Apolo
O portador
da Luz


Diante da realização das Olimpíadas na Grécia no ano de 2004, acontecimento também denominado, no século XVI a.C., Jogos da Paz, pela sua força de conseguir interromper as guerras entre as cidades-Estado na chamada trégua sagrada, ocorreu-nos prestar uma homenagem ao deus da beleza, inspirador dos que conquistam a vitória nesses célebres certâmenes que hoje em dia mobilizam o mundo: Apolo. Sua figura reúne em si os mais elevados atributos de virtude e elevação do espírito, e, nesse sentido, nosso entusiasmo seria maior se a celebração das Olimpíadas, além de proporcionar ao mundo uma rara expressão de beleza, onde a força e a destreza física se fazem presentes e são realçadas no seu mais elevado grau, fizesse recordar aos homens os predicados espirituais deste encantador mensageiro do Sol. Porém, o esquecimento dos ensinos do mestre do Olimpo pelos homens é constatável na nossa sociedade contemporânea principalmente pelo fato de toda a mobilização mundial direcionada a esses antigos jogos estar restrita, exclusivamente, ao culto ao corpo. Além disso, os interesses políticos e financeiros, que visam a vultosos lucros, acabam soterrando o espírito apolíneo, ou seja, o conjunto harmônico de qualidades morais e práticas espirituais, tão raras hoje em dia, em função de um comportamento mamonista. As Olimpíadas deveriam inspirar, através da beleza, da coragem e do vigor nela expressos, as maravilhas do Olimpo, ou seja, todos os dramas da vida dos homens e dos deuses, sempre em busca da perfeição. Assim como no plano físico surge, através das provas, a possibilidade de vitória, também no plano espiritual deveria ocorrer o mesmo sob a inspiração de Apolo; e, então, o maior e mais eclético acontecimento mundial poderia fazer jus ao deus brilhante da claridade do dia que se revelava no Sol. Trazemos à luz as esquecidas virtudes de Apolo, as quais, para nós, são um convite à prática de seu exemplo.


Ninguém como Apolo encarna melhor o segredo profundo da antiga Grécia.
É ele o filho favorito de Zeus, iniciador e guardião das Artes, guia e senhor das musas inspiradas e inspiradoras, deusas das fontes e nascentes, e guardiãs das águas. Filhas de Zeus (o qual é representante da Ordem universal e pai dos deuses e dos homens) e de Mnemósine, a memória (a qual é filha de Urano e Gaia, ou seja, do Céu e da Terra), as nove musas são consideradas mães dos poetas e cantores. Por sua vez, Apolo, progenitor de Orfeu, é o pai dos humanos agraciados com dons artísticos. É o deus que cria ordem com o seu canto e com a música de sua lira e é, por isso mesmo, digno de admiração pelos artistas, os quais, sob sua inspiração, não podem se imaginar com mais magnetismo.
Apolo representa a mais alta consciência espiritual: justo, é o dirigente ideal, sendo temido e respeitado; sábio, é um decifrador dos obscuros terrores e angústias deste mundo, os quais consegue dissipar como névoas; senhor da medida, prima pelo comedimento, equilíbrio, noção de distância e limites.
Em todas as ocasiões em que é cultuado ele expande a alegria, a qual provém da condição festiva de sua natureza. É Apolo o deus que outorga a vitória nos certâmenes de ginástica olímpica, e é ele também o fundador de Estados, o legislador das Constituições e o guia das rodovias, além de clarividente, médico e doador da fertilidade. Para os gregos, todas essas qualidades eram sobrenaturais, inacessíveis aos homens, pois representavam dons divinos que se manifestavam nos humanos por obra dos deuses. Assim, os mortais inspirados pelas musas ou por Apolo assumiam um caráter verdadeiramente sagrado.
Enfim, os inúmeros atributos do deus, todos provenientes de uma beleza espiritual que se reflete também em sua beleza física, representam o homem inspirado por uma Força Superior e, por isso mesmo, evoluído e iluminado. Falar deles equivale a delinear os traços do homem elevado espiritualmente, e, nesse sentido, sua surpreendente figura não deve ser interpretada exclusivamente como mito ou personagem lendário. Ele simboliza, antes de tudo, o modelo a ser seguido, o homem universal, o que vive em permanente estado de luz por se guiar pela consciência. É arquétipo da auto-realização humana e referência obrigatória dos que fazem da evolução espiritual a meta máxima de suas vidas.
Sua força exterioriza-se em todas as situações em que o ser humano pode acordar à consciência do belo. Seus atributos reavivam, nos dotados de sensibilidade, a memória em relação aos seus ideais mais recônditos, ou seja, as elevadas aspirações humanas que se encontram latentes no ser. Isso porque eles representam, sobretudo, um estímulo e um sopro de vigor no espírito, no sentido de fazê-lo aspirar a atingi-los um dia e poder, então, viver permanentemente desfrutando de seus efeitos.
Apolo é o deus da vida ordenada pelas musas – deusas que personificam e comandam o pensamento em todas as suas formas – e, como tal, amigo de suas obras no seu sentido mais amplo, uma vez que a vida em si é arte excelsa. Sendo hostil a todo o turvo, lôbrego e confuso, brota dele uma corrente de luz que derrama claridade áurea acima do escuro, criando, dessa maneira, a ordem.
Sua consciência espiritual continuamente adquire coerência e visão de conjunto, opondo-se a todo o indeciso, ambíguo e oscilante. O que fica indeterminado, o que está submetido à dúvida e ilude a decisão, não tem lugar em seu caminho. Por isso jamais encontraremos Apolo nos reinos intermediários nos quais se demora o pensar, lá onde as quimeras aparecem e desaparecem perante nossos olhos. O reino que ele governa não é o da utopia, pois o deus é ativo pela consciência. Esta representa um poder que elimina a pesada resistência ao bem e que se manifesta pela capacidade de ordenar, de tornar transparentes as circunstâncias difíceis e opressoras que acossam o ser humano. Assim, ele coopera com o mundo e conosco, nos comunica sua destreza e sua segurança, próprias de um pé destinado à dança. Se por uma fina parede divisória nota-se um mundo que resulta inexplicável, cheio de horrores e de visões espantosas, difíceis de serem suportadas até pelos mais valentes, Apolo liberta os homens de tal angústia e dá-lhes confiança.
O que nos fala através de Apolo é a espiritualidade expressa na forma, e tudo o que dele procede tem uma forma sublime, rigorosa. A forma é, por definição, toda união de partes para construir um todo. E o modo de se estabelecer essa união é que define a existência da beleza na forma. Quando nos deparamos com o informe, o tosco, não sentimos deleite; a única coisa que se pode notar é a carga que dele provém, o peso que nele habita. O informe, o notamos nas formas ruins, fracassadas, nas quais passam aquelas brechas e desigualdades que indicam uma união defeituosa. Quando os homens estão rendidos pela fadiga, sentem o peso das coisas e a carga do mundo. Mas quando seus espíritos se sentem livres, suspeitam que tal peso seja fruto unicamente de um engano, de uma ilusão, e que o mundo seja tão leve quanto uma pluma. Apolo pode auxiliá-los a ter essa sensação. Sua maestria consiste em tratar com brincalhona ligeireza o pesado, uma vez que para ele não existe nada pesado. Nele não existe nada fatigante, nada forçado, e tampouco fracasso algum.
Apolo é o mais sereno dos deuses, o mais radiante na sua serenidade, é um sondador e decifrador dos obscuros terrores e angústias desse mundo, os quais, perante a sua mirada, dissipam-se como névoas. Porém, o que se chama de serenidade apolínea freqüentemente constitui um mal-entendido. Para chegar a ser partícipe dessa serenidade, necessita-se de liberdade espiritual; é o equilibrar-se do espírito e o vôo livre, através do qual se chega à suspensão, ou seja, a uma compreensão mais elevada. Sua serenidade tem a natureza do fogo claro. É uma serenidade vazia de nostalgia, que se basta a si mesma. A nostalgia concebida como lembrança do passado apodera-se do ser humano pela noção da perda sofrida. Se a remetemos ao futuro, ela também provém da sensação da carência. Portanto, a nostalgia é a sensação de tempo ruim porque nega o presente. O homem nostálgico não é sereno. Em seus lábios, há o sabor antecipado da doçura e também o sabor posterior que esta deixa. Por isso mesmo, ele não encontrará um acesso ao deus: Apolo é totalmente vazio de nostalgias, e livre, portanto, da noção de perda, de cargas do passado e de expectativas em relação ao futuro.
Apolo não é, como muitos pensam, o contrário de Dionísio, mas sim uma unidade, onde um é uma parte distinta do outro. Formando um complexo contínuo de luta, surgem estes dois elementos: o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco.
Apolo foi o grande harmonizador dos contrários, por ele assumidos e integrados num aspecto novo. A serenidade apolínea torna-se, assim, o emblema da perfeição do espírito. Ele reconhece no devir, no fluxo das coisas, a verdadeira dimensão dos fatos: a vida é um jogo constante atirada ao destino de suas forças; porém, ela se nutre do saber que tudo, em essência, é uno. A vida e a morte são irmãs gêmeas arrastadas num ciclo misterioso. Tudo o que está embaixo ocorre como no alto. O apolíneo e o dionisíaco têm entre eles um movimento incessante, o que há de vir. E este produz formas. Eles, através desse movimento, atuam unidos para produzir e manter o mundo. Portanto, temos a unidade do Apolíneo com o Dionisíaco, juntos, formando o devir, a vida.
Nietzsche, em sua obra O nascimento da Tragédia, descobre na tragédia grega a oposição da forma à corrente amorfa, a que chama oposição entre o apolíneo e o dionisíaco. Servindo-se desta diferença, evolui seu pensamento e integra o apolíneo no dionisíaco, afirmando que o apolíneo não pode existir isoladamente, mas sempre suscita naturalmente o dionisíaco. São dois princípios complementares através dos quais a vida se manifesta, e que portanto estão ligados indissoluvelmente, assim como a inspiração e a expiração.
É mister esclarecer que não nos referimos aqui ao estado dionisíaco promíscuo, selvagem, deturpado e embriagado, absolutamente equivocado, que se costuma afirmar sobre a influência do deus. Falamos do Dionísio dos Mistérios, que foi dilacerado transformando-se em água, ar, fogo e terra. Seu dilaceramento simboliza a formação de toda a natureza através desse renascimento em sua integridade original, restabelecendo a unidade de tudo o quanto existe. Ele representa o íntimo anseio de todo indivíduo por romper o pequeno círculo egoístico e solitário em que vive encerrado, por dissolver os limites de sua personalidade cotidiana, e reatar assim antigos e profundos laços que o ligam a todos os seres humanos, a todo o mundo, à vida, à natureza em geral e ao Sagrado. Esse é o chamado êxtase dionisíaco: é verdadeiramente vivenciar esse renascimento e essa religação com a Origem, o Sagrado, a qual faz transbordar de alegria os corações dos homens, rendidos pelo poder da perfeita união.
Apolo é um deus que traça fronteiras, que está atento às distinções, senhor da medida e do equilíbrio. Seu mérito consiste em prevenir o espírito humano contra as violações de fronteiras e os excessos. Por isso mesmo, vigia os olhos, pois sem eles é fácil confundir-se tanto em relação ao demasiado grande como ao demasiado pequeno.
Apolo outorga o dom da intuição, e esse atributo é incompatível com o fanatismo. A serenidade, a calma de espírito e a consciência clara, que são próprias tanto de Apolo como do homem apolíneo, não são encontráveis nos locais onde irrompem o desmesurado, o selvagem e o informe, pois ele é o amigo da força que se sujeita e se doma a si mesma. O gigantesco, o titânico e o ciclope resultam esquisitos e repulsivos ao seu ser.
Apolo não está voltado para o feio e incompleto. O que lhe causa deleite é o belo e perfeito, concluído. Por isso ele é o deus da finitude inundada de luz, ponto em que o ser humano toma consciência de si mesmo e de seus limites. O infinito não é alvo de suas ocupações, mas se o fosse, não seria como aspiração insaciável e geradora de desassossego. Apolo é imortal, mas essa imortalidade não é infinita no espaço, nem eterna no tempo: é presente na sua luminosa e resplandecente existência. O que torna palpável essa imortalidade é o ato de viver cada instante como se fosse o único.
Ele comunica aos homens a sua própria claridade ordenadora, a luminosidade cristalina de seu espírito produtor de formas e de vitalidade. Em seu reino não existe nada morto, nada rígido; nele tudo está vivo, toda vida tem consciência. Nele não há oposição entre o espírito e a natureza, pois o florescimento e o esbanjamento das formas são eles próprios espirituais. O claro caráter festivo da vida, a sensação do frescor do crescimento: isso é o que emana do seu ser e que é cantado pelos poetas em sua homenagem.
O entusiasmo que Apolo desperta é o saber vigilante, e a felicidade que ele comunica brota da claridade da inteligência espiritual; e, dessa forma, ele impregna a vida inteira e influencia beneficamente todos os estados de espírito, tanto o de soberania, que é desfrutado por um príncipe, como o de simplicidade, que caracteriza a existência do campesino vivida ao ar livre sob os raios do sol. É um prolongado estado feliz que se baseia na serenidade espiritual, na sobriedade conquistada pelo espírito. É a realização do homem bem constituído, que atua partindo da harmonia das suas forças e que vibra em sintonia com toda a Natureza.
Em todos os lugares onde está Apolo ou onde quer que reine o espírito apolíneo há ordem, pois rapidamente ele traz luz ao caos. E isto ocorre não só devido à sua capacidade de tornar clara a conexão mecânica e esquemática das coisas, mas também, e principalmente, pela força e vigor de seu espírito, o qual estabelece domínio, realiza poder, estabelece leis. Por isso é também deus do Estado e da Constituição estatal, sendo ele quem decide a respeito da legislação e da jurisdição. Isso nos indica que tais coisas devem estar sob o comando do espírito provido dos atributos necessários para este mister tão importante de governar um Estado, um país, e de aplicar leis e julgar pessoas. É ele fundador de cidades e, na condição de arquiteto-artista, estas são equilibradas: nem demasiado grandes nem demasiado pequenas, apresentando uma proporção adequada entre o território e a população. Essas comunidades que se encontram submetidas a ele são construções espirituais e livres. Por ser ele o guardião das ousadias, em todas as partes favorece a comunidade espiritual frente às exigências da comunidade de sangue. Uma consciência de crescimento alegre, de êxito e realizações afortunadas penetra no homem apolíneo. Sob seu governo, o difícil resulta fácil; e o pesado, leve.
Proclama Apolo, com a máxima claridade, a condição superior de todo o plano da espiritualidade, pois em seu ser esse plano fica visível como poder independente, invencível. Serve de exemplo o fato de ter sido o seu oráculo o que designou Sócrates como o mais sábio dos gregos. É ele inimigo de todo o grosseiro, de toda a escravidão violenta do pensar e de toda barbárie.
É o favorito de Zeus e anuncia a vontade deste, pois é conhecedor do justo e do verdadeiro e não está sujeito à ilusão. Por isso é inútil tentar enganá-lo ou induzi-lo ao erro, pois o engano não o alcança nem o toca. Tampouco é complacente com a mentira e a astúcia, e é esse traço que o distingue de sua irmã Atená, a qual estende sua proteção sobre os subterfúgios, escusas e simulações, e se regozija diante das astúcias dos cínicos. Apolo definitivamente não é um deus dos ardilosos, como Hermes, mas sim um deus que penetra como um raio de luz que cai reto.
Sua música e a de seus discípulos encantam não apenas pela sua sublime eufonia, mas também por transmitir o conhecimento de que essa eufonia é conseqüência de uma ordem de medidas, e de que a assistência do deus é o que faz com que essa ordem apareça em todas as partes, tanto na Constituição estatal quanto na arte. O significado social da música encontra-se relacionado com o fato dela estar diretamente ligada ao Estado, à sociedade, influenciando-os. O grego Damón, músico exímio e amigo íntimo de Péricles, afirmava que não se muda a música sem que se produzam mudanças sociais. O Estado bem ordenado revela-se também na arte dos sons, e as inovações desta repercutem necessariamente sobre o Estado. Assim é que a introdução de um novo estilo musical pode levar a situações que afetam o Estado, e quando esse estilo é de mau gosto, pode criar confusão, revolta, afetando a conduta de um povo e rebaixando seu senso de respeito, harmonia e beleza, fato esse absolutamente constatável nos dias atuais.
Apolo é um deus curador que afugenta as doenças, médico e adivinho-médico. O grande número de locais de cura com banhos medicinais, na Grécia, mostra sua íntima relação com a medicina desse lugar. Não é apenas o médico-clarividente que proporciona, com o seu oráculo, remédios contra as epidemias: é curador de todo o ser. É dessa forma que elimina os males que estropiam o espírito e o ânimo dos homens. Sua força curadora não resulta de uma medicina ou terapêutica especiais, extraordinárias, mas sim do fato de conduzir o doente ao autoconhecimento, à disciplina. Este, sob sua orientação, encontra condições de se curar por receber os benéficos e saneadores eflúvios da saúde do deus.
Um dos meios para se ultrapassar os obstáculos do cotidiano é através da experiência apolínea, através da satisfação e da eternidade. A verdadeira arte pode proporcionar essa experiência. Sem a produção do belo, a vida se desqualifica, pois a beleza é uma verdade superior. E quanto mais bela a forma, mais se compreenderá a eternidade.
Ao deus que nasceu no sétimo dia do mês da primavera, entoam-se cantos de dança como os ligeiros pírricos originários de Creta. Nesses cantos, não há efusões de melancólicas queixas pela caducidade da vida, mas sim entusiasmo e alegria. São canções joviais, festivas e cheias de gozo pelo presente. O seu som claro, ligeiro e brincalhão dá ânimo, outorga agilidade de espírito e deixa soltos os pés. Os cantos pírricos de dança desempenham um importante papel na educação e nas artes das musas.
No entanto, lembremos que Apolo não gosta dos cantos das sereias, sejam eles entoados por quem quer que seja, e impede-os de forma contundente. Graças a isso, Orfeu, seu filho e cantor, consegue vencer as feiticeiras, fazendo-as lançar-se das rochas ao mar. O canto do deus é uma Chamada, algo luminoso. É diferente e de uma ordem superior: não é uma doce entoação feiticeira, na qual estão misturados venenos mortais; não é uma melodia sedutora, que faz naufragar as naus e rouba o tutano dos ossos de seus náufragos ao mar. É um canto iluminado, livre, potente, que não tem em si nada enganoso. O deus que, como nenhum outro, entende de dança, o dançarino Apolo, se faz dançar também na linguagem, no meio supremo no qual o espírito forma as suas figuras quando se apresenta metricamente. O senhor da medida é também o senhor da poesia metricamente ordenada dentro do canto melodioso que obedece ao superior.
Não é por acaso que Apolo é alheio ao caoticamente informe, às aspirações anárquicas, aos desejos e a qualquer perturbação da ordem: é ele um dos deuses mais belos. A sua figura é um arquétipo de beleza, sendo reproduzida e retratada por milhares de artistas, que se esmeram em representá-la. Destaca-se a do deus erguido, nu, pois nele é maximamente visível a perfeição de seus traços. A proporcionalidade dos membros e a consonância das partes com o todo suscitam a idéia da harmonia espiritual. Em sua postura, não existe nada violento, forçado e desgostoso, nenhum elemento de desassossego. O que se expressa na sua imagem é calma e reflexão desperta. É leve, altiva e parece flutuar de forma livre, absolutamente independente do ambiente. E, de fato, ela não tem história: nada a une a um passado nem a um futuro escuros. O fato de ser imortal implica ser superior ao perecível, e, por isso mesmo, sua figura dá-nos a sensação de separar-se completamente do espaço circundante, como se Apolo vivesse unicamente o tempo presente.
Apolo ama o que está configurado, o direito, o justo, e sua fúria resulta terrível para os que isso depreciam. Ele não conhece indulgência, e as suas flechas são infalíveis.
A nitidez vertical da luz e do conhecimento tem em si certamente algo doloroso, mas também algo que cura pela dor. A dureza corretiva e ordenadora de Apolo só parece insuportável aos de ânimo débil, oscilante e condescendente, da mesma forma que a luz muito clara pode cegar olhos fracos. Mas isso não comove o invulnerável e incorruptível Apolo, que segue sempre iluminando, pois sabe que há confusão e engano em todos os lugares onde há falta de conhecimento, de luz. Sua força danosa e a sua força saneadora constituem uma mesma coisa: Apolo mata porque dá vida.
Como deus que pune, Apolo é o mais rigoroso, duro e inexorável de todos, o que pune imediatamente, e sempre com a morte, as manifestações de desordem, de desmedida, de hybris1. Não existe em seu ser nada mediador, porque não é de sua natureza fazer concessões; ao contrário, a todo momento sua justiça se faz valer de maneira arrebatadora e inexorável. O respeitoso temor que ele desperta nos humanos provém do aniquilamento sem dó nem piedade dos violadores de suas ordens. Esse temor permanece sempre perceptível no homem apolíneo, chegando a converter-se num profundo espanto quando vê originar-se em seu interior algum conflito com o deus. No primeiro canto da Ilíada, de Homero, é esse o espanto que se apodera dos dânaos, quando Apolo envia a peste a seu acampamento, em função do ultraje infligido por Agamenon a seu sacerdote Crises. Tenebroso e aterrador como a noite escura, lança-se o deus sobre o acampamento e, enquanto vai avançando, ressoa um arco de prata; desse arco brota um som espantoso e as flechas de sua aljava produzem um ruído claro, mortal. Também são descritos, nesse canto, os sacrifícios expiatórios e purificadores que Agamenon ordena: a ablução de todos no mar – através da qual ficam lavados os sacrilégios – e a oferenda de cabras e touros, com a qual se aspirava conseguir a reconciliação com o deus.
O que significa esse conflito com Apolo? Na verdade, é o drama da humanidade que vem lutando entre duas forças e que tem por destino fazer prevalecer a Força Superior e elevada, a qual o deus representa. Se formos localizar o ponto em que surge o conflito dos homens em relação a Apolo, ao Bem, teremos que afirmar que é no momento em que atentam contra a própria natureza espiritual, transgredindo-a, cientes ou não de seus atos. Tal violação ofende a Apolo. Afeta ao deus o fato do ser humano escurecer seu próprio espírito, deixando-se iludir e criando confusão em seu meio.
E se, além disso, formos resumir o que caracteriza os gregos, poderíamos dizer que a realização suprema, em sua cultura, não é a filosofia, esse pensar que avança da linguagem das imagens à abstração; tampouco é a ciência grega, fundamento de toda ciência. O que caracteriza os gregos é o espírito onipresente de Apolo, que faz possível o pensar livre, imprescindível para a existência de filósofos, pitagóricos, acadêmicos e para a ciência. Pois o que é todo o pensar e toda a ciência sem a virilidade desse espírito?
Além disso, nada distancia mais Apolo do que aquele desejo de, a qualquer preço e até sob risco de aniquilação da própria vida, livrar-se da consciência e, com isso, da dor. O célebre “conhece-te a ti mesmo” não é senão ele mesmo que o pronuncia e que o reproduz com outras palavras, advertindo os homens:
“Não te enganes a ti mesmo, concentra a tua reflexão em ti e enxergarás quem és e para que estás destinado; e só lograrás enxergar a ti mesmo claramente, se estiveres sob a minha guarda. A quem me rende veneração, eu inundo de luz, e a claridade, embora doa-lhe, embora pareça queimá-lo como fogo, lhe será saudável. Pois o conhecimento de si mesmo não é pensável sem dor, como tampouco é pensável sem dor a consciência.”

Notas
1. A hybris (ultraje), segundo os gregos, violava as leis naturais. Ela caracteriza a desobediência à lei natural da vida. A hybris altera a ordem produzindo duplos, ambigüidades, dando do real a idéia de estar em contínua mutação sem nada definido. Etimologicamente híbrido deriva de hybris.

 

Adaptação do texto Apolo, de Friederich George Jünger.

 

E-mail
e-mail

 

IMPRESSÃO