E o palhaço, quem é?


“Vendo passar nas cidades populosas milhares de pessoas com a expressão de embotamento ou de pressa febril, digo a mim mesmo uma vez e outra: ‘Que desgostosas elas devem se sentir!’. (...) Pois o sentir não justo as domina e as controla sem cessar, e não permite que admitam sua miséria perante si mesmas. De modo que chamam felicidade àquilo que é sua calamidade.”
(Nietzsche, Wagner em Bayreuth)


Um homem sofredor de um tédio permanente
buscava ao seu espírito conforto
e quem o livrasse da dor intermitente.
Qual náufrago ansiando por um porto
atravessou terras e mares visando encontrar
alguém que fosse capaz de o curar.
Um dia um sábio o tornou ciente
da existência de um médico célebre e afamado.
E eis que o homem, com o coração esperançado
diante do doutor se encontrou presente.
– Recorro a vós, senhor – disse o paciente –,
porque a dor que me martiriza
e que o espírito aflige de forma tão contundente
resulta de uma chaga que nunca cicatriza.
Tornei-me há tempos escravo de minha mente
e sofro hoje atroz hipocondria,
não posso evitar ser pensativo e doente
e por isso já nem sei o que é paz ou harmonia.
Sendo vós o mais sábio clínico do mundo,
médico notável e do peito humano auscultador profundo,
rogo-vos que cureis este mal inexorável
que o cérebro me embruma e me turva a visão.
Já não mais me pulsa o coração
e é com sacrifício que suporto uma cabeça
cujos pensamentos só me causam confusão.
Indagou então o médico:
– Já sentiste algum dia em teu peito
as chamas da paixão qual vendaval desfeito?
– Sim – respondeu o homem.
– E o amor – continuou ele –, já o conheceste?
– Sim, e procurei fazer dele bom proveito.
– E viajar, já viajaste?
– Sim. À Terra Santa, à Grécia e a grande parte do Oriente, depois de Paris, Florença e quase todo o Ocidente.
Mas de tudo me angustia uma lembrança
imorredoura, eterna, e uma insegurança por demais pungente.
– Amigo – concluiu o médico – só há no mundo um lugar
em que alento para tua terrível dor poderás encontrar.
Existe na Romênia, em Bucareste, um homem capaz
de todo o teu tédio seguramente aniquilar.
Esse homem singular, que a todos o riso inocente traz,
é um impagável palhaço a cujos gracejos ninguém pode resistir.
Talvez sua figura brejeira possa a gargalhada franca te restituir!
Subitamente, dos olhos tristes do homem que o ouvia,
brotou uma única lágrima que por sua face corria.
E foi com voz embargada e o peito dilacerado
que ele expôs a verdade em tom amargurado:
– Vejo, doutor, agora, que meu mal é incurável,
pois o palhaço de que falais, o palhaço aclamado,
tem um riso de morte, um riso mascarado,
e sente profundamente a dor do tédio e do cansaço.
Porque sou
eu, doutor, sou eu esse palhaço!

 

Então, muitas vezes, quem mais parece é, justamente, quem menos é. Nesta história do palhaço, ninguém parece ser tão feliz quanto ele, embora seja ele na verdade tão profundamente infeliz.
Neste vasto mundo de Deus há legiões e legiões de palhaços: há palhaços humildes, palhaços abastados, palhaços engravatados, palhaços eleitos, palhaços que perderam eleição ou que nunca se candidataram, há palhaços informatizados, concursados, palhaços graduados no estrangeiro, em terra própria ou que nunca se graduaram, palhaços miúdos, palhaços graúdos, e até mesmo aqueles que são profissionais.
Diante de tão grande variedade, ganha uma banana quem souber de quem é a palhaçada maior. Vai aqui uma dica: atualmente, milhões de pessoas se deparam a cada dia, na TV, em jornais e em revistas, com um complexo palavreado através do qual se tenta justificar o caos social e econômico em todo o mundo. Se pensaram em seus autores, então levem logo a banana. Mas cuidado para não engolirem a casca, embora ela seja de mais fácil digestão que as coisas que eles nos dizem.
Numa linguagem tão ininteligível quanto convincente, os autores do referido palavreado, os porta-vozes da globalização, procuram infatigavelmente convencer-nos de que “tudo vai pelo melhor”. E quanto mais uma nação for descendo a ladeira, tanto mais estarão eles empenhados em iludir a todos alegando o contrário.
Mas esses palhaços verborrágicos não são os únicos a se destacar no grande e concorrido picadeiro da sociedade contemporânea. Através dos meios de comunicação, chegam a nós os ecos estapafúrdios das vozes de muitos outros. Artistas de sucesso, apresentadores de programas de auditório, renomados intelectuais, etc., etc., toda essa gente que aparece facilmente na mídia do sistema e que parece (e como parece!) tão realizada na vida, costuma esconder, à semelhança do romeno do poema, uma aterradora inconsistência e um imenso vazio existencial.
E até mesmo as platéias desses alvoroçados arlequins cometem lá as suas próprias bufonarias. O simples fato de se submeterem elas a vê-los e ouvi-los já é por si só assaz comprometedor. Trata-se quase sempre de pessoas programadas para desperdiçarem o máximo de energia possível procurando parecer ser, e dispostas, portanto, a imitar as trapalhadas daqueles a quem tomam como modelos de vida. Só que, aparências à parte, o conteúdo, nos casos em que há algum, continua o mesmo. Sendo assim, não é de estranhar que tanto proliferem atualmente os consultórios de psicanálise, as pseudo-religiões e os recursos de auto-ajuda em geral. Muitos se dizem preparados para auxiliar a todos, mas, via de regra, nem a si mesmos conseguem auxiliar...
Naturalmente, não se trata de atribuir todas as palhaçadas da História à época em que vivemos: cada século teve as suas, com peculiaridades próprias. Acontece, porém, que em décadas recentes o quadro se intensificou, pois através dos meios de comunicação de massa conseguiu-se difundi-las e multiplicá-las como nunca antes havia sido possível. E tão grande é o poder de atração que tais meios exercem sobre a maioria das pessoas que raros são os que conseguem se manter imunes a suas nefastas influências.
Mas, pressões à parte, temos todos a nosso favor o inigualável trunfo do poder de decisão: afinal, quem é que nos obriga a consumir o lixo da pornografia ou aquele besteirol cotidiano dos jornais e da televisão? Quem é que nos obriga a aceitar e a adotar as futilidades de um modo de vida cada vez mais americanizado? Absolutamente ninguém. Quando um homem consegue se dar conta disto e reage à tirania do sistema, abre-se em sua vida a porta mágica do imprevisível. Inimagináveis surpresas poderão estar à espera dos que agirem assim, rompendo o ilusório fio que os mantinha escravos da ideologia do pensamento único. Somente a partir de tão significativa atitude é possível começar a ser de fato tudo aquilo que antes se procurava apenas parecer.
E tudo isto nos lembra ainda outra história, a do elefante da selva que foi à cidade e deu de cara com um elefante de circo atado pela pata, com uma corda, a um pequeno toco de madeira cravado no chão.
– Mas por que raios será que ele não arrebenta a corda e vai embora? – pensou o visitante. E havia acabado de perguntar-se isto quando, olhando em volta, deparou-se com outro elefante na mesma situação. A diferença é que este era ainda um filhote, e foi então que o elefante selvagem finalmente compreendeu tudo: o mais velho só não se livrava da corda porque havia sido adestrado para tolerá-la desde pequeno e, portanto, induzido a acreditar que era incapaz de rompê-la. E assim, mesmo sendo agora extraordinariamente forte, nada fazia a não ser permanecer ali, imóvel, acuado e amedrontado diante de sua suposta impotência para tomar qualquer medida para se libertar.
Cá entre nós, além de estarem programados para fazerem papel de palhaço, integrantes da sociedade contemporânea comportam-se de forma semelhante ao elefante adulto do circo: ignoram a força que têm. E nesse contexto tão pleno de ignorância e submissão, circo amplo e ridículo cujos donos – os globalizadores – são especialistas em fomentar a idiotice das massas, a Humanus é como o elefante da selva que encontra o da cidade: compreende que a inércia moral, intelectual e existencial a que muitos se sujeitam desapareceria imediatamente caso eles descobrissem que, para tanto, tudo o que teriam que fazer é dignar-se a despertar e reagir a ela.
Mas, enquanto isso não acontece e as pessoas ainda insistem em manter-se no marasmo da apatia e da inércia, eis que vemos surgir das trevas da ignorância um apocalíptico palhaço, que armado até os dentes e montado num elefante aparentemente invencível faz de tudo para aterrorizar o planeta. Dotado de vistosa cabeça de ouro mas esquecido de que seus pés são de barro, esse palhaço representa a mais moderna versão do despotismo e da tirania em grande escala.
Submissa e invariavelmente servil, segue os passos dessa esquisita figura uma multidão de sequazes. São eles os representantes do poder político e das entidades ditas religiosas em todo o mundo, os quais, numa cumplicidade de centenas de anos, fomentam das mais variadas formas a guerra e o ódio. Os primeiros prometem a ventura terrestre e os segundos o paraíso no céu, sendo que, na realidade, ambos ameaçam com um verdadeiro inferno na Terra e fazem quanto podem para despojar-nos de nossas alegrias.
Triste retrato este da atual sociedade globalizada, chefiada por um belicista paranóico que ameaça o mundo. Ora, o veneno do medo é a origem do ódio, e o ódio e o medo são os maiores obstáculos ao amor. Sendo assim, pretendendo intimidar as populações, ele e seus esbirros pretendem, igualmente, impedir a todos de ter um coração amoroso. O amor não precisa de fanfarronice. O amor não é fácil nem difícil, é como respirar, é necessário e natural. Mas eles, os bonzinhos, os arautos da democracia, os protetores do mundo, com seus artifícios e armas letais tentam fazer com que os homens percam a naturalidade e a espontaneidade do amor.
Um homem que não sente amor é um homem contra a vida, é alguém desprovido da única força capaz de contribuir para desmontar esse gigantesco esquema global. Daí que aqueles que dirigem o mundo tanto se empenhem em inibir em nós esse sentimento essencial à vida. Eles não querem uma humanidade, mas uma manada de elefantes monitorada por um palhaço insano que, diferentemente do inocente protagonista do poema em epígrafe que sofria de tédio, está inexoravelmente destinado a sofrer de um angustiante terror e medo tão presentes e constantes quanto sua própria sombra, resultado inevitável de sua obsessão macabra de querer impor-nos a todos uma ridícula e malfazeja ideologia. Por favor, carniceiro do Iraque, vá para o inferno e nos deixe em paz!
E aos leitores, até sempre! E com direito a férias, porque os humanus já estão quase enjoados de pagar para trabalhar. Voltaremos assim que surgir um ou mais espíritos generosos capazes de financiar de forma incondicional a Humanus V, a qual, aliás, já se encontra bem adiantada. Mas também não podemos descartar a hipótese de voltar a qualquer momento, dependendo da necessidade.

A redação.

 

 

E-mail
e-mail

 

IMPRESSÃO