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Televisão
a boceta de Pandora
Segundo o Novo Dicionário de Aurélio B. H. Ferreira, a expressão Boceta de Pandora é usada na mitologia grega para designar uma caixa portadora de todos os males. Essa caixa foi enviada por Zeus aos homens como presente através de Pandora, virgem de incomparável beleza que fora criada artificialmente.
Prometeu advertira Epimeteu, seu irmão, a não aceitar nenhum presente de Zeus.
Mas Epimeteu, que é desmemoriado (seu nome significa o que pensa depois), esquecido de suas palavras, abriu a caixa de Pandora seduzido pelos aparentes encantos da donzela, e os males que se encontravam dentro dela espalharam-se rapidamente sobre a Terra. Com sua atitude inconseqüente, o irmão de Prometeu condena os homens a cumprirem uma terrível sentença: a de viverem, a partir de então, irremediavelmente assediados pelo mal.
A boceta de Pandora foi o primeiro presente de grego da História.
Os encarregados da programação da TV brasileira parecem ter esquecido - se é que algum dia o souberam - que os forjadores da Constituição deste país conceberam a televisão como um instrumento de função primordialmente social e educativa em prol do bem-estar dos cidadãos. Com a escusa da luta pelo índice de audiência, eles converteram a telinha numa arena de luta livre onde os mais baixos recursos são usados para atrair a atenção do público a qualquer preço. Porém, apesar da guerra aparentemente encarniçada entre os diferentes canais televisivos, aqueles que os dirigem estão na verdade, completamente de acordo nos objetivos, os quais tentam cumprir à risca em quase perfeita coordenação. Trata-se em síntese, da mais violenta tentativa sistemática de massificar e idiotizar o homem com o intuito de torná-lo vítima de um verdadeiro escruncho material e espiritual.
Quem não tem TV? Ninguém! Ou, pelo menos, quase todos têm. Na maioria dos países
“civilizados”, inclusive os EUA, é maior o número de casas com televisão
que o daquelas que possuem água encanada. Estudos indicam que crianças entre
dois e seis anos de idade passam em média trinta e duas horas semanais em
frente à TV, criando-se assim uma dependência que, freqüentemente, continua
pelo resto da vida. Muitos já denunciaram as influências maléficas da televisão,
que induz a comportamentos violentos, desencadeia uma sexualidade prematura,
artificial e doentia, e impele as pessoas a um consumismo desenfreado. O
aparelhinho, porém, continua ligado, e não parece ter perdido popularidade ao
longo dos anos, nem mesmo com a chegada da Internet.
A explicação para tanto sucesso é simples: armadas com os mais sofisticados
recursos tecnológicos, assessoradas pelos mais hábeis profissionais da
publicidade, mas totalmente desprovidas de qualquer princípio ético, as
programações de TV invadem prepotentemente os lares que compõem a sociedade,
apresentando de forma simultânea, em várias freqüências e cores, milhares de
propostas divertidas. Nada melhor para encher uma vida vazia, carente de aspirações
elevadas e sem padrões morais firmes! E cada um é fisgado por suas mais baixas
tendências, por aquilo que tem de pior.
Depois de dezenas de anos vendo televisão, a sociedade já ficou viciada. O típico
telespectador, excetuando-se as crianças, é aquele tipo de pessoa pouco
exigente e que facilmente se deixa influenciar e manipular pelas emoções, típico
produto das sociedades materialistas e consumistas dos países liberais. É o
tipo de homem que a própria TV ajudou a formar, com seus programas em linguagem
pobre, que desvaloriza o discurso ordenado, calmo e racional, e suas imagens
fragmentadas, ambas as coisas apelando fortemente para a emotividade e a
sensualidade.
Mas como é que a televisão chegou a ser tão prejudicial? Afinal, ela é uma
invenção preciosa, de incalculável potencial informativo e educativo. Na
verdade, suas possibilidades de aplicação útil são tantas quantas se possa
imaginar. O problema, portanto, não está na TV em si, mas na forma como ela
tem sido usada. Entregue, desde seus inícios, a oligopólios capitalistas (tal
como, de resto, costuma acontecer com todas as grandes invenções de nossa
sociedade materialista), ela se tornou apenas um negócio lucrativo. E assim, a
tecnologia da transmissão de som e imagem em grande escala viu-se à mercê do
livre jogo de oferta e demanda, como se fosse um produto de consumo qualquer.
Porém, é evidente que, com todo o seu poder de expressão e de influência
social, a televisão jamais poderia ou deveria ser considerada um negócio.
O resultado da manipulação da TV pode ser visto hoje nas telas a qualquer hora
e em todos os canais, e é a mais viva e contundente ilustração de quão
nocivo o liberalismo econômico pode chegar a ser. Ela passou a exercer sobre as
pessoas uma espécie de poder hipnótico que a constitui num dos mais potentes
instrumentos de dominação ideológica. Formando opiniões (ou “fazendo cabeças”,
expressão introduzida pela própria televisão), a telinha se presta a
favorecer o processo de colonização cultural que tem padronizado a forma de
vida de cidadãos de grande parte do mundo em detrimento de sua individualidade
e capacidade de pensar por conta própria.
A escritora norte-americana na Cheryl Pawlowski, em sua obra Glued to the Tube
(Colado na TV), esclarece que nos EUA a televisão tem subvertido os valores da
família, uma vez que acaba ocupando o lugar dos pais. Entregues aos cuidados da
babá eletrônica, crianças e adolescentes recebem uma “educação” baseada
em concepções simplistas e imediatistas, o que tende a afetar
irremediavelmente sua maneira de pensar e agir.
Pawlowski também lembra que o ritmo de imagens e sons na televisão é muito
mais rápido que no mundo real. Há casos em que se muda de cena ou ângulo a
cada três segundos. Mesmo programas infantis considerados “educativos” têm
quadros com duração média de apenas dez segundos. Isso não é tempo
suficiente para assimilar informações mais complexas. Estudos comprovam que
crianças que vêem muita televisão têm mais dificuldade para abstrair e
imaginar que as que dão preferência ao hábito da leitura.
Segundo a mesma autora, professores têm se queixado cada vez mais da
incapacidade das crianças para concentrar-se nas aulas e nos estudos, deficiência
que psicólogos explicam afirmando que a televisão inibe a capacidade de atenção
delas, bem como a de autopercepção, essencial para que possam aprender a
comportar-se em sociedade. A médio prazo, isso ameaça a própria estrutura
social.
A linguagem das crianças, nivelada “por baixo” pela televisão, inibe
sensivelmente a aquisição de vocabulário. Segundo pesquisas, em 1950 um
adolescente norte-americano sabia em média vinte e cinco mil palavras, ao passo
que o de hoje conhece apenas dez mil.3
Com a proibição dos anúncios de cigarro na TV, por “mera coincidência”,
aumentou o número de atores fumando em filmes e novelas, onde o ato de fumar
costuma aparecer como algo sofisticado, como um simples meio de alívio em
momentos de forte tensão, mas os efeitos do vício do tabagismo nunca são
mostrados. Alguns dos atores e atrizes mais idolatrados pelos jovens (Leonardo
di Caprio, Julia Roberts e muitos outros) fumam continuamente, na tela e fora
dela.
Nos anúncios de bebidas alcoólicas, o ato de beber também é associado a
momentos de descontração e prazer, e os filmes com freqüência vendem a mesma
imagem, raramente mostrando pessoas embriagadas ou cuja vida foi destruída pelo
álcool. Pesquisas mostram haver bastante relação entre o hábito de assistir
à TV, em particular programas musicais para jovens, e o consumo de álcool por
adolescentes.
Na televisão, sobretudo nos horários destinados às programações infantis, são
maciçamente promovidos refrigerantes, hambúrguers, salgadinhos, cereais
matinais, chocolates, doces e outros produtos ricos em açúcar, gordura ou sal
e desprovidos de nutrientes essenciais, os quais, portanto, são nocivos à saúde.
Nos anúncios desses produtos, costumam ser mostradas pessoas sorridentes, fato
que induz, sobretudo crianças, a associar o consumo dos mesmos às idéias de
satisfação e bem-estar. Não admira que nos EUA a obesidade infantil seja hoje
um problema grave de saúde pública. Quanto mais tempo a criança passa em
frente à televisão, mais – e pior – ela come e menos se exercita.
Paralelamente a todo esse estímulo ao hiper consumo alimentício, a televisão
exibe insistentemente atrizes e modelos esguias, associando, através de
propagandas e filmes, esbelteza a sucesso, inteligência e sofisticação. Nos
EUA, as modelos da televisão e da mídia em geral pesam aproximadamente 23% a
menos que a média americana e 60% delas sofrem de distúrbios alimentares.
Contudo, milhões de adolescentes, deslumbradas com as imagens femininas
exibidas nas telas, embarcam em dietas radicais, fato que ocasiona um
crescimento enorme do número de casos de doenças como anorexia e bulimia. Um
estudo feito quando da introdução da televisão na ilha de Fiji
demonstrou o brutal efeito dessa imagem vendida pela mídia, o qual foi
sentido após uma exposição semanal de apenas trinta minutos! Em dois anos
contados a partir da chegada da TV, a incidência da prática de indução do vômito
para perder peso aumentou de 3% para 15% entre as adolescentes fijianas.4
Mais de mil estudos comprovam que a violência na televisão estimula a violência
fora dela. Nos EUA, Inglaterra e África do Sul constatou-se que o número de
homicídios cresceu assustadoramente cerca de dez anos após a introdução da
televisão, o tempo necessário para que a geração por ela “educada”
chegasse à adolescência. Pesquisas indicam que, apenas nos EUA, a televisão,
a cada ano, é responsável por dez mil assassinatos, setenta mil estupros e
setecentas mil agressões violentas. Estudos documentam amplamente que quanto
maior a exposição de uma criança a filmes violentos, maior a probabilidade de
ela tornar-se uma pessoa violenta. O estímulo à violência começa já nos
desenhos animados, a grande maioria dos quais a glorifica abertamente. Os
personagens são amassados, picados em pedacinhos, caem de grandes alturas,
explodem, são envenenados, atingidos por balas ou retalhados por arma branca e
no quadro seguinte estão novos em folha. Depois de ver um desenho de Bevis e
Butthead, um menino de cinco anos incendiou as roupas de sua irmã de dois anos,
que faleceu.
Experimente deixar seu filho sem ver televisão por três meses e observe seu
comportamento. Em seguida, libere a telinha por uma semana e... sinta a diferença!
O estímulo à violência através da televisão acaba acontecendo também em
decorrência da exibição ostensiva de um estilo de vida que, na realidade, é
restrito apenas a uma pequena minoria pertencente à elite econômica. Para a
classe média, o fato se constitui num estímulo à emulação de consumo, o
que, com freqüência, acaba levando a situações de endividamento. Para
aqueles que nada têm, é um apelo à violência. Acrescente-se ainda que, dessa
elite, as telas tendem a realçar precisamente a falta de padrões morais e tudo
o mais que nela há de pior.
A televisão brasileira estimula a prática da prostituição. Na
novela Laços de Família, a personagem principal era uma garota de
programa (eufemismo para prostituta de luxo). E Porto dos Milagres escancarava
as portas de um prostíbulo para toda a sociedade brasileira, inclusive crianças
pequenas. Assim, desde tenra idade, as pessoas habituam-se a encarar a prostituição
como uma ocupação normal. Já hoje temos relatos de mulheres brasileiras
assediadas no exterior ou discriminadas em países mais conservadores devido ao
teor de novelas que a Globo exporta fartamente. No Nordeste, o “turismo
sexual” é um fato. Será que o papel reservado ao Brasil, dentro da nova
ordem mundial da globalização, é o de prostíbulo? Os autores Lichter e
Rothman, em seu livro Prime Time, estudando seiscentos e vinte programas que
cobriam um período de trinta anos, concluíram que “mais do que simplesmente
refletir nossos valores sexuais mutantes, a televisão tem endossado essas mudanças
e acelerado a sua aceitação”. No ambiente sexual criado pela televisão,
sexo quase nada tem a ver com relacionamentos, comprometimentos, filhos ou doenças
sexualmente transmissíveis...
A televisão faz ainda a apologia do homossexualismo, que é mostrado como uma
opção sexual normal e até charmosa. Em dezembro de 2000, a revista Veja
publicou um artigo intitulado Fora do armário no qual se lê: “A nova ordem
nos seriados americanos é celebrar os estilos heterodoxos ou
‘alternativos’. Em vez de personagens bem comportados, a atual safra de
enlatados escolhe homossexuais, mães solteiras e divorciados como heróis”. O
seriado Queer as folk (Bichas como gente), por exemplo, apresenta em seu
primeiro episódio um executivo homossexual tendo relação sexual com um
rapazola de dezessete anos e, ato contínuo, indo à maternidade visitar seu
filho recém-nascido de uma lésbica por inseminação artificial. Considerando
o poder da televisão de influenciar os gostos e tendências da sociedade, em
pouco tempo tais comportamentos poderão passar a ser vistos como normais, se é
que isto já não acontece.
Uma pesquisa realizada no Brasil mostra que o público sente repulsa tanto pelo excesso de
violência (74,1%) como pelo de sexo (64,4%) na televisão. Resta saber, então,
por que motivo insiste-se em colocar ambos nas telas. Haverá por trás do fato
algum objetivo mais sinistro além do lucro?
O ex-todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães, num momento de desabafo,
confessou que o que ele mais queria é ser dono da Globo. Não é difícil
entender a razão, afinal de contas, o senhor Roberto Marinho tem o poder de
fazer e desfazer presidentes, senadores, governadores, prefeitos e quantos
outros políticos quiser. Apenas para mencionar a mais flagrante ilustração
disto, lembremos a fabricação do “caçador de marajás” em 1989, a qual
levou Fernando Collor de Melo a ser eleito presidente da República. Sabe-se que
aquilo que se noticia ou que se deixa de noticiar, assim como a escolha do
momento e da forma como uma notícia é dada, podem definir os rumos de uma eleição.
Publicitários regiamente pagos, como o famoso Duda Mendonça, são contratados
para empurrar ao povo o mesmo velho peixe podre de sempre em épocas eleitorais.
Não por acaso, a insólita Igreja Universal do Reino de Deus comprou a rede
Record, o que lhe possibilitou colocá-la a serviço de seus interesses políticos.
A concessão de emissoras de televisão e rádio é moeda de troca em transações
escusas, que visam perpetuar no poder os mesmos políticos já eleitos
anteriormente. Em certa ocasião, o senador Pedro Simon, que chegou a presidir
uma subcomissão permanente sobre TV no Senado, confessou: “É difícil
parlamentares votarem algo que não seja do interesse das rádios e das televisões”.
O projeto de regulamentação das telecomunicações que foi apresentado no
Congresso omite-se sobre o conteúdo das programações veiculadas.
E os males de Pandora se espalharam pelo mundo...
Para ter alguma idéia de quão mal utilizado tem sido esse precioso invento que
é a televisão,
é preciso ter coragem e... estômago. Vejamos o caso do Brasil. Prepare-se: um,
dois, três... já...
Click!
Em cena, o baú da vulgaridade
Nas noites paulistanas, o público pode buscar alívio para o stress da grande
cidade assistindo ao tradicional programa de Hebe Camargo. Se vai encontrá-lo
ou não, é uma outra história...
Imersa num clima de liberalidade e vulgaridade, Hebe Camargo aborda de forma
leviana e com um sorriso insistente diversos “temas da atualidade” com a
mesma competência que poderíamos esperar de um açougueiro que falasse de
vegetarianismo. Seu tom de voz, bem como a forma de andar e vestir e todo o cenário
sugerem um padrão de vida fácil e leviana, onde tudo “é lindo de viver” e
cada um pode falar de qualquer coisa que tenha ouvido dizer por aí como se
fosse sua opinião formada sobre algum assunto específico.
Declarada garota-propaganda do político Maluf, investigado por suspeita de ter
desviado 300 milhões de reais do orçamento da prefeitura de São Paulo, a
apresentadora, vez por outra, interrompe seu sorriso por alguns minutos: é
chegada a hora de pronunciar discursos demagógicos em protesto à corrupção
dos políticos...
Além de superficial e incoerente, Hebe Camargo é ainda uma das principais
precursoras da vulgaridade nas telas. Contrariando princípios básicos de bom
senso e educação, ela estimula o consumo de bebidas alcóolicas e chama,
indiscriminadamente, a todos os seus convidados de gracinha. No caso das
convidadas, é espetáculo dos mais constrangedores e grotescos vê-la
desfazer-se pegajosamente em elogios insinuantes, como se fosse normal tratar
assim alguém com quem não se tem um relacionamento mais íntimo e que se está
a ver pela primeira vez. Aliás, em se tratando de elogios, ela é uma
verdadeira perdulária, porque, como boa comerciante que é, sabe bem que ele é
moeda falsa e que, por isso mesmo, pode ser gasto à vontade.
Na biografia oficial de madame Camargo consta que, dentre os prêmios que
recebeu, aquele que a deixou mais emocionada foi o título A cara de São Paulo,
a ela conferido pelos próprios paulistanos em 1990. Pobre São Paulo! Terá
essa escolha sido fruto do exame autocrítico de toda uma metrópole? Ou será
que a tolerância de seus sofridos habitantes em conviver e até admirar esse
fauno da espécie humana resulta do contato diário com o perfumoso rio Tietê?
Nós perguntamos, você responde...
E que dizer então do lixo dominical? Se a televisão já é, durante os dias úteis
(ou inúteis, para aqueles que a assistem ininterruptamente), um atentado contra
a inteligência e o bom gosto, no domingo ela se torna então uma verdadeira
bomba atômica. O triunvirato Faustão/Sílvio Santos/Gugu Liberato se encarrega
de dar o desfecho mortal a qualquer vestígio de vida inteligente que em meio à
audiência possa ter sobrevivido até o final da semana.
O popular Sílvio Santos, cujo nome é Senor Abravanel, pode ser considerado
como o âncora que mais fez para transformar a televisão brasileira num
selvagem instrumento de acumulação de capital e de proselitismo da
mediocridade. Não teve nenhum escrúpulo em tirar partido do fascínio da
televisão em detrimento do sistema de valores e da economia brasileiros, e
explorando os desejos e a ingenuidade das camadas mais carentes do país
acumulou uma enorme fortuna vendendo-lhes ilusões.
A fórmula do sucesso de Sílvio Santos tem como ingredientes principais o uso
sagaz de sua capacidade de interlocução e a forjada imagem de que ele seria
uma pessoa benemérita, uma espécie de herói nacional, como se através de
seus embustes ele prestasse algum serviço de utilidade pública. Filho de
imigrantes de baixos recursos, ex-camelô e ex-apresentador de circo (onde era
conhecido como o peru que fala), foi graças a seu olfato privilegiado para
farejar filões que ele conseguiu tornar-se rapidamente um dos milionários mais
influentes do país. Esse seu passado marcado pela pobreza lhe valeu a simpatia
de milhões de pessoas pertencentes às camadas economicamente menos favorecidas
da população, as quais embarcam facilmente no sonho do pobre marginalizado
que, após um golpe de sorte, dá o grande salto da rua em direção à riqueza
e à fama.
E Sílvio Santos não perde ocasião de especular com esse sonho. As armas
usadas pelo apresentador são as mais diversas. Sensacionalismo em altas doses,
relatos apaixonados de estórias dramáticas e algumas pitadas de apelo sensual
são recorrentes em seus programas. Mas seu recurso preferido parece ser mesmo
essa especulação. Domingo a domingo, com seu ininterrupto sorriso sintético,
ele convence legiões de sofridos brasileiros, impotentes diante da corrupção
de seus dirigentes e da situação de miséria e desemprego que assola grande
parte da população, de que a sorte e o azar são os únicos fatores capazes de
definir seus destinos. Afinal, basta uma pessoa ter sorte para que seus desejos
se realizem em questão de segundos! E o abastado Abravanel é especialista em
apresentar-se como uma espécie de sumo sacerdote da sorte. Com ele e através
dele, todos têm a chance de ganhar o milhão e sair do poço. Ou, ao menos, do
anonimato. Realmente, teria sido melhor para o país se Sílvio Santos tivesse
permanecido nos circos...
Ainda no SBT, Gugu Liberato, o filhote de Sílvio Santos, é apenas a segunda
fase de um suplício que, a esta altura do domingo, parece não ter fim.
Imitando o estilo do outro, posa de benfeitor. Porém, à diferença dele, seu
principal negócio não é promover a obsessão doentia pelo dinheiro, e sim a
pornografia e a mediocridade. Em plena tarde de domingo, ele explora o corpo de
mulheres seminuas para, em seguida, exibir uma reportagem sobre Nossa Senhora de
Aparecida. Especula abertamente com a pedofilia, mostrando em seu programa crianças
inocentes com roupinhas sumárias dançando a dança da garrafinha. No Táxi do
Gugu, ele subestima a inteligência de seus espectadores tentando convencê-los
de que as vítimas na tela não são atores contratados. E, em várias ocasiões,
recorre ao sensacionalismo macabro para poder manter a atenção do público.
Em outra freqüência de canal, mas ainda na mesma onda, temos o Faustão. Seja
na figura ou na forma de tratar seus convidados, eis aqui, definitivamente, um
apresentador que de fino nada tem. Através de sua linguagem grosseira,
temperada de diversos palavrões, ele tenta disseminar o estilo da fala solta,
irresponsável e chula, a qual, durante as entrevistas, impõe arrogantemente
sobre o intimidado interlocutor. Pretende, enfim, fazer a apologia de um padrão
de comportamento tão vulgar quanto seu próprio aspecto físico.
Notabilizando-se por criar uma atmosfera de artificialidade raramente conseguida
em qualquer outro programa do mundo, Faustão abusa da paciência de seu público
repetindo sempre as mesmas frases feitas. Seus comentários insípidos,
verdadeiros dejetos verbais disparados sem o menor tato sempre que sobra algum
espaço vazio entre as atrações de seu programa, convertem-no numa ilustração
viva da total falta de qualidade dos conteúdos da televisão. Campeão em
contar piadinhas sem graça, ele mostra que a tudo está disposto para ser
original, até mesmo a cometer as mais inimagináveis burrices. Afinal, a
concorrência do SBT é forte, o jogo da TV é para durões e, para chamar a
atenção da audiência, vale tudo!
É, para enfrentar um Faustão, só mesmo um ratinho ou um leão...
Os bobos e o ladino
Tudo começou nos anos 60 com o célebre Baú da Felicidade, empresa da qual Sílvio
Santos se apropriou e que arrecadava mensalidades das pessoas durante o ano
inteiro a fim de que pudessem render um presente de Natal. Algum tempo depois,
essa empresa daria origem ao conhecido programa televisivo de mesmo nome. Nesse
programa, Abravanel já disseminava a ideologia que associa felicidade a
dinheiro, já lançava a promessa da felicidade através da facilidade, da
felicidade ao alcance de todos, sorteada, vendida e distribuída pelo
“reverendo” Sílvio Santos.
Mas esta é a verdade sobre o concorrido Baú: no final do ano, após receber
doze mensalidades de cada associado, o apresentador distribui suas panelas
(feitas numa indústria dele) aos ganhadores usando apenas uma modesta parcela
do dinheiro que captou. O restante é aplicado em seu próprio Banco
Panamericano, e servirá para financiar crediários em lojas de amigos seus que
cobram juros de 8 a 10% ao mês. E que dizer do Tele Sena, publicitado
intensamente nos programas do SBT com a escusa de prestar-se à captação de
fundos para campanhas de caridade?
Porém, a reconhecida criatividade empresarial de Sílvio Santos não o impediu
de imitar um programa da televisão norte-americana1. Pois, para quem não sabe,
temos aqui uma novidade: o Show do Milhão, na verdade, não é uma criação
sua, mas foi concebido a partir dos moldes de um programa dos EUA chamado Who
wants to be a millionaire? 2
Já prevendo a expansão da comunicação através da Internet e sabendo que a
maioria de seus clientes não utilizam computador, Abravanel conseguiu colocar
à sua disposição até mesmo a rede pública de Correios e Telégrafos do país.
Quem quiser enviar uma simples carta à namorada ou fazer alguma remessa de negócios
que se prepare: imensas filas abarrotadas de esperançados telespectadores o
aguardam na agência de correios!
Com o tempo, nosso “herói” montou um conglomerado de trinta e três
empresas criadas para atender a demanda do Baú, cujo carro-chefe é o próprio
SBT, canal que ele ganhou do general Figueiredo durante um almoço que ofereceu
ao ditador (sabe-se lá que coisas terá oferecido em troca...). Dentre essas
empresas estão, ainda, o Complexo Anhangüera, o Banco Panamericano, o Provedor
SOL, a Vimave Veículos, a Liderança Capitalização, o Teatro Imprensa e a BF
Utilidades Domésticas. Com elas, enquanto diverte o auditório e os
telespectadores, o apresentador mais tradicional do Brasil embolsa muito
dinheiro. Para ter uma idéia, o contribuinte Senor Abravanel (pessoa física)
deixou nada menos que quinze milhões de reais na boca do leão do Imposto de
Renda no ano de 1999. E há ainda toda uma gama de subprodutos com a marca do
Show do Milhão, desde balas até camisetas, que são vendidos, sob o véu da
caridade, para todas as faixas etárias.
“A televisão me deixou burro, muito burro demais.
Agora todas as coisas que eu penso me parecem iguais.
É que a televisão me deixou burro, muito burro demais.
E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais.”
(Televisão, música de Arnaldo Antunes, Marcelo Fromer e Toni Bellotto)
E não é só no Brasil...
Quem não tem TV? Ninguém! Ou, pelo menos, quase todos têm. Na maioria dos países
“civilizados”, inclusive os EUA, é maior o número de casas com televisão
que o daquelas que possuem água encanada. Estudos indicam que crianças entre
dois e seis anos de idade passam em média trinta e duas horas semanais em
frente à TV, criando-se assim uma dependência que, freqüentemente, continua
pelo resto da vida. Muitos já denunciaram as influências maléficas da televisão,
que induz a comportamentos violentos, desencadeia uma sexualidade prematura,
artificial e doentia, e impele as pessoas a um consumismo desenfreado. O
aparelhinho, porém, continua ligado, e não parece ter perdido popularidade ao
longo dos anos, nem mesmo com a chegada da Internet.
A explicação para tanto sucesso é simples: armadas com os mais sofisticados
recursos tecnológicos, assessoradas pelos mais hábeis profissionais da
publicidade, mas totalmente desprovidas de qualquer princípio ético, as
programações de TV invadem prepotentemente os lares que compõem a sociedade,
apresentando de forma simultânea, em várias freqüências e cores, milhares de
propostas divertidas. Nada melhor para encher uma vida vazia, carente de aspirações
elevadas e sem padrões morais firmes! E cada um é fisgado por suas mais baixas
tendências, por aquilo que tem de pior.
Depois de dezenas de anos vendo televisão, a sociedade já ficou viciada. O típico
telespectador, excetuando-se as crianças, é aquele tipo de pessoa pouco
exigente e que facilmente se deixa influenciar e manipular pelas emoções, típico
produto das sociedades materialistas e consumistas dos países liberais. É o
tipo de homem que a própria TV ajudou a formar, com seus programas em linguagem
pobre, que desvaloriza o discurso ordenado, calmo e racional, e suas imagens
fragmentadas, ambas as coisas apelando fortemente para a emotividade e a
sensualidade.
Mas como é que a televisão chegou a ser tão prejudicial? Afinal, ela é uma
invenção preciosa, de incalculável potencial informativo e educativo. Na
verdade, suas possibilidades de aplicação útil são tantas quantas se possa
imaginar. O problema, portanto, não está na TV em si, mas na forma como ela
tem sido usada. Entregue, desde seus inícios, a oligopólios capitalistas (tal
como, de resto, costuma acontecer com todas as grandes invenções de nossa
sociedade materialista), ela se tornou apenas um negócio lucrativo. E assim, a
tecnologia da transmissão de som e imagem em grande escala viu-se à mercê do
livre jogo de oferta e demanda, como se fosse um produto de consumo qualquer.
Porém, é evidente que, com todo o seu poder de expressão e de influência
social, a televisão jamais poderia ou deveria ser considerada um negócio.
O resultado da manipulação da TV pode ser visto hoje nas telas a qualquer hora
e em todos os canais, e é a mais viva e contundente ilustração de quão
nocivo o liberalismo econômico pode chegar a ser. Ela passou a exercer sobre as
pessoas uma espécie de poder hipnótico que a constitui num dos mais potentes
instrumentos de dominação ideológica. Formando opiniões (ou “fazendo cabeças”,
expressão introduzida pela própria televisão), a telinha se presta a
favorecer o processo de colonização cultural que tem padronizado a forma de
vida de cidadãos de grande parte do mundo em detrimento de sua individualidade
e capacidade de pensar por conta própria.
A escritora norte-americana na Cheryl Pawlowski, em sua obra Glued to the Tube
(Colado na TV), esclarece que nos EUA a televisão tem subvertido os valores da
família, uma vez que acaba ocupando o lugar dos pais. Entregues aos cuidados da
babá eletrônica, crianças e adolescentes recebem uma “educação” baseada
em concepções simplistas e imediatistas, o que tende a afetar
irremediavelmente sua maneira de pensar e agir.
Pawlowski também lembra que o ritmo de imagens e sons na televisão é muito
mais rápido que no mundo real. Há casos em que se muda de cena ou ângulo a
cada três segundos. Mesmo programas infantis considerados “educativos” têm
quadros com duração média de apenas dez segundos. Isso não é tempo
suficiente para assimilar informações mais complexas. Estudos comprovam que
crianças que vêem muita televisão têm mais dificuldade para abstrair e
imaginar que as que dão preferência ao hábito da leitura.
Segundo a mesma autora, professores têm se queixado cada vez mais da
incapacidade das crianças para concentrar-se nas aulas e nos estudos, deficiência
que psicólogos explicam afirmando que a televisão inibe a capacidade de atenção
delas, bem como a de autopercepção, essencial para que possam aprender a
comportar-se em sociedade. A médio prazo, isso ameaça a própria estrutura
social.
A linguagem das crianças, nivelada “por baixo” pela televisão, inibe
sensivelmente a aquisição de vocabulário. Segundo pesquisas, em 1950 um
adolescente norte-americano sabia em média vinte e cinco mil palavras, ao passo
que o de hoje conhece apenas dez mil.3
Com a proibição dos anúncios de cigarro na TV, por “mera coincidência”,
aumentou o número de atores fumando em filmes e novelas, onde o ato de fumar
costuma aparecer como algo sofisticado, como um simples meio de alívio em
momentos de forte tensão, mas os efeitos do vício do tabagismo nunca são
mostrados. Alguns dos atores e atrizes mais idolatrados pelos jovens (Leonardo
di Caprio, Julia Roberts e muitos outros) fumam continuamente, na tela e fora
dela.
Nos anúncios de bebidas alcoólicas, o ato de beber também é associado a
momentos de descontração e prazer, e os filmes com freqüência vendem a mesma
imagem, raramente mostrando pessoas embriagadas ou cuja vida foi destruída pelo
álcool. Pesquisas mostram haver bastante relação entre o hábito de assistir
à TV, em particular programas musicais para jovens, e o consumo de álcool por
adolescentes.
Na televisão, sobretudo nos horários destinados às programações infantis, são
maciçamente promovidos refrigerantes, hambúrguers, salgadinhos, cereais
matinais, chocolates, doces e outros produtos ricos em açúcar, gordura ou sal
e desprovidos de nutrientes essenciais, os quais, portanto, são nocivos à saúde.
Nos anúncios desses produtos, costumam ser mostradas pessoas sorridentes, fato
que induz, sobretudo crianças, a associar o consumo dos mesmos às idéias de
satisfação e bem-estar. Não admira que nos EUA a obesidade infantil seja hoje
um problema grave de saúde pública. Quanto mais tempo a criança passa em
frente à televisão, mais – e pior – ela come e menos se exercita.
Paralelamente a todo esse estímulo ao hiper consumo alimentício, a televisão
exibe insistentemente atrizes e modelos esguias, associando, através de
propagandas e filmes, esbelteza a sucesso, inteligência e sofisticação. Nos
EUA, as modelos da televisão e da mídia em geral pesam aproximadamente 23% a
menos que a média americana e 60% delas sofrem de distúrbios alimentares.
Contudo, milhões de adolescentes, deslumbradas com as imagens femininas
exibidas nas telas, embarcam em dietas radicais, fato que ocasiona um
crescimento enorme do número de casos de doenças como anorexia e bulimia. Um
estudo feito quando da introdução da televisão na ilha de Fiji
demonstrou o brutal efeito dessa imagem vendida pela mídia, o qual foi
sentido após uma exposição semanal de apenas trinta minutos! Em dois anos
contados a partir da chegada da TV, a incidência da prática de indução do vômito
para perder peso aumentou de 3% para 15% entre as adolescentes fijianas.4
Mais de mil estudos comprovam que a violência na televisão estimula a violência
fora dela. Nos EUA, Inglaterra e África do Sul constatou-se que o número de
homicídios cresceu assustadoramente cerca de dez anos após a introdução da
televisão, o tempo necessário para que a geração por ela “educada”
chegasse à adolescência. Pesquisas indicam que, apenas nos EUA, a televisão,
a cada ano, é responsável por dez mil assassinatos, setenta mil estupros e
setecentas mil agressões violentas. Estudos documentam amplamente que quanto
maior a exposição de uma criança a filmes violentos, maior a probabilidade de
ela tornar-se uma pessoa violenta. O estímulo à violência começa já nos
desenhos animados, a grande maioria dos quais a glorifica abertamente. Os
personagens são amassados, picados em pedacinhos, caem de grandes alturas,
explodem, são envenenados, atingidos por balas ou retalhados por arma branca e
no quadro seguinte estão novos em folha. Depois de ver um desenho de Bevis e
Butthead, um menino de cinco anos incendiou as roupas de sua irmã de dois anos,
que faleceu.
Experimente deixar seu filho sem ver televisão por três meses e observe seu
comportamento. Em seguida, libere a telinha por uma semana e... sinta a diferença!
O estímulo à violência através da televisão acaba acontecendo também em
decorrência da exibição ostensiva de um estilo de vida que, na realidade, é
restrito apenas a uma pequena minoria pertencente à elite econômica. Para a
classe média, o fato se constitui num estímulo à emulação de consumo, o
que, com freqüência, acaba levando a situações de endividamento. Para
aqueles que nada têm, é um apelo à violência. Acrescente-se ainda que, dessa
elite, as telas tendem a realçar precisamente a falta de padrões morais e tudo
o mais que nela há de pior.
A televisão brasileira estimula a prática da prostituição. Na
novela Laços de Família, a personagem principal era uma garota de
programa (eufemismo para prostituta de luxo). E Porto dos Milagres escancarava
as portas de um prostíbulo para toda a sociedade brasileira, inclusive crianças
pequenas. Assim, desde tenra idade, as pessoas habituam-se a encarar a prostituição
como uma ocupação normal. Já hoje temos relatos de mulheres brasileiras
assediadas no exterior ou discriminadas em países mais conservadores devido ao
teor de novelas que a Globo exporta fartamente. No Nordeste, o “turismo
sexual” é um fato. Será que o papel reservado ao Brasil, dentro da nova
ordem mundial da globalização, é o de prostíbulo? Os autores Lichter e
Rothman, em seu livro Prime Time, estudando seiscentos e vinte programas que
cobriam um período de trinta anos, concluíram que “mais do que simplesmente
refletir nossos valores sexuais mutantes, a televisão tem endossado essas mudanças
e acelerado a sua aceitação”. No ambiente sexual criado pela televisão,
sexo quase nada tem a ver com relacionamentos, comprometimentos, filhos ou doenças
sexualmente transmissíveis...

A televisão faz ainda a apologia do homossexualismo, que é mostrado como uma
opção sexual normal e até charmosa. Em dezembro de 2000, a revista Veja
publicou um artigo intitulado Fora do armário no qual se lê: “A nova ordem
nos seriados americanos é celebrar os estilos heterodoxos ou
‘alternativos’. Em vez de personagens bem comportados, a atual safra de
enlatados escolhe homossexuais, mães solteiras e divorciados como heróis”. O
seriado Queer as folk (Bichas como gente), por exemplo, apresenta em seu
primeiro episódio um executivo homossexual tendo relação sexual com um
rapazola de dezessete anos e, ato contínuo, indo à maternidade visitar seu
filho recém-nascido de uma lésbica por inseminação artificial. Considerando
o poder da televisão de influenciar os gostos e tendências da sociedade, em
pouco tempo tais comportamentos poderão passar a ser vistos como normais, se é
que isto já não acontece.
Uma pesquisa realizada no Brasil mostra que o público sente repulsa tanto pelo excesso de
violência (74,1%) como pelo de sexo (64,4%) na televisão. Resta saber, então,
por que motivo insiste-se em colocar ambos nas telas. Haverá por trás do fato
algum objetivo mais sinistro além do lucro?
O ex-todo-poderoso Antônio Carlos Magalhães, num momento de desabafo,
confessou que o que ele mais queria é ser dono da Globo. Não é difícil
entender a razão, afinal de contas, o senhor Roberto Marinho tem o poder de
fazer e desfazer presidentes, senadores, governadores, prefeitos e quantos
outros políticos quiser. Apenas para mencionar a mais flagrante ilustração
disto, lembremos a fabricação do “caçador de marajás” em 1989, a qual
levou Fernando Collor de Melo a ser eleito presidente da República. Sabe-se que
aquilo que se noticia ou que se deixa de noticiar, assim como a escolha do
momento e da forma como uma notícia é dada, podem definir os rumos de uma eleição.
Publicitários regiamente pagos, como o famoso Duda Mendonça, são contratados
para empurrar ao povo o mesmo velho peixe podre de sempre em épocas eleitorais.
Não por acaso, a insólita Igreja Universal do Reino de Deus comprou a rede
Record, o que lhe possibilitou colocá-la a serviço de seus interesses políticos.
A concessão de emissoras de televisão e rádio é moeda de troca em transações
escusas, que visam perpetuar no poder os mesmos políticos já eleitos
anteriormente. Em certa ocasião, o senador Pedro Simon, que chegou a presidir
uma subcomissão permanente sobre TV no Senado, confessou: “É difícil
parlamentares votarem algo que não seja do interesse das rádios e das televisões”.
O projeto de regulamentação das telecomunicações que foi apresentado no
Congresso omite-se sobre o conteúdo das programações veiculadas.
Click!
Agora que desligamos a televisão, aproveitemos este grato silêncio para
refletir. Haverá acaso alguma lei natural que determine que somente lixo possa
ser visto na TV? Enquanto as programações continuarem assim, a melhor tática
para conseguir ter uma vida minimamente sadia parece ser mesmo deixá-la
desligada.
É verdade que desligar a televisão pode não ser fácil, já que, para muitos,
ela se tornou uma droga insidiosa, provavelmente mais difícil de largar que o
fumo ou a bebida. Mas, para os que conseguem excluí-la de sua rotina – como
forma de protesto a uma programação nitidamente comprometida com a disseminação
de pseudovalores – a recompensa é grande, pois aponta no horizonte a
conquista de um raro grau de liberdade, acessível apenas a quem aprendeu a
controlar a própria vida.
Quanto mais senso crítico o público em geral souber manifestar, maiores serão
as chances de que, num futuro não muito distante, esse precioso veículo de
comunicação possa passar enfim a mãos idealistas. Assim tomado, tornar-se-á,
pela primeira vez na História, um instrumento a serviço do bem.
Notas
1. In: www.uol.br/imprensa/colunista/index.htm.
2.
Trad.: Quem quer ser um milionário?
3. Este parágrafo, assim como os três seguintes, foram extraídos da obra de
Cheryl Pawlowski.
4. In: www.mercola.com/1999/may/eating_disorder_symptoms_linked_to_tv.htm
Bibliografia
www.facom.usb.br
www.geocities.com/TelevisionCities/9150/
www.hebevirtual.com.br
www.mercola.com/1999/may/eating_disorder_symptoms_linked_to_tv.htm
www.uol.br/imprensa/colunista/index.htm.(Goulart, Alexander. Sílvio Santos e o
Show do Milhão). Imprensa do universo on line.
Pawlowski, Cheryl. Glued to the tube. Illinois, Source Books, Inc. Napierville,
2000.
Schor, Juliet B. The Overspent American: why we want what we don’t need,
Harper Collins, 1999.
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