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Zen
O espírito do Budismo
Bodhidharma - fundador do Zen
O dia de ano novo
nada bom ou mal
só
seres humanos.
Shiki
O Zen foi introduzido na China por
Bodhidharma no ano 527 d.C. Praticamente nada é conhecido de sua história na
Índia, e é provável que seu iniciador somente o tenha sugerido aos chineses e
que estes o tenham desenvolvido até conferir-lhe sua forma ímpar atual.
Historicamente,
o Zen pode ser considerado como o produto final de longas tradições nas
culturas indiana e chinesa, embora, atualmente, seja muito mais chinês do que
indiano e, desde o século XII, tenha se enraizado profundamente e de modo
extremamente criativo no Japão. Como fruto dessas grandes culturas e como
exemplo único e particularmente instrutivo de um caminho de libertação, o Zen
é uma das mais preciosas dádivas da Ásia ao mundo.
Diante da
pluralidade de afirmações a respeito da origem do Zen-budismo, cabe relatar
sua mais antiga manifestação, que remonta a um episódio ocorrido com o próprio
Buda. Um dia, ele ia fazer um discurso a dez mil discípulos e chegou com uma
flor em suas mãos. Mas nada disse. Ele apenas se sentou silenciosamente,
olhando para a flor. Isso continuou por dez, quinze, vinte minutos. Todos se
espantaram com o que Buda estava fazendo e começaram a ficar agitados. Afinal,
eram milhares de pessoas que haviam se deslocado de lugares distantes para
ouvi-lo e ele estava sentado olhando para a flor.
Após um tempo
prolongado de expectativa por parte dos discípulos, os quais já se sentiam
constrangidos pela demora do Mestre, que nada dizia, alguém riu. Buda levantou
os olhos e disse:
–
Mahakashyap, venha aqui.
Era justamente
a pessoa que havia rido. Essa é a única vez em que esse discípulo chega a ser
mencionado nas escrituras. Buda deu a flor a Mahakashyap e disse:
– Tudo o que
pode ser dito, eu já disse a todos; e tudo o que eu não disse, dou a
Mahakashyap.
Apenas o não
essencial, o superficial, o utilitário pode ser dito. A mais significativa
transferência de conhecimento somente é possível no silêncio.
Assentindo com
a cabeça, apenas o venerável Mahakashyap mostrou ter conseguido apreender e
sentir o significado do gesto do iluminado, que, logo após ter dado um sorriso,
retirou-se do local ainda sem ter dito palavra. O ambiente foi então inundado
de luz e todos desfrutaram de um estado de bem-aventurança e êxtase que nunca
havia sido sentido em seus discursos anteriores.
Comenta-se que
esse gesto do Buda teria inspirado os princípios do Zen-budismo. Por séculos,
o nome de Mahakashyap não foi mais mencionado. Então, mil e cem anos após o
ocorrido, uma pessoa na China declarou:
– Pertenço a
Mahakashyap, o homem a quem Buda deu a flor. Sou seu discípulo.
Essa pessoa era
Bodhidharma, que saiu da Índia em direção à China e que é o primeiro
patriarca do Zen-budismo.
– Tenho a
flor ainda fresca – dizia ele, referindo-se a algo que não pode deixar de
estar fresco nunca. Alguém lhe perguntou:
– Onde está
a flor?
Bodhidharma
respondeu:
– Está
diante de você. Eu sou aquela flor. Vim para encontrar a pessoa certa a quem
transferir a flor, porque vou partir em breve deste mundo.
Bodhidharma:
originalidade e rigor
De que árvore em flor
não sei
Mas ah, que
fragrância!
Matsu Bashô
A tradição
Zen representa Bodhidharma como um homem de aspecto feroz, com uma espessa barba
e de olhos muito abertos e penetrantes, nos quais, contudo, se insinua uma leve
sugestão de piscadela. Conta a lenda que uma vez, estando ele em meditação,
acabou adormecendo, e que ficou tão furioso com isso que cortou seus supercílios
e os lançou ao chão. Passados alguns dias, observou que no lugar em que os
havia jogado nascera uma planta. Era a mesma planta que, mais tarde, daria
origem ao chá preto, o qual permite a uma pessoa manter-se alerta por períodos
prolongados. Como o episódio ocorreu numa montanha chamada Ta, nome que também
se pronunciava tcha, essa bebida acabou recebendo as denominações de tea, thé,
té e chá, cada uma das quais usada numa língua. O chá preto passou a
proporcionar aos monges zen uma proteção contra o sono, e de tal modo ele
esclarece e revigora a mente que já foi dito que o gosto do Zen (ch’an) e o
gosto do chá (ch’a) são o mesmo.
Templo de Sama
ouço as flautas antigas
sob a sombra de
uma árvore
Matsu Bashô
Outra lenda
afirma que certa vez Bodhidharma se sentou em meditação durante tanto tempo
que lhe caíram as pernas. Provém daí o interessante simbolismo dos bonecos
japoneses denominados Daruma, que representam o Mestre como um gorducho de
pernas cruzadas. Esses bonecos têm um peso em seu interior o qual faz com que,
quando deitados abaixo, voltem sempre a ficar em pé (assim como nosso boneco
Sempre-em-pé). Acerca do Daruma, um popular poema japonês diz:
Jinsei nana
Korobi
Ya oki.
(Assim é a vida: sete vezes se cai, oito se levanta!)
Bodhidharma foi
à China há mil e quatrocentos anos. Quando lá chegou, carregava um de seus
sapatos na cabeça e levava o outro, normalmente, num dos pés. O imperador Wu
de Liang foi recebê-lo e, diante daquilo, sentiu-se embaraçado: que espécie
de homem era aquele? Esperara há tanto tempo por ele e sempre havia pensado
tratar-se de um homem sagrado, um grande santo, um sábio, mas agora Bodhidharma
se comportava como um bufão.
O imperador
ficou perturbado, inquieto, e na primeira oportunidade perguntou ao Mestre:
– O que está
fazendo? O povo está rindo e ri também de mim porque vim recebê-lo. Isso não
é maneira de se comportar como um santo!
Bodhidharma
respondeu então:
– Mas só
aqueles que não são santos comportam-se como santos. E eu sou um santo!
– Não posso
entender. Carregando esse sapato em sua cabeça você mais parece um bufão!
– Sim, porque
tudo o que é superficial é bufonaria. Você parado aí, por exemplo, como um
imperador, com esse manto, essa coroa, esse traje especial, está se comportando
como um verdadeiro bufão. E é só para lhe dizer isto que estou carregando
este sapato em minha cabeça. Tudo isso é representação. O real não está
nas aparências, na periferia. Olhe para mim, e não para meu corpo!
As flores caíram:
agora nossas mentes
estão
tranqüilas.
Koyû-ni
O imperador,
impressionado, ficou em silêncio a refletir sobre essas palavras. Uma vez
recobrado do impacto causado pelo ensinamento, pôs-se a descrever ao Mestre
tudo quanto havia feito para promover a prática do Budismo na China,
construindo templos, fazendo copiar as escrituras e ordenando monges. E depois
de tudo relatar-lhe a esse respeito, perguntou que mérito havia adquirido com
tal procedimento.
– Nenhum mérito,
em absoluto – respondeu Bodhidharma.
Chocado, Wu de
Liang, tendo em vista a concepção popular do Budismo, a qual ensinava que a
acumulação gradual de mérito só pode ocorrer através das boas ações,
perguntou:
– Mas, então,
qual é o primeiro princípio da sagrada doutrina?
– Esse princípio
existe em tudo. Não tem nada de sagrado.
– Então quem
é você para ficar em pé diante de mim?
– Não sei,
majestade.
Novamente, o
silêncio reinou no ambiente. O imperador, cada vez mais perplexo, procurava
compreender tudo o que estava acontecendo. Finalmente, encheu-se de coragem e
relatou ao Mestre o drama que o afligia:
– Eu só
quero perguntar-lhe uma coisa: o que devo fazer para aquietar minha mente? Sou tão
impaciente, tão perturbado, tão inquieto!
Bodhidharma
respondeu:
– Volte às
quatro horas da manhã e traga consigo sua mente. Eu a farei aquietar-se.
O imperador, atônito,
não acreditava no que estava ouvindo. Mas mesmo assim agradeceu e se retirou.
No momento em que estava saindo do templo onde se encontrava Bodhidharma,
ouviu-o dizer:
– Lembre-se,
traga a sua mente, senão a quem irei aquietar? E venha sozinho, sem guardas,
sem ninguém a acompanhá-lo.
O imperador não
conseguiu repousar por um segundo sequer. Pensava que não deveria ir, que
aquele homem deveria ser meio louco e poderia agredi-lo. E, além disso, que
história era essa de levar a mente? Claro que a mente dele estaria com ele!
Mas finalmente,
depois de debater-se por longo tempo em dúvidas, Wu de Liang resolveu ir,
porque Bodhidharma era realmente magnético. Havia em seus olhos algo que
impressionava, um fogo que não pertencia a este mundo. E a primeira coisa que o
Mestre lhe perguntou foi:
– Muito bem,
você veio. E onde está a sua mente?
– Quando vim,
minha mente veio comigo. Ela está dentro de mim, não é algo que eu carregue
como um pacote!
– Pois então
você pensa que sua mente está dentro de você... Agora sente-se, feche os
olhos e tente descobrir onde ela está. Aponte-a para mim e eu a apaziguarei.
O imperador
fechou os olhos e tentou encontrar sua mente. Bodhidharma estava sentado bem à
sua frente. Ele tentava, tentava e as horas iam passando. Quando o dia começou
a nascer, sua face estava silenciosa. Então ele abriu os olhos e Bodhidharma
lhe perguntou:
– Conseguiu
encontrá-la?
O imperador riu
e disse:
– Você a
serenou, porque quanto mais eu tentava encontrá-la, mais sentia que ela não
existia. Ela era só a minha ausência. Quando me tornei presente, ela
desapareceu!
Após esta
entrevista tão satisfatória para o imperador, Bodhidharma retirou-se para um
mosteiro em Wei, onde se diz que passou nove anos numa gruta contemplando uma
parede. Muitas pessoas acorreram a ele. E quando lhe perguntavam por que olhava
uma parede, ele respondia:
– Por toda a
minha vida olhei para os homens, mas nunca vi nos olhos deles algo além de uma
parede morta. Assim, decidi que é melhor olhar para a parede. A gente se sente
mais à vontade quando sabe que está olhando uma parede.
Um dia, um
homem veio procurá-lo. Era o monge Shen-Kuang, depois chamado Hui-K’o, que
viria a ser o seu sucessor, ou seja, o Segundo Patriarca, e solicitou-lhe ser
seu discípulo. No entanto, Bodhidharma se recusou a aceitá-lo. O monge não
desistiu, mas sentou-se do lado de fora da gruta e aguardou durante meses, no
relento e na neve, o atendimento do Mestre. Até que, um dia, acabou por cortar
o braço esquerdo e apresentá-lo a Bodhidharma em sinal de sua sinceridade.
Diante disso, este se sensibilizou e perguntou a Hui-K’o o que queria.
– Não tenho
paz na minha mente – disse ele – Por favor, pacifica-a.
Conta-se então
que o Mestre usou o mesmo recurso que usara com o imperador.
– Traga a sua
mente aqui, à minha presença, e pacificá-la-ei.
– Mas quando
busco a minha própria mente não consigo encontrá-la – respondeu-lhe
Hui-k’o.
– Ah, sim?
Pois então já consegui pacificá-la! – sentenciou Bodhidharma.
Nesse momento,
Hui-k’o teve o seu acordar, o seu satori.
Esse método de
instrução utilizado pelo iniciador do Zen-budismo, o wen-ta
(pergunta-resposta), algumas vezes chamado de história Zen, tornou-se característico
do Zen. A maior parte da literatura Zen consiste nessas historietas, muitas
delas bastante mais enigmáticas que esta, cada uma das quais destina-se a
provocar algum tipo de súbita compreensão na mente do leitor. Por esse motivo,
elas não podem ser explicadas sem que se lhes estrague o efeito. Em alguns
aspectos, são como as anedotas que não produzem o efeito humorístico almejado
quando a frase-chave requer explicação. Ou se percebe a graça delas ou não
se percebe.
Natureza do
Zen
Uma criança olhando
as flores que caem
com a boca aberta
é
um Buda.
Kubutsu
Trabalho difícil,
senão impossível, é definir o Zen. Ao que tudo indica, ele desafia todas as
designações. Não se trata de religião, seita ou filosofia. Não há no Zen
livros sagrados ou assertivas dogmáticas nem qualquer fórmula simbólica que dê
acesso à sua significação. O Zen está livre de todos os entraves dogmáticos,
religiosos e filosóficos. O Zen tampouco é meditação. Mas quando se afirma
que o Zen não tem filosofia, que nega toda autoridade doutrinária e que põe
de lado toda a literatura sagrada por considerá-la inútil, não se pode
esquecer que, com essa negativa, ele está sustentando algo completamente
positivo e eternamente afirmativo.
A idéia básica
do Zen é permitir ao homem entrar em contato com seu ser da maneira mais direta
possível. Nesse sentido, aproxima-se de uma técnica voltada à introspecção
espiritual. Eis algumas frases que ilustram o espírito do Zen:
Observai a pá
nas minhas mãos vazias.
Enquanto montado num touro vou andando a pé.
Quando passo sobre a ponte não é a água que corre, e sim a ponte.
Nada pode ser
mais ilógico e contrário ao senso comum do que estas linhas. Ao lê-las,
muitos poderão tachar o Zen de absurdo e confuso. O Zen, no entanto, nada tem
de confuso ou absurdo. O que nele parece às vezes não fazer sentido são
apenas estratégias para mostrar que a razão pela qual não podemos alcançar
uma completa compreensão da verdade é a nossa irracional adesão a uma
interpretação lógica das coisas. Se realmente quisermos atingir o âmago da
vida, teremos que abandonar nossos silogismos e escapar à tirania do raciocínio
dedutivo.
Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago!
Matsuo Bashô
Por mais que
isto possa parecer paradoxal, o Zen insiste em que devemos manter a pá nas
nossas mãos vazias e em que não é a água, mas sim a ponte, que flui sob
nossos pés. Ao desvincular-se da tirania da lógica, o homem alcança uma maior
emancipação de espírito, liberta-se de condicionamentos impostos durante toda
a sua existência. O Zen mostra que temos que conquistar um novo ponto de vista
que nos permita compreender a vida espiritualmente, ou seja, tendo sempre em
vista que ela é regida pelo mistério.
Abrindo de par em par
as portas do palácio,
a
Primavera.
Matsuo Bashô
Infelizmente, a
lógica embebeu de tal modo a vida humana que a maior parte dos homens supõem
que sem ela não existiria vida, ou, ainda, que ela é a própria sustentação
da vida. As pessoas que se encontram dominadas pela lógica estão empunhando
uma pá e não a estão empunhando, embora não estejam conscientes deste fato.
Imaginam que suas vidas são lógica e matematicamente reguladas e não percebem
que pensar assim é como concluir que dois e dois são três ou então cinco.
Uma velha sem dentes
que rejuvenesce:
cerejeira
em flor.
Matsuo Bashô
O Zen ensina
sem ensinar no sentido convencional. Não se trata de uma disciplina didática,
com tom professoral. Ele pode ensinar através do silêncio, de uma não-resposta
ou de um recurso totalmente imprevisível. Em síntese, na grande maioria das
vezes ensina através de um choque, pois é através do choque que a mente pode
ser aquietada. Quanto maior for a busca do discípulo, mais efeito o choque terá
sobre ele. Quanto mais sincero e quanto mais vergonha for capaz de sentir, maior
facilidade terá para assimilar e reconhecer ensinamentos ocultos. Mas, por
outro lado, quanto maior sua resistência e preconceito, mais difícil será
para ele assimilá-los.
Despertar vivo neste
mundo,
que felicidade!
A
chuva de inverno...
Shôha
O Zen é uma
forma que os Mestres encontraram para interromper o fluxo dos pensamentos
descontrolados dos iniciantes, fruto de uma insaciabilidade mental que os levava
a fazer uma série de incessantes indagações. As respostas imprevisíveis, e
muitas vezes até mesmo sem sentido por parte dos Mestres, os chocavam e os
levavam a refletir sobre o estado em que se encontravam. Dessa forma, ao invés
de se sujeitarem às provocações, impertinências e afrontas dos discípulos,
os Mestres se utilizavam de recursos capazes de arranhar e até nocautear a
arrogância dos mesmos, e conseguiam assim reverter o impasse inicial em favor
da harmonia e do bem-estar de todos.
O
homem e o touro na caminhada zen
A
caminhada espiritual do discípulo é ilustrada pelo Zen através de uma antiga
e célebre alegoria intitulada Apascentando o touro. É impossível penetrar os
seus sentidos através de hipóteses ou pontos de vista lógicos. A iluminação
não se subordina a nenhuma forma de pensamento e, sendo assim, jamais é alcançada
através de deduções, cognição ou elaboração de conceitos. Só mesmo
quando a mente se esvazia de toda espécie de abstrações é que o olhar pode
ser livre, independente, espontâneo, natural e sereno, como o do homem que
recebeu a luz da espiritualidade. A seguir, reproduzimos na íntegra uma versão
dessa alegoria segundo a obra O Zen e a Oaska do Mestre Joaquim José de Andrade
Neto. Os dez quadros distintos que a compõem representam as dez etapas do
processo da Iniciação espiritual.
PROCURANDO O TOURO
Como
viajeiro caminhante
em andrajos, sedento e faminto,
subo montanhas distantes,fugindo de labirintos.
Por trilhas e sendas errantes,
constantes privações enfrento
buscando um touro que pressinto
ser a causa de meu tormento.
O
homem que até então vivia engolfado no mundo material manifesta os primeiros
lampejos de consciência, os primeiros sinais de estar transcendendo a ilusão.
Ele procura agora a resposta para o sentido de sua existência. Busca,
incessantemente, conhecer a causa de todos os problemas. Sente-se exilado de sua
casa, de seu próprio ser, e pressente que esse exílio provenha de um estado de
dormência espiritual. O anseio de encontrar o touro – conhecendo a origem do
mal – é o primeiro sinal de que um homem se encontra preparado para seguir no
caminho da espiritualidade.

RASTREANDO O TOURO
Examinando
o chão,
consultando os astros,
sob grande tensão
busco encontrá-lo nos rastros.
Serão essas suas pegadas?
Ou será mais uma decepção,
nova pista errada
nessa incansável jornada?
O
rastreamento do touro representa o estágio que precede a Iniciação. Trata-se
de uma etapa marcada pelas frustrações diante das falsas pegadas que acabaram
por levar o buscador a falsos mestres ou a falsos meios de iluminação, como a
ciência profana, a astrologia, as crenças, os dogmas, os ritos e as magias.
Este é o momento em que tem início o processo de desilusão, que permitirá
discernir entre o falso e o verdadeiro, entre a mentira e a verdade. Trata-se de
uma etapa necessária e imprescindível, porque o homem só desfruta realmente
dos benefícios da verdade quando já conheceu o sofrimento causado pela
mentira.

ENCONTRANDO O
TOURO
Um
dia, porém, quando a alvorada
as trevas com sua luz rompia,
eis que um encontro tive
com o touro na pradaria.
De repente, indômito e feroz bufando,
o olhar selvagem a mim voltando,
permitiu-me, perplexo, reconhecer
nele meu rebelde e descontrolado ser.
No
momento em que encontra o touro, o homem descobre seu próprio descontrole
mental. Pela primeira vez compreende que a causa de todos os seus problemas é
uma grande subversão que imperava em seu mundo interior: a mente, que deveria
estar na condição de escrava, fazia, no entanto, papel de senhor e amo. E o
espírito, cujo posto deve ser a vanguarda, angustiava-se, fora de lugar, na
retaguarda. Nesse momento da mais alta importância, o discípulo consegue começar
a dirigir sua atenção a si mesmo, ao seu eu verdadeiro, e deixa então de
identificar-se com sua imagem, com aquilo que parece ser aos outros.

CAPTURANDO O TOURO
Como
agarrar algo que nos oferece perigo?
Como nos aproximar do mais terrível inimigo?
Corcoveia ele, e escapar por todos os meios
tenta, procurando esquivar-se dos freios.
Mas de dominá-lo tamanha é a vontade
e tão grande de conhecê-lo a necessidade
que do medo me livro, e torno-me caçador
daquele de que devo ser amo e senhor.
A
captura do touro simboliza o início de um dos mais importantes processos na
vida de um homem: o da aquisição do domínio sobre a mente. Tornar-se amo do
touro representa a decisão do discípulo de tornar-se um vigilante de sua
mente. Essa decisão é tomada quando ele descobre que nela reside a causa de
todo o seu sofrimento. A partir de então, começa a despertar, começa a
compreender a supremacia do espírito sobre ela.

AMANSANDO O TOURO
Colocado
no touro o laço forte
para que do caminho não se desvie
o destino favorece-me pela sorte
e um sol que meus passos guie
encontro afinal em direção ao norte.
Mas de meu domínio procura ele escapar!
Para grutas escuras fugir ameaça
e em abismos profundos quer se lançar!
O
amansamento do touro corresponde ao processo de dominação da mente
propriamente dito, e representa o perene desafio que o discípulo terá pela
frente, as lutas que precisará travar consigo mesmo em seu cotidiano. É o
marco da Iniciação espiritual, o sinal da presença da luz na vida do
iniciado. Mas este, ao mesmo tempo em que se sente beneficiado pela descoberta,
uma das mais importantes e úteis de sua vida, percebe que estar ciente dos
perigos que a mente representa não é suficiente: é preciso mantê-la
constantemente sob controle, pois somente assim será possível desmanchar os
ardis que ela lhe arma no intuito de desviá-lo do caminho.

MONTADO NO TOURO, RETORNA PARA CASA
Finalmente,
após uma longa trajetória
observando do touro a atuação
aprendendo com derrotas e vitórias
e domando-o como a um feroz leão,
monto-o afinal, ao som de doce melodia
que minha flauta produz na forma de canção.
E assim, atravessando a cercania,
volto para casa, conhecedor de sua direção.
O
touro, que o discípulo procurava fora de si, está, na verdade, dentro dele.
Tendo aprendido a dominá-lo, ou seja, tendo aprendido a controlar “a fera”
interior através da melodia que emana da presença de espírito, o homem volta
então para casa, agora já libertado do jugo da mente e das paixões mundanas.
Livre e sereno, seu ser emite sons que têm, sobre seu estado mental, o efeito
de um verdadeiro aboio. É através desses sons que o discípulo pacifica o
touro, isto é, que ele serena a própria mente. O ato de “montar” a mente
legitima a condição do espírito de amo e senhor. Somente quando o touro está
devidamente domado é que o homem consegue montá-lo e voltar para casa. Assim
também, a essência humana só é atingida – e a iluminação alcançada –
quando a mente se encontra sob o comando do espírito.

TRANSCENDENDO O TOURO
E
ao chegar em casa, suspiro aliviado.
Desfaço-me da corda, do chicote e do laço
e, sereno, sento-me, desfrutando, extasiado,
de um estado total de desembaraço.
Vai-se então o touro, como eu, sereno,
descoberto, reconhecido e domado,
e tendo cumprido seu trabalho pleno,
faz-me sentir agora bem-aventurado.
Nesta
etapa, o touro deixa de ter importância, tal qual um barco utilizado para
atravessar um rio deixa de nos ser útil ao atingirmos a outra margem. O
iniciado agora experiencia o êxtase da unidade que lhe é inerente. Havendo
transcendido a dualidade, sente-se como parte indestrutível da vida, e nem a
morte o assusta. Os conceitos de bem e de mal foram ultrapassados, só existe a
Luz. Nesse momento ocorre a solidão vital, pois é somente sozinho que o homem
pode contemplar o próprio ser e ouvir a melodia que dele emana.

TRANSCENDENDO O TOURO
E O PRÓPRIO SER
Já
não me lembro dos dias tormentosos
perambulando por atalhos tortuosos
buscando a causa de meus problemas.
Agora findaram-se todos os dilemas
tenho a mente já pacificada
e a minha conduta reeducada.
Nada peço ou desejo – sinto-me liberto
desfrutando da alegria de me manter desperto.
O
vazio equivale à pureza. Não há manchas, só luz. A iluminação impera, a
mediocridade desapareceu e o espírito está livre de limitações. Todo
sofrimento foi ultrapassado e ele está em paz. Iluminado e atento, o discípulo
segue pelo caminho reto e já nada busca, pois se sente plenamente satisfeito.

UNINDO-SE À FONTE
Sinto
a Paz de me unir à Fonte,
a Luz e o Amor que provêm do horizonte.
Não há dentro ou fora, cá ou lá,
passado ou futuro, depois ou já.
Não há mal ou bem, sujeito ou objeto.
Sou uno com a vida, um ser completo.
O amor é uma ordem, inunda-me pleno,
e todo o meu ser repousa, absolutamente sereno.
Nesta
etapa, o merecido repouso do iniciado vem coroar o cumprimento de todas as
etapas anteriores.

RETORNANDO AO MUNDO PARA
ATENDER AOS HOMENS
Agora
sinto-me pronto e preparado
para com açougueiros e bêbados conviver,
homens rudes, abrutalhados,
necessitando aprender a viver.
Cada um deles sonha com a bonança;
e a luz de Deus que através de mim emana
os faz vislumbrar as benesses do Nirvana
e eles se rendem à necessária mudança.
Por
fim, o iniciado se torna um Mestre e está preparado para voltar ao mundo das
tentações, agora com a missão de auxiliar os homens, de iluminá-los e
estimulá-los a seguir os mesmos passos que ele próprio seguiu.
No
início de minha caminhada
as árvores não passavam de árvores,
as montanhas não passavam de montanhas
e os homens eram meramente homens.
Ao tentar domar o touro, fui levado a crer
que as árvores não eram mais árvores
as montanhas não eram montanhas
e que os homens não eram mais homens.
Mas pacificada a mente, meu espírito iluminou-se
e compreendi a beleza e a grandeza
do fato de as árvores serem árvores
as montanhas serem montanhas
e os homens serem homens.
O
iniciado, agora na condição de Mestre, rememora seu passado e se alegra com as
transformações vividas: ele sabe ter passado da dormência a um estado de atenção
graças à vitória de seu espírito sobre a mente.
Quando ainda inconsciente espiritualmente, desconhecia sua relação mágica com
o universo e encarava sua própria condição humana, os outros homens e o meio
circundante com absoluta indiferença. Mas depois, quando já começava a
despertar, seus velhos conceitos foram sendo substituídos por novos, e houve um
grande choque entre aquilo que ele achava que era e o que realmente é. Num
terceiro momento, tendo o iniciado já alcançado a consciência espiritual e
estando portanto preparado para compreender a relação entre o homem e a
natureza, uma árvore é para ele uma árvore em sua plenitude, e sua existência
se revela, a seus olhos, como uma graça concedida à espécie humana: a sombra
que se abre ao viajante cansado, os frutos que aplacam sua sede e fome, as
flores coloridas que embelezam a paisagem lhe inspiram admiração e respeito.
Regar suas raízes, podar seus galhos e mantê-la sadia são formas de
retribuir-lhe o amor silencioso que dela emana. Da mesma forma, uma montanha é,
para o iniciado, uma montanha em sua plenitude, algo não menos digno de
respeito e admiração do que uma árvore. Escalando-a em direção ao topo ele
tem o campo de visão ampliado, e só esse fato já é suficiente para
infundir-lhe profunda gratidão por sua existência. Finalmente, um homem é
visto por ele como aquilo que é: um homem, e não um animal. Deve, pois, fazer
jus a essa condição, diferenciada da de todos os outros seres da Terra pelo
dom de alcançar a consciência, procurando honrá-la com dignidade a cada
instante.
Bibliografia
Andrade
Neto, Joaquim, J. O Zen e a Oaska,
Campinas, Sama Editora.
Bashô et alii. Haiku
de las Estaciones. Selection
de
A.
Manzano e T. Takagi. Visión Livros. 1985.
Bashô, Matsuo. O Gosto solitário do Orvalho. Lisboa, Assírio
e Alvim, 1986.
Hammitzsch, Horst. O Zen na arte da Cerimônia. Trad. A.
Mutzenbecher. São Paulo, Pensamento, 1987.
Sendas
de Ôku. Matsuo Bashô. Trad. Olga Savary. Roswitha Kempf Editores,
1986.
Susuki,
Daisetz T. Introduction to Zen Budism. New York, Causeway Books, 1974.
Imagens
Pág. 173: Ilustração:
monge Hakuin (1685-1768)
Gravuras
da alegoria do Touro: Kaku-an
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