A velhice, a doença
e a morte


Hospício da Piedade, Salvador, inverno de 1920.

Após haver participado do genocídio de Canudos perpetrado pela República depois de 77 anos de seu nascimento, o frei italiano João Evangelista, pouco tempo antes de seu desencarne, pensa em voz alta, expressando suas reflexões sobre a vida...

A memória é um fardo pesado. Quando se alcança a minha idade – 77 anos – ela opera como se não nos pertencesse. Agora é ela quem dita as regras. A cada dia, propõe uma agenda de fatos a serem esmiuçados, não raro sob o império da emoção e da dor. Não importa se tenho outros compromissos ou se gostaria de gastar o tempo inutilmente. Às vezes, fico sentado, olhos semicerrados, tentando não pensar em nada. É nessas horas que percebo o passado à espreita, rondando, buscando brechas para me martirizar. Essa luta se trava diariamente no meu espírito. Teimo em resistir, mas, em pouco, me faltam forças. Então sucumbo, fecho os olhos, e, após uma sensação que mais parece uma espécie de tranco, revejo situações como se fora espectador único de uma peça representada por atores mortos. Ouço as falas, tento avisá-los sobre o vazio de seus discursos para sempre terminados. Mas é inútil: sou devorado por cenários de grande intensidade dramática, gritos, risos desmedidos, bocas que se aproximam de mim para relatar o inconfessável. Só depois de muito tempo consigo recobrar a minha serenidade, mas sei que ainda não estou livre, trata-se apenas de um intervalo, logo virá o segundo ato dessa peça da qual participarei como ator, meu Deus, eu, um ator!
É assim que me sucede cada dia: sinto-me um morto entre os vivos e um vivo entre os mortos. Nessa condição, me dou conta de que a velhice não passa de zona de transição, região nebulosa onde sonhos e realidade se confundem. O bom dos sonhos é que, neles, os mortos e os vivos se igualam. Isso ocorre porque os personagens dos sonhos não têm matéria, andam em ruas que não existem, dirigem carruagens sem rodas, habitam mundos sem atmosfera e não se submetem às mais elementares leis da física. Os sonhos são intercâmbios possíveis entre o real e o imaginário, talvez um testemunho da existência do espírito.
Ah, a memória! Como ela se torna seletiva na velhice! Comigo sucede que, com freqüência, esqueço fatos recentes, do dia-a-dia. Às vezes me dizem algo e, pouco depois, me perguntam sobre a mesma coisa e já não sei do que estamos tratando. Outro dia, frei Caetano veio me ver e trouxe notícias da Itália. Como sempre, eu o ouvi atentamente. Depois me perguntou algo que não soube responder e percebi nele uma certa compaixão, talvez pela minha parvoíce, talvez pela minha condição terminal. Quase chorei. Ia dizer a ele que estes são meus últimos dias; no entanto, não tive coragem. Meio sem saber o que fazer, frei Caetano sentou-se numa banqueta, no canto de minha cela, e ficou ali me vigiando. Assim como estava, na penumbra, me pareceu que, para ele, o tempo não havia passado. É mais novo do que eu, e ainda bastante capaz de partir imediatamente para pregar no sertão uma das nossas Missões. Vendo-o de perfil, não pude me furtar à saudade daqueles tempos em que cruzávamos o interior, levando a palavra de Deus a tanta gente pobre e excluída. Quantas vezes nós nos perdemos juntos, eu e frei Caetano, em caminhos de areia, sob o sol escaldante, em meio à caatinga. Ah, como eu era forte! Não tinha os pés inchados nem me incomodava essa falta de ar que já não me abandona. São fortes os vínculos que me ligam a frei Caetano, ele, talvez o mais irmão entre os meus irmãos.
Agora lá está ele orando, talvez por mim. Daqui a pouco sairá sem que eu perceba e ficarei sozinho, no meu catre, cismando se também Caetano não é uma miragem, se de fato não é um morto que vem me visitar. De qualquer modo, é bom estar com ele porque, quando se for, serei devolvido ao passado, à interminável revisão de minha vida.
Meus dias são imensos. Há tempo de sobra para tudo e só a confiança em Deus me salva do desespero. Às vezes, penso fixamente numa determinada coisa e quase me divirto analisando os seus vários aspectos. É como se observasse um vaso sobre uma mesa e principiasse a descrevê-lo: primeiro pela minha percepção; a seguir, como se os olhos de outro o vissem; depois, sob o ponto de vista da mesa que o sustenta; e finalmente a partir do próprio vaso, como se fora ele um réu ao qual fosse dada a possibilidade de se pronunciar. Outras vezes, meu pensamento vagueia por lugares que conheci e onde nunca mais estarei: é quando me abate a saudade, e a sensação de impotência muito me incomoda. Então tenho vontade de vestir o meu surrado hábito e sair por aí, pregando a palavra do Senhor. Chego mesmo a tentar, mas, ai, minhas pernas não respondem, a velhice é um tempo em que a vontade é submetida à inércia do corpo. Músculos esgarçados, peles flácidas, juntas endurecidas, peso excessivo, inchaços, barafunda de ritmos cardíacos, respiração difícil; a morte aproxima-se de mim, mas sem pressa, operando uma lógica que não compreendo.
Recluso como estou, sinto falta do mundo. Tarde me dou conta de que sou humano ao limite em que isso é possível, gregário, indigente do conforto de meus semelhantes. Isso machuca. O crepúsculo é feito de muitas sombras, algumas mais densas que outras, e pesam demais sobre o espírito. Tenho os meus fantasmas, e de uns tempos para cá parece que eles se revezam para me atormentar. Disse isso a frei Caetano, e ele apenas sorriu. Depois pousou a sua mão sobre a minha e lembrou-me de que o caminho do céu é espinhoso, e os destinos são traçados sob os desígnios de Deus. Então, ofereceu-me o sacramento da confissão. Entendi que frei Caetano temia por mim, pela revolta contra o sofrimento após uma vida dedicada à religião. Eu o tranqüilizei. Expliquei que aceitava com resignação o destino que me fora reservado, não esperando em vida por qualquer compensação. E, mesmo no auge do sofrimento, jamais blasfemaria contra Deus ou negaria os princípios cristãos. Nenhuma dor, de qualquer intensidade, jamais lograria... Frei Caetano me interrompeu: eu não o entendera, seria ele o primeiro a dar testemunho sobre a minha fé. Eu me acalmei. Ele enxugou o suor que escorria da minha testa.
Frei Caetano se foi, e eu me senti bem, lépido, e me levantei. Quando saí ao pátio defronte ao meu quarto, ouvi as vozes dos frades no refeitório, orando antes do jantar. Pensei em ir até lá, mas resolvi passear. Segui pelo corredor até a porta, abri e vi a praça diante do hospício e da igreja da Piedade. Anoitecia em Salvador. Olhei as pessoas que atravessavam a praça e pensei nos caminhos que seguiriam. Imaginei-as espalhando-se pelas cidades Baixa e Alta, descendo e subindo pelo elevador Lacerda, seguindo para os lados da calçada e do Bonfim, saindo em barcos que as levariam para Itaparica, chegando à cidade nos muitos navios de cabotagem. Tive saudade do porto, das igrejas da Sé e de São Francisco, dos muitos anos em que percorri ruas dessa cidade que aprendi a amar. Depois vi mulheres entrando na igreja e quis estar lá para celebrar, ainda uma vez, a santa missa. Animado, corri para a sacristia, coloquei o paramento e fui para o altar. Entretanto, quando olhei para os bancos da igreja, reparei que estavam vazios. Então senti que a minha batina pesava demais, e era de pedra o crucifixo que tinha no meu peito. Desesperado, comecei a gritar. Quando vi frei Caetano colocando cataplasmas sobre meu tórax e ungindo a minha testa com um pano molhado, compreendi que não saíra do catre e um acesso de febre me fizera delirar.
Meu nome é João Evangelista Giuliani de Monte Marciano. Sou um frade capuchinho. Nasci na Itália, na pequena cidade de Monte Marciano, província de Ancona, litoral do mar Adriático, no dia 20 de outubro de 1843. Deixei meu corpo em 12 de abril de 1921, após longa e dolorosa enfermidade.

Humanus Loquitur

Triste? Em verdade, não. Todos passarão por algo semelhante.
A velhice, a doença e a morte são necessárias à evolução do homem, uma vez que sem elas ele se exaltaria de tal maneira que se transformaria num demônio. O sofrimento causado por esses estados naturais da vida é o santo remédio contra a arrogância, a prepotência e a ignorância, que poderiam dominar as pessoas e, conseqüentemente , aniquilá-las. O sofrimento, o inexorável, exerce uma função educativa, corretiva e purificadora, pois eleva o grau de compreensão, de humildade e de bondade de cada um.
Além disso, lembre-se, irmão, de que o impacto provocado pela constatação da velhice, da doença e da morte nos seres humanos foi o que motivou o príncipe Sidarta a buscar pelas respostas existenciais até o ponto de, ao longo de sua vida, transformar-se no Buda!


Bibliografia:
Trecho extraído da obra Canudos: As Memórias do Frei João Evangelista de Monte Marciano - Ayrton Marcondes – Editora Best Seller, São Paulo, 1997.
Texto do Humanus Loquitur extraído da obra Mistérios e Encantos da Oaska: Daniele Rodrigues entrevista o Mestre da União do Vegetal, Sama Editora, Campinas, 1998, e adaptado ao presente artigo.

 

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