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O Canto do galo
Chegada a hora de sua execução, e havendo já recebido nas mãos a taça de cicuta, Sócrates se encontrava rodeado de discípulos. As últimas palavras que lhes dirigiu depois de silenciosamente beber o veneno mortal, foram:
- Eu devo um galo a Esculápio. Críton, paga esta dívida!
Naquela época, era costume oferecer um galo a Esculápio, deus da medicina, quando se alcançava a cura de alguma doença. Mas dadas as circunstâncias em que o sábio se encontrava, essa solicitação gerou grande perplexidade em meio a todos os presentes. Afinal, o Mestre vivia naquele momento uma situação totalmente oposta à dos doentes! Mas na verdade, não foi somente aos discípulos que seu pedido causou espanto. Ele tem representado, na verdade, um enigma até mesmo para os mais eruditos filósofos. "O que teria levado", perguntam-se eles, "um expoente da sabedoria como Sócrates a falar em galos no momento que precedeu seu último suspiro?"
Para poder entender a atitude do mestre grego, é preciso levar em conta, em primeiro lugar, que a morte iminente não representava para ele senão uma possibilidade de cura, pois, através dela, poderia livrar-se por fim do "mal da humanidade", isto é, do fardo de ter que conviver com as fraquezas e vilezas humanas. E como as curas eram atribuídas a Esculápio, foi justamente a este deus que o sábio atribuiu sua libertação. Aquele que possuía o dom de curar os corpos estava prestes a presenteá-lo com as benesses da morte, e Sócrates, que era médico de espíritos, lembrou-se, em sinal de gratidão, de retribuir-lhe o obséquio presenteando-lhe com um galo.
O enigma se desfaz por completo quando se considera também que o galo é o arauto do romper da alvorada. Seu canto sempre esteve associado ao despertar dos homens e ao nascer do dia. E esse mesmo canto pode simbolizar também um despertar espiritual, provocado por uma mensagem que anuncie a possibilidade de transformação do ser humano. Sócrates pôde chamar à realidade grande parte dos que tiveram a graça de ouvi-lo, porque o verbo, quando portador da verdade, tem o poder de dissipar qualquer vestígio de dormência. A classe dirigente da cidade, porém, sentiu-se incomodada com suas palavras a ponto de seus membros conspirarem para destruí-lo. E tão néscias foram essas pessoas que, enquanto o sábio, ao mencionar o galo, lhes indicava esse símbolo que a ele próprio representava, tentavam elas fazer desaparecer o simbolizado. Mas o ensinamento que o Mestre de Platão (e tantos outros que o seguiram) legou às gerações vindouras não estava ao alcance de seus algozes destruir. Tanto é que hoje, 2.500 anos depois, podemos resgatar aqui, nestas páginas, a simbologia que essa ave representa. Quão misteriosos são os desígnios da História!
Da mesma forma que o galo, a revista Humanus pode provocar um despertar. Porque, conforme já mencionado nas edições anteriores, ela foi idealizada como um instrumento de revisão de valores na sociedade contemporânea. E, felizmente, desde a publicação de seu primeiro número, tem ela conseguido causar reflexões e mudanças substanciais em inúmeras pessoas em termos de concepção de vida e comportamento. Sua abordagem inovadora, corajosa, direta e, por isso mesmo, distinta de tudo o que tem sido apresentado no mercado editorial, tem trazido à tona condicionamentos e preconceitos arraigados nas profundezas da mente de muitos leitores. A maioria dos que foram atingidos por esse extenso exame da Humanus se sensibilizou e manifestou, oralmente ou por escrito, admiração e solidariedade aos responsáveis por este veículo de comunicação. Alguns enviaram à Redação, a título de colaboração para as próximas edições, textos, imagens, informações e sugestões que se afinam com a linha editorial da revista, e outros se ofereceram para divulgá-la em suas cidades.
Mas houve também os que reagiram de forma negativa, julgando todo o conteúdo do anuário de forma superficial ou emotiva e demonstrando desse modo estarem presos a condicionamentos ideológicos e religiosos. Aconteceu que uma pessoa de origem judaica tachou a Humanus de publicação nazista e acusou todos os membros de seu Conselho Editorial dos crimes de racismo, formação de quadrilha e incitação ao crime. A causa da revolta foi a imagem de abertura do artigo Sionismo X Nazismo: a semelhança dos opostos, na qual, conforme referido em A reação da ignorância, texto do presente número que trata mais detidamente do assunto, vê-se metade do rosto de Hitler e metade do de Einstein fundirem-se num único rosto. Esse artigo expõe o fato de ter sido Albert Einstein o mentor e organizador da invenção da bomba atômica e, portanto, um dos maiores genocidas da História, e estabelece entre ele e Adolf Hitler - assim como entre o Nazismo e o Sionismo - diversos pontos de comparação.
Em relação ao mencionado cientista, sentimo-nos no dever de esclarecer ao público que os meios de comunicação vêm sendo usados, há décadas, para projetar, dele, uma imagem deformada e portanto irreal. E tão insistentemente repetiu-se a inverdade de que Albert Einstein é um benfeitor que muitos acabaram por acreditar nela, e, hoje em dia, ela é praticamente um dogma. Quanto às acusações de que fomos alvo, o que temos a dizer é que, antes de se sentirem ofendidos com as afirmações da Humanus e de se lançarem contra ela, membros pertencentes a qualquer grupo social eventualmente criticado em algum de seus textos devem, em nome do bom senso, dar-se ao trabalho de conhecer na íntegra o conteúdo do anuário. Agindo dessa forma, terão a oportunidade de descobrir que seu grupo não é o único que está sendo colocado em xeque, mas apenas um dentre inúmeros outros grupos sociais, culturais, religiosos e políticos. Foram alvo de exame, por exemplo, o sistema político-econômico nacional (vide Réquiem para o Tietê, na Humanus I) e o internacional (Bilderberg: o plano de dominação mundial, na Humanus II; Marx: o ideólogo do crime, também na II, artigo que evidencia a violência no Comunismo; e Ditadura e democracia, na I), a ciência contemporânea (Ciência sem consciência, na Humanus II, que aborda o atrelamento da ciência à política, e Medicina Globalista, também na II), a arte teatral atual, que, afastada de sua origem, impregnou-se de um espírito anárquico e pernicioso (Teatro: a volta às origens, na Humanus II) e a mídia nacional e internacional (Imprensa e Ética; Telecomunicações, liberdade e educação e Idolatria, na I).
No editorial passado, respondemos à pergunta Quem tem medo da verdade? afirmando que, salvo raras exceções, todas as pessoas a temem. O mesmo editorial afirmava:
"A História está pejada de exemplos de perseguições e injustiças cometidas contra os que ousaram pregar a verdade aos seus contemporâneos, não tendo faltado, ao longo dos séculos, instrumentos contundentes para punir os audaciosos, como pedras, cruzes, forcas, fogueiras, guilhotinas, venenos, prisões, torturas, fuzilamentos, além de conluios, conspirações, pressões econômicas, difamações públicas, ações judiciais e outros meios. Vãs tentativas!"
Nossas afirmações, pois, se revelaram proféticas: não apenas resgataram o passado mas também prenunciaram o futuro, já que, por termos afirmado determinadas verdades, vimo-nos, subitamente, na condição de acusados. Sem dúvida, melhor fariam os pseudodemocratas se, ao invés de empenhar-se em abafar a difusão de idéias que os desagradam, adotassem a mesma atitude que é adotada pela revista: a de respaldar suas idéias com argumentos convincentes e informações devidamente documentadas.
Obviamente fácil não é para nenhum homem da Terra volver os olhos sobre sua própria história ou sobre a de seu grupo social, porque sempre haverá culpas a admitir! Mas o mais sensato e honesto que alguém tem a fazer ao deparar-se com as próprias falhas e com as fraudes e erros históricos de seus antepassados é admiti-los. Afinal, a verdade será sempre verdade. E, convenhamos, fugir dela alegando injusta perseguição, preferindo antes fazer-se de vítima que encará-la e deixando-se tomar por uma verdadeira paranóia é antes coisa de choramingas que atitude de democrata.
Mas talvez tudo seja uma questão de humildade para aceitar críticas. Pois, apesar de vários terem sido os grupos sociais atingidos pelo exame realizado pela Humanus, não tivemos notícia de que membros de qualquer outro que não aquele a que nosso acusador pertence tivessem tentado mover ação judicial contra nós. Houve, realmente, algumas reações de não aceitação, como a de uma gráfica católica que se recusou a imprimir as obras da Sama devido ao teor dos artigos Cátaros: hereges ou bons cristãos? (Humanus I) e Cristianismo e Reencarnação (Humanus II) e a de um Banco que negou um financiamento à Editora após alguns de seus representantes terem lido o artigo Quem quer dinheiro? (Humanus I), que critica com severidade a prática da usura. De resto, porém, as manifestações de desagrado restringiram-se a cartas expressando opiniões discordantes. O grupo dos revisionistas, por exemplo, que se dedica a pesquisar informações divulgadas a respeito da Segunda Guerra, manifestou indignação por Hitler aparecer ao lado de Einstein naquela mesma gravura do artigo Sionismo X Nazismo: a semelhança dos opostos que deu ensejo às acusações, alegando não ser justo que a imagem de um chefe de Estado como Hitler fosse colocada junto à de "um desclassificado como Einstein" (vide seção Cartas dos Leitores). Mas não passaram disso.
O medo que algumas pessoas sentem da verdade é tão grande que, mesmo dispondo de bombas atômicas e milhares de Bancos e tendo um controle quase que absoluto sobre a imprensa, ainda assim tremem diante de algumas letrinhas colocadas no papel por quem sabe discernir a ilusão da realidade. Se temem, é porque devem. E, por temerem, tremem a ponto de quererem processar judicialmente aqueles por quem se sentem ameaçadas. Mas o medo pode às vezes levar a ações insensatas. Nosso acusador, por exemplo, chegou ao ponto de dizer-se vítima de discriminação racial por parte de (pasmem!) homens e mulheres de sua própria etnia, já que nada menos que 50% dos membros do Conselho Editorial da revista Humanus são de origem judaica. É de se presumir que o detrator se sinta incomodado pelo fato destes homens e mulheres haverem se libertado das milenares correntes através das quais, com argumentos vazios, tentava-se insistentemente convencê-los de que são pessoas especiais. Não é por acaso, certamente, que a palavra igual, em hebraico, pronuncia-se chave. É nossa vontade que, antes de soarem as trombetas do reino de Josafá, possa ele encontrar a chave capaz de fazê-lo compreender o quanto é ridícula, mesquinha e risível a pequenez do preconceito.
A atitude do acusador, não resta dúvida, é própria de quem não ouviu o canto do galo (como se vê, a incompreensão não é exclusividade do povo da velha Atenas...). Se ele fosse um bom judeu, tal como procura parecer, trataria de seguir o exemplo de Simão Barjonas, discípulo de Jesus que após negá-Lo por três vezes deu-se conta de sua traição e voltou a si no exato momento em que ouviu o canto do galo, quando então se lembrou da advertência recebida do Mestre, que previra que antes que o galo cantasse ele O negaria por três vezes. Foi somente a partir do reconhecimento de seu erro que Simão se tornou Pedro, o bom judeu.
Mas ainda é tempo: oxalá o terceiro canto da Humanus desperte o autor da denúncia de sua letargia ignorante e de seu preconceito e contribua para que ele siga o exemplo de seus irmãos maiores, verdadeiros judeus que compõem o Conselho Editorial da revista e que são autores do artigo em questão.
Tudo isto nos lembra uma história que teve lugar, justamente, no seio do povo de nosso acusador. Na Tchecoslováquia do século passado, havia um homem chamado Steinbirg, que era a encarnação de um dos principais criados de Caiafás.
Steinbirg vivia a encetar inauditos esforços no intuito de vir a ocupar algum cargo público de influência na cidade de Praga. Dono de um espírito tacanho, procurava compensar suas deficiências freqüentando cursos na universidade local. Inutilmente, porém, porque, estivesse ele na universidade ou fora dela, o fato é que sua capacidade de compreensão encontrava-se sempre aquém do mediano, de modo que empacava com facilidade em qualquer questão minimamente complexa.
Possuía Steinbirg vultosa fortuna, composta de herdades a perder de vista e de participações acionárias nas principais casas bancárias da Europa. E, como gostava muito de ostentação, lançava mão dos inúmeros meios a seu alcance para que seu nome fosse colocado em praças públicas e nas portas das sinagogas. Nessa empresa em particular era, amiúde, bem sucedido. Pois, apesar de sua escassa inteligência e virtude, Steinbirg, não podemos negá-lo, era sagaz e matreiro, e, malazartemente, sempre conseguia expor seu nome e o de sua família em lugares de destaque.
Havia em Praga um homem do qual Steinbirg era ferrenho opositor. Tratava-se do rabino Jakin, homem modesto e simples, respeitado por sua virtude e prudência. Aos sábados, costumava o rabino atender a todos os que o procuravam em busca de esclarecimentos e orientação. Sua sabedoria, permeada sempre de elevado humor, fazia com que acorressem a ele pessoas dos mais longínquos recantos.
Num desses concorridos sábados, quando o Mestre atendia numa montanha próxima a Praga, Steinbirg, a fim de provocá-lo, enviou até ele seu imberbe filho, não sem antes recomendar-lhe que de tudo fizesse para tumultuar os seus trabalhos e confundir a congregação a seu respeito. Ao entardecer, bate à porta da casa do rabino o pequeno judeu, que, apresentando-se com ar de bonzinho e olhar cativo, dirige-se à pessoa que o atende nos seguintes termos:
- Boa noite, senhora. Posso falar com o Mestre? Pois tenho a relatar-lhe um fato inédito que muito me aflige.
Recebido pelo Mestre Jakin, o pequeno Steinbirg declara:
- Há cerca de uma semana deixei cair uma rabanada de pão untada com manteiga e eis que, então, um grande prodígio se deu: a rabanada não caiu do lado que estava untado. Ao contrário de todas as tradições, todas as crenças e de tudo o que nas Escrituras a esse respeito se afirma, ela caiu do lado em que o pão estava sem a manteiga. Verdadeiro milagre, Mestre! Essa história já há dias percorre a cidade e tem sido motivo de reuniões e profundas discussões. Como pôde a rabanada haver caído naquele dia do lado que não estava untado com manteiga? Já consultei diversos dos mais destacados membros de nossa comunidade e nenhum deles soube resolver a questão. Deveremos marcar uma reunião na sinagoga para tratar do assunto? Como desvelar o mistério da rabanada?
O rabino Jakin, lançando ao rapaz um olhar altaneiro, limitou-se a pedir-lhe quarenta e duas cabalísticas horas para refletir, sendo que, no esgotar desse prazo, estaria presente na sinagoga a fim de responder a sua intrincada questão. Depois, é claro, de contínuas rezas, de um rigoroso jejum, consultas a livros santos e muita reflexão.
Ao fim do prazo estipulado, o Mestre, com uma expressão algo enfadada mas ao mesmo tempo iluminada pela verdade, apontou finalmente na entrada da sinagoga. Estava ela abarrotada de gente, pois que a notícia do sucedido correra veloz pela cidade e muitos queriam acompanhar de perto o desfecho do episódio. Após alguns minutos de silêncio, sentenciou ele, em voz pausada e solene:
- A solução é simples. Não é que a rabanada tenha caído mal. O que aconteceu foi que você, meu pequeno Steinbirg, passou a manteiguinha do lado errado...
O garoto havia imaginado muitas possíveis respostas, mas por essa, definitivamente, ele não esperava. Passado o susto inicial, deu-se conta de que, agora, todos os olhares se dirigiam a ele. E, como não soubesse ao certo o que dizer ou fazer, limitou-se, gaguejante, a dirigir ao venerável rabino um breve agradecimento, após o que bateu prontamente em retirada.
Entrementes, no cenário político internacional, fermentavam os acontecimentos que, meses depois, levariam à eclosão da Segunda Guerra Mundial. Iniciado o conflito, o país foi invadido e diversos judeus foram presos, inclusive o Mestre Jakin e seu detrator Steinbirg.
Vinte anos após o término da guerra, o rabino, que já há tempos havia passado a residir em Nova Iorque, saía certo dia de uma livraria na grande metrópole quando, de repente, sofreu um esbarrão seguido de uma forte pisada no pé. Viu-se então diante de um homem baixo e atarracado, que, longe de pedir-lhe perdão por seu descuido, pôs-se a emitir terríveis imprecações num sofrível ídiche. O Mestre, sem nada dizer, contemplou calmamente a esquisita criatura, que, inesperadamente, silenciou por completo.
Notou então o rabino que seu agressor tinha o olhar parado e a boca ligeiramente aberta, e que não se encontrava só, mas estava acompanhado de outro homem mais jovem, cuja figura, no todo, era bastante similar à sua.
- Mestre Jakin? Não é o senhor o Mestre Jakin? - disse-lhe o homem, visivelmente surpreso.
- Sim - responde o Mestre - sou eu.
- Pois eu sou Steinbirg. Não se lembra de mim?
- Ah, sim, o Steinbirg de Praga! Estou me lembrando do senhor!
- Eu mesmo. - responde-lhe ele - Como tem passado todos esses anos? Soube, há cerca de uma década, que, assim como eu, esteve preso naquele horrível campo de concentração...
- É verdade - diz o Mestre - Mas já faz bastante tempo que tudo acabou, não é mesmo?
- Como?! - retruca, estupefato, o velho Steinbirg - Tudo acabou, o senhor diz? Para nós, essa história nunca há de acabar!
- Pois comigo é diferente - responde-lhe o rabino. - Eu não me lembro de mais nada do que vivi lá.
- Como?! Com que então o senhor se esqueceu de tudo aquilo? O senhor nem parece um judeu!
- De fato, eu não pareço, Steinbirg. Eu sou!
- Mas como é que o senhor pôde ter se esquecido de tudo o que nos aconteceu? Nós todos sofremos tanto... O senhor parece que não tem memória! Eu só faço pensar naquele maldito campo de concentração e naqueles miseráveis nazistas a cada momento de minha vida. Eu até sonho com eles...
- Então - responde o rabino - se assim é, isto é sinal de que o senhor ainda não conseguiu sair de lá. Continua prisioneiro até hoje... Mas diga-me uma coisa: tendo o senhor uma memória tão admirável, presumo que dos dois lados da rabanada também se recorde, estou certo?
Steinbirg e o homem ao seu lado empalideceram.
- Pois bem, - prosseguiu o sábio - permita-me aproveitar esta ocasião para dizer-lhe tudo o que a respeito deste assunto não cheguei, naquela época, a expor a nossos concidadãos.
Steinbirg era todo ouvidos. Após breve pausa, prosseguiu o rabino:
- O fato é que um dos lados da rabanada representa aquilo que devemos esquecer: o ódio, o rancor, o preconceito e tudo o mais que possa gerar discórdia e desunião entre as pessoas. Esse, meu caro, é o lado errado. Quanto ao outro, o lado certo, representa exatamente o contrário, isto é, todas as coisas que, por serem capazes de conduzir os relacionamentos humanos a um mais elevado grau de concórdia e harmonia, devemos sempre ter presentes na memória, como o dom de corrigir os próprios erros e o de perdoar os alheios. Em outras palavras, o que nunca devemos esquecer é o fato de que, seja como for e aconteça o que acontecer, cada homem do mundo é sempre nosso irmão e, sendo assim, devemos tratá-lo e amá-lo como tal.
O homem mais jovem, que não era senão o protagonista da velha história da rabanada, puxou o outro pela manga e, sem sequer se despedirem, partiram os dois meditando em silêncio.
Vários anos depois desse encontro, o rabino Jakin, já de volta a seu país de origem, atendia novamente, como nos tempos antigos, na mesma montanha próxima a Praga. Seu cabelo branqueara totalmente e as rugas lhe cobriam o rosto, mas seu semblante se mantinha sereno e seu olhar de fogo e sábias exposições continuavam, cada vez mais, a atrair as multidões que em busca de orientação o procuravam.
Deu-se um dia que, após ter concluído o Mestre seus trabalhos, e encontrando-se ele só no recinto em que estivera com seus discípulos, dispunha-se já a recolher-se quando, de repente, notou que alguém se aproximava à sua porta. Ouviu então batidas e prontamente atendeu o visitante, um homem que parecia ter entre quarenta e cinqüenta anos. Este, ao vê-lo diante de si, saudou-o respeitosamente e pediu-lhe licença para entrar. Uma vez no interior da habitação, disse ao rabino:
- Rabino Jakin, imagino que o senhor saiba quem sou.
- Certamente. - respondeu ele, que não tinha qualquer dúvida acerca da identidade de seu interlocutor. - O senhor é o homem que certa vez me propôs o enigma sem par das rabanadas, pois não?
- Assim é - respondeu ele, algo acabrunhado. - Mas desta vez não venho propor-lhe enigma algum.
- Vá em frente - encorajou-o o Mestre.
- Lembra-se daquele encontro com meu pai em Nova Iorque?
- Decerto que sim.
- Bem, eu também estava...
- Eu sei, meu caro, eu o reconheci assim que o vi.
- O que tenho a dizer-lhe, Mestre, é que desde aquele encontro meu pai nunca mais foi o mesmo. Quer dizer, todos perceberam que alguma coisa lá dentro dele havia mudado. Ele já não falava aos gritos com todos como sempre o fizera, já não remoía tanto as velhas mágoas do passado e já não se punha a morder o pé da mesa quando as coisas não se davam a seu gosto, velho hábito seu que era motivo de grande desgosto para toda a família. Obviamente, todas as pessoas de seu relacionamento se sentiram beneficiadas com a mudança, e estou convencido de que ela é resultado daquele encontro. E em minha própria pessoa, percebo que o senhor exerceu também uma influência benéfica, mesmo porque nunca mais pude me esquecer de tudo aquilo que na ocasião falou. Então, como sei que lhe dei bastante trabalho quando jovem, compreendi que o mínimo que poderia fazer agora seria manifestar-lhe meu reconhecimento e agradecimento por tudo o que nos ensinou.
- Quer dizer então que a história das rabanadas valeu?
- Sem dúvida - disse o outro, meio cabisbaixo.
A partir daí, puseram-se os dois a conversar longamente, relembrando episódios daquele passado em que ele, o filho de Steinbirg, vivia, ainda imberbe, a provocar o rabino, e este pôde constatar que o homem estava sinceramente arrependido por tudo aquilo que fizera. Passaram-se assim as horas e, a certa altura, o bom rabino disse:
- Agora, meu caro, quem quer propor um enigma sou eu. Não é justo?
O filho de Steinbirg arregalou os olhos.
- Não se assuste, meu filho - tranqüilizou-o o Mestre - Trata-se de uma pergunta bem simples. Responda-me, se puder: como sabemos que é chegado o ponto final da noite e que o dia amanhece?
O homem pôs-se a meditar e, passados alguns minutos, arriscou:
- Quando podemos distinguir uma ovelha de um lobo.
- Não, não é esta a resposta - disse o Mestre.
- Quando podemos distinguir uma oliveira de uma figueira?
- Não - disse o rabino - também não.
- Então, como poderemos saber?
- É no momento em que olhamos um rosto desconhecido e reconhecemos nele um irmão.
Foi então que, naquele dia que começava, ouviu-se o galo cantar.
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