compreensão do misterioso poder do sexo, que é o primeiro segredo da natureza.

Distorção do Tantrismo

Por causa de seus princípios, o Tantra acabou sendo mal interpretado. Pior do que isso, seu nome tem sido usado para justificar práticas promíscuas e movidas por interesses comerciais. Tais práticas, porém, envolvem pessoas que estão longe de compreender os objetivos do movimento original. A forma como o Tantrismo tibetano vê o sexo revela que ele não é uma doutrina moral nem imoral: é amoral. Revela, em outras palavras, que ele não se baseia em moralidades e conceitos relativos ao comportamento social, nem ensina a voltar os olhos ao comportamento alheio, mas ocupa-se apenas com a essência humana, buscando sempre conduzir cada um a reconciliar-se com o seu próprio ser.

A moralidade apóia-se na imagem idealizada (naquilo que o homem deve ser). E como as pessoas estão sempre um passo atrás do ideal, a tendência é serem hipócritas e empreenderem esforços para parecerem corresponder a ele. Mas o homem irreal é falso e o Tantra é basicamente a busca pelo homem real, pelo resgate do que ele tem de mais verdadeiro. E a verdade, segundo o Tantra, só pode ser alcançada pelos corajosos, porque a mente humana se encontra tão condicionada ao irreal que, quando não é colocada em seu devido lugar, faz com que a pessoa tenha medo do real.

Os versos de Saraha 

São três as obras que Saraha legou ao mundo: a primeira, As Canções de Saraha para o Povo, compõe-se de cento e oitenta versos; a segunda, as Canções de Saraha para a Rainha, de oitenta versos; e a terceira, as Canções Reais de Saraha, de quarenta. Desta terceira obra, dirigida ao rei, que ouvindo-a se converteu, constam os seguintes versos:

Eu me curvo ao nobre Manjusri,
eu me curvo a ele   
que conquistou o finito.

Como águas calmas   
que, açoitadas pelo vento,   
transformam-se em turbilhão   
de ondas que rolam,
em turbilhão estão os pensamentos   
do rei sobre Saraha,
ainda que este seja um só homem.

Para um tolo que confunde o que vê,   
uma luz é como se fossem duas.   
Quando o visto e o que vê não são dois   
Ah! Aí a mente opera   
sobre a ausência de ambos.    

Embora se acenda a lâmpada da casa,   
aquele que é cego permanece na escuridão.   
Embora a espontaneidade
esteja próxima e ao redor de tudo,   
para aquele que se ilude   
ela permanece muito distante.    

Embora possam existir muitos rios,   
ao desaguar no mar eles se tornam um.   
Embora possam existir muitas mentiras,   
uma só verdade conquistará tudo.   
Quando um sol surgir,   
a escuridão, apesar de profunda,   
desaparecerá.  

Na primeira estrofe desse poema, Saraha reverencia Manjusri, que foi um dos discípulos de Buda. Mas Manjusri era um discípulo muito raro: ele podia compreender a mensagem que não era proferida em palavras, e tinha as qualidades máximas de um mestre: era compassivo e drástico ao mesmo tempo.

Na estrofe seguinte, tem-se a descrição do que acontece quando sobre uma superfície de águas plácidas sopra um vendaval: elas passam a agitar-se em grande turbilhão de ondas. É fácil imaginar a lua cheia, que até então podia refletir-se em sua totalidade na água, passando a ser refletida em incontáveis fragmentos e a mostrar-se em dispersa e distorcida imagem. Saraha ensina que essa é a situação da mente do homem inconsciente e iludido: quando uma pessoa está iludida e dentro dela existe o desejo, formam-se nela inúmeras ondulações que a perturbam e distraem. E quando o desejo é eliminado, ela volta a ficar em paz consigo mesma. O ensinamento é dirigido especialmente ao rei, que tenta convencer Saraha a retornar ao palácio e que, por não ter conseguido vencer seus julgamentos, se encontra agitado e confuso. 

Na terceira estrofe, Saraha ensina que se uma pessoa olha outra e vê duas, isto mostra que ela está inconsciente e é portanto tola. Se ela enxergar realmente, verá então que ambas não são senão uma. Aquele que olha deve ser um com aquilo que vê. Assim, se uma pessoa estiver em êxtase e houver outra a contemplá-la, esta deverá estar em êxtase também. Não deverá apenas observar, não deverá ficar parada ao lado e ser apenas uma espectadora: o melhor será que ela compartilhe com a outra da mesma experiência e que cada uma das duas perca suas fronteiras no interior da outra. 

No início da estrofe seguinte, Saraha ensina que não se deve perder tempo tentando mostrar a luz àqueles que, mesmo quando a lâmpada da casa se acende, preferem permanecer com os olhos fechados: será preciso que eles antes abram seus olhos e enxerguem o que está à sua frente. Somente nesse sentido é possível entender o “cego” a que o fundador do Tantra se refere nessas linhas, já que a missão dos mestres é, justamente, a de ensinar os cegos a verem. A seguir, Saraha esclarece que a espontaneidade está ao alcance do homem. É como se ele dissesse: “Eu estou tão perto de você! Você pode desfrutar da espontaneidade, você pode dançar comigo e sentir o êxtase comigo. Eu estou tão perto! Aproveite, pode ser que a espontaneidade não torne a estar tão próxima de você outra vez!” 

As mentiras podem ser muitas, mas a verdade é uma só, da mesma forma que as doenças podem ser inúmeras mas a saúde será sempre apenas uma. Para alcançar a verdade é preciso ver a luz, e esta, quando chega, dissipa toda escuridão, por mais profunda que seja. Para ver, basta então abrir os olhos. São os ensinamentos contidos na quinta e última estrofe desse poema, na qual o fundador do Tantra parece dizer: “Deixe seu rio desaguar em meu oceano e você saboreará o que eu saboreio. O sol nasceu: olhe para mim e você já não será cego!” 

 

Baseado na obra de Osho intitulada A Visão Tântrica: Discursos sobre as Canções de Saraha. São Paulo, Masdras Editora, s.d.

Nota

1. Conjunto de textos sagrados do Bramanismo e do Hinduísmo

 


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